08/09/2007
Ano 11 - Número 545

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

POR CIMA UMA LAJE, EM BAIXO A ESCURIDÃO

 

Oh prezado, por favor, pode me dar uns poucos minutos de sua preciosa atenção? Não, não vire a cabeça para o outro lado, eu falo com você, é, com você mesmo. Que é isso companheiro, por que me olha assim com este desprezo?

Só queria saber a razão de você não gostar que outros lhe escrevam. Não, não exagero, afinal você não costuma responder mesmo aos que lhe escrevem elogiando seu trabalho. Por quê? Ah, diz que tem pouco tempo para essas coisas? Seus leitores são para você apenas “essas coisas”? Cuidado, um dia eles se cansam também de você!

O quê? Ah, algumas vezes você usa um programa que não permite entrar mensagem de quem você não conhece? Olhe, me desculpe, mas os seus leitores, em sua maioria, por princípio você não os conhece, claro. E nunca os conhecerá se não permitir que eles possam interagir com você comentando o que escreve, me entende? Não liga para isso? É, eu já desconfiava. Só lamento, sabe?

E por que este nariz meio empinado quando anda pela rua, amigo? Parece que você só tem olhos para o horizonte. Não quer tomar conhecimento dos que transitam ao seu lado? Você parece carregar uma certa soberba que pode também ser confundida eventualmente até mesmo com preconceito, sabia?

Ah, você não se importa com a opinião dos outros? Desculpe, não se trata apenas de “opinião dos outros”. Eu diria que é uma maneira de ser, de se apresentar, de estar presente mas querendo parecer ausente para não cumprimentar os que possam incomodá-lo com um “bom dia”, ou “boa tarde”, ou “como vai?”

Sei que não é preguiça, claro que sei. Este jeito de ser tem muito mais de esnobismo, ou de um “exacerbado sentimento de superioridade.” Prefere manter este leve sorriso de ironia do que considerar minhas palavras, não é? Tudo bem, afinal os seus títulos e prêmios devem parecer autorizá-lo a ignorar o resto do mundo. Pode ser, pelo menos na sua visão egoísta e egocêntrica.

Você acha que o mundo é que deve girar em torno do seu sucesso, não é? Não considera ser muita pretensão de sua parte? Sabe, me contaram que o prezado costuma freqüentar aquelas noites de autógrafos. É, quando alguém lança um livro e convida os amigos para o convescote literário.

Ah, você não gostou da palavra convescote? É, tem razão, ela parece ter mais conotação com piquenique. Tudo bem, desculpe, que falta de respeito a minha. Fiquemos então só com a noite de autógrafos, pronto. Ficou melhor? Olhe, eu não tenho nada contra isso, pelo contrário, até já freqüentei algumas dessas cerimônias quando eventualmente convidado.

Você ri? Pois olhe, saiba que já houve quem me convidasse e eu compareci. Pergunta se eu o vi por lá? Prefiro nada dizer. Afinal de que adianta eu me referir à indiferença de alguns, igualmente assumida pelo prezado? Quem sou eu, além de um esforçado e velho escriba, com pretensões a poetar? Entrei e saí quase desapercebido e me senti melhor assim. Falei só com quem teve a consideração de me convidar. Depois fui namorar que era muito melhor para o corpo e para a alma. É, ainda namoro sim.

Sabe que o grande escritor Jorge Amado costumava sempre se considerar um aprendiz? Isto porque ele sabia das coisas, ou sabia de tudo, e essas pessoas costumam usar a modéstia no lugar da pretensão e a simplicidade no lugar da vaidade exacerbada. Mas acho que é querer muito em se tratando do prezado, não?

Eu me lembro agora de que o nosso saudoso e excelente poeta Vinicius de Moraes, junto com seu parceiro Toquinho, descreveram muito bem, com total propriedade, a postura de pessoas que agem e posam como você.

O prezado deve conhecer a música “Testamento”. Não está se recordando? Pois bem, vou lhe lembrar os versos que são apenas falados pelo Vinicius no contexto da música:

(Pois é, amigo
como se dizia antigamente
o buraco é mais em baixo
e você, com todo o seu baú, vai ficar por lá
na mais total solidão
pensando à beça que não levou nada do que juntou
só o seu terno de cerimônia!
Que fossa, hein?, meu chapa, que fossa...)


É, prezado, que fossa, não? E o refrão da música, também não lembra? É ótimo e foi dele que extraí o título deste meu texto. Vamos lembrar? Pois vamos:

“Por cima uma laje, em baixo a escuridão, é fogo, irmão, é fogo, irmão...”

Olhe, para evitar isto deve autorizar a sua cremação para quando sua estrada acabar. É o único jeito, com certeza. Não esqueça. Eu já tomei esta providência.

Desculpe se o cansei, não era a minha intenção. Claro que sei que o prezado, a esta altura, estará também olhando para o lado, sempre procurando outro, digamos, “responsável”.

Pessoas como o prezado jamais admitem. A respeitável insolência personalista não permite. Pois que Deus o abençoe (se é que acredita n’Ele) e que o sucesso jamais o abandone. Não precisa compartilhá-lo com seus iguais, ou pares. Guarde-o para você.

Não sou rancoroso, prezado, mas também não me julgue um bronco, um obtuso, um néscio. Ah, também não tenho sangue de barata, como dizem. Para encerrar, acabo de lembrar de um aforismo de Oscar Wilde: “A ambição é o último refúgio do fracasso.”

 

ESPAÇO RETRÔ:
Leia também, nesta edição,
"
APAGÃO DA ESTRELA VERMELHA?
", de agosto/2001. 



(08 de setembro/2007)
CooJornal no 545


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br