18/08/2007
Ano 11 - Número 542

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

A VIDA COMO ELA É

 

Outro dia havíamos ido a um Cartório, aqui em Cabo Frio, para reconhecer minha firma em alguns documentos. A fila não era das maiores, mas em cartório, fila, mesmo pequena, engana muito, podem crer.

Como havia umas cadeiras que estavam vazias sentamos, eu e Marlene. Logo depois chegaram mais duas pessoas que se puseram ali ao lado esquerdo de Lena. Durante a nossa espera entrou uma senhora, pode-se dizer que ainda jovem, e se sentou ao meu lado direito.

Cumprimentamo-nos educadamente e ela também sorriu para nós. A certa altura, sem que nada lhe fosse perguntado, a referida senhora voltou-se para mim e falou. Percebia-se claramente que ela precisava falar, que desejava desabafar, sei lá.

Começou dizendo: “Meu senhor, esta vida é mesmo um enigma indecifrável, não acha?” Respondi afirmativamente. E na verdade acho isso mesmo. Ela então prosseguiu como se buscasse algum apoio ou apenas quisesse contar a história de vida que carregava no seu peito e no seu coração. Nada de lágrimas.

“Veja que, face à idade avançada de meus pais, já na faixa dos oitenta, e ambos meio adoentados, eu vinha me preparando há algum tempo para uma eventual perda de um deles ou de ambos. A vida é assim mesmo.”

A essa altura ficou fácil deduzir que pelo menos os pais da jovem senhora ainda estavam com ela, vivos da silva. Ela então respirou fundo e, sem alterar muito sua expressão facial, continuou.

“Aí, de repente, meu marido, que tinha 59 anos, sofre um enfarte fulminante e morre. Eu não estava preparada para isso, não mesmo. Ele parecia esbanjar saúde, amigo.”

Comecei a perceber que era mais uma dessas histórias de vida que volta e meia acontecem e nos deixam atônitos, até porque a gente fica sem saber se devemos ou não seguir tantas recomendações médicas, tantos conselhos para prolongar nosso viver, etc. A senhora olhou para o chão, mas ainda sem despejar uma só lágrima continuou.

“Imagine que ele fazia diariamente longas caminhadas, não bebia álcool, não fumava, evitava comidas gordurosas, era uma pessoa tranqüila, enfim, se cuidava bem.”

A essa altura achei que deveria pôr minha barba de molho, mesmo sem a ter em verdade. Afinal parecia que ela se referia a mim, ao meu comportamento habitual, especialmente de muitos anos para cá. Tudo ali conferia. E ela prosseguiu falando.

“E agora estou eu aqui às voltas com essa papelada para regularizar minha situação, a de nossa casa e outros bens, fazendo tudo sozinha. É quase inacreditável, sabe?”

Perguntei à ela quando o marido havia falecido e ela me respondeu: -- “Faz menos de um mês. Ainda não deu tempo para eu me acostumar com este estado de viúva. Continuo meio desorientada e não é para menos.”

Não só para atender aos apelos da minha curiosidade como para retirar uma “pulga” que se alojava atrás de minha orelha, fiz a indagação que não queria se calar na minha cabeça: a senhora tem idéia do que possa ter levado seu marido a falecer?

A resposta dela foi mais do que elucidativa, talvez um tipo de protesto a tantos e tantos conselhos que ele deve ter ouvido e seguido, sei lá. Ela disse apenas isso:

“Olhe, eu acho que ele morreu porque era certinho demais, meu senhor. Só pode ter sido isso.”

Nem ousei fazer qualquer comentário à resposta/desabafo da jovem senhora. No momento em que escrevo esta crônica me lembro que ainda ontem eu comemorava o resultado do meu recente exame de sangue. E era mesmo para comemorar. Vejam só:

-- Meu colesterol bom, o HDL, que já esteve na casa dos 119, o que já era de não preocupar, despencou agora para apenas... 68. O LDL, o mau colesterol, este historicamente sempre esteve entre 20 e 30, e agora se posicionou em 28. Ele tem até margem para subir um pouco.

-- O chamado “perfil lipídico”, ou colesterol total, também despencou de 183 para 124. Ele só é considerado aumentado acima de 240. Meus triglicerídeos igualmente baixaram mais, de 161 para 142. Eles estarão aumentados se acima de 200. Pois é.

Lembrei que não fumo e não bebo álcool já há muitos anos, nem aquela cervejinha amiga que antes bebia na praia. Minhas caminhadas ocorrem em seis dias por semana, em apenas um eu não a faço. Isto fora outros exercícios para pernas e coluna, além dos habituais abdominais de que não abro mão.

Cuido atualmente da minha antiga hipertensão com muito zelo, seguindo rigorosamente as recomendações do meu cardiologista, Dr. Ricardo, em Cabo Frio. Isto também deve estar ajudando e muito, claro. Ginástica, porém, eu sempre fiz a vida toda, desde bem jovem.

Após ouvir a declaração final daquela jovem senhora, lá no Cartório, preferi nada dizer sobre este meu histórico de bom trato e cuidados tantos. Nem por isso vou abandonar o meu estilo de vida, de forma alguma, mas que há enigmas indecifráveis neste nosso viver, lá isso há.

O negócio é eu comemorar, junto com meus bons amigos, no dia 17 agora, os meus 71 anos e agradecer a Deus por tudo que tenho recebido, mesmo as dores, os sofrimentos, pois dizem que Ele não costuma nos dar uma carga que não possamos suportar.

 

ESPAÇO RETRÔ:
Leia também, nesta edição,
"
A ÚLTIMA ESSÊNCIA
", de setembro/2001. 



(18 de agosto/2007)
CooJornal no 542


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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