22/09/2007
Ano 11 - Número 547

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

Crítica à crítica

 

Há nesta internet algumas pessoas que manifestam desejo de protestar, que querem denunciar, que querem mostrar indignação sobre isto ou aquilo e, como se estivessem escrevendo particularmente a algum amigo, elaboram suas mensagens com uma linguagem muitas das vezes vulgar e mesmo grosseira, mas as lançam em listas variadas e vão tornando-as público, digamos assim.

Outros lêem e sem confirmar nada, sem buscarem a verdade ou a mentira do ali afirmado, repassam e mais repassam. O texto então se torna uma “bola de neve” virtual. Nada demais se o conteúdo traz algo verídico, algo confiável, alguma coisa em que se deve mesmo levar fé. Infelizmente nem sempre isto ocorre.

Refiro-me apenas às mensagens que visam a criticar e até a ofender pessoas, especialmente militantes na política. Quanto a muitos deles é verdade que fazem por merecer a mais veemente das críticas, seus maus exemplos explodem quase diariamente na imprensa. Haja vista a absolvição de Renan Calheiros, no silêncio de consciências culpadas, como convém aos que se acovardam numa sessão aberta.

Temos mais é que nos indignar mesmo e, se possível, mostrar nossa repulsa a tantos atos ilícitos de corrupção, de desvios de dinheiro público, enfim de todo tipo de desmandos cometidos por pessoas em quem o povo confiou ao elegê-los. Até aí tudo bem, estou de acordo com a intenção.

O que desaprovo é a forma, a linguagem, o vocabulário, pois até para criticar temos que ter uma postura digna e equilibrada, não cair na armadilha do desabafo que cede fácil ao uso de palavras de baixo calão e a acusações, denúncias, pelas quais nenhuma prova é apresentada. Digo isto quando escrevem para muitos outros lerem, quando tornam seu protesto, repito, público, mesmo por esta internet.

Sabem que não exagero até porque muitos de vocês, meus amigos e amigas, não só já receberam este tipo de mensagem como também já cederam à tentação de as repassar em suas listas. Eu recebo muitas, de quando em vez, mas não as repasso. Outro dia chegou-me uma cuja autora ousou no palavrão até no título. Dizia assim: “Ora presidente, vá se f.....” E esta expressão foi repetida outras vezes no correr do texto.

Alguém, mais recentemente, talvez “inspirado no estilo” daquela pessoa, e face à indignação sentida por todos nós quanto ao que foi perpetrado às caladas no Senado, enveredou pelo mesmo caminho e desfilou ainda mais palavrões. No meu entender quem age assim acaba por “se misturar aos porcos”, como dizia minha avó. Nada contra se a mensagem fosse enviada reservadamente a algum amigo, cada um é livre para se dizer as coisas como melhor lhe aprouver, mas aqui, publicamente... não dá.

Desculpem, mas eu sou de outra escola, talvez mesmo de outro tempo, e de um ambiente familiar onde aprendi determinadas regras que dizem algo assim “para seres respeitado tens que primeiro te fazer respeitar.” Alguns já devem estar a comentar: “Caraças, que cara bobo, atrasado, metido a ditar regras...”

Pois é, não sou isso não, com certeza, apenas gostaria que houvesse mais respeito em alguns relacionamentos e/ou em certas mensagens que repassam e que nos atiram aos olhos tanta pachouchada. Podem me chamar de D. Quixote, está aí, isto eu aceito com muita honra. Mesmo na crítica mais feroz que eu fizer em alguns dos meus textos jamais exporei quem me dá a honra de ler ao desprazer de se defrontar com palavrões geralmente gratuitos, mal colocados, e mesmo mal educados. Jamais. Preocupa-me o desinteresse de algumas pessoas com o respeito que sempre merece quem nos lê.

Ademais não é “gritando” (escrever em caixa alta, em letras grandes) ou enveredando pela baixaria do linguajar vulgar, quando a crítica acaba virando ofensa, que o autor ou autora vai conseguir mais força de argumentação. Pelo contrário. Respeito sempre quem sabe manifestar sua indignação sem perder a compostura, sem, afinal, acabar quase se colocando ao nível de quem está sendo criticado, entendem?

A internet trouxe esta facilidade e acabou atraindo quantos e quantos que, sem medir conseqüências, achando que aqui pode tudo, que aqui vale tudo, submetem à nossa apreciação, ao nosso juízo, o que escrevem, ou acham que escreveram bem. Certamente não faltará os que os elogiarão, até porque fazem o mesmo.

Ocorre que quem escreve, digamos, publicamente, também precisa entender que está se submetendo não só à apreciação dos que, pelo mau gosto, aplaudem qualquer lixo. Aceitem ou não estarão igualmente sendo julgados por quem desaprova o “estilo” impolido, rude, descortês, ainda que concorde com o objetivo da crítica.

Em alguns desses textos percebe-se que não há apenas a intenção de denunciar, de criticar, de mostrar indignação, seja contra este ou aquele político ou partido. Alguns se aproveitam dos motivos (e sei que há muitos, claro) para externar, mal disfarçadamente, um certo preconceito ou antipatia gratuita ocultos e emudecidos em argumentos que muitos também usam pela justeza das críticas apresentadas.

Esse tipo de crítico não deixa de ter razão, é verdade, embora me desagrade saber que, por exemplo, as posições e objetivos dele sejam bem diferentes daqueles que eu abraço. Nunca diria que “estamos do mesmo lado”, no que concerne ao espírito da crítica, mas tenho que respeitar democraticamente o seu direito a uma posição antagônica à minha na visão política geral. Só não sei se a recíproca seria verdadeira.

Sobre este assunto há mais o que tratar e por isso pretendo logo voltar a abordá-lo, especialmente quando os autores mergulham em elocubrações fantasiosas, ou como diria um grande amigo meu, excelente psicólogo: -- “É um delírio total, amigo, costumam ver fantasmas por toda parte.” -- Falou e disse. Me aguardem.
 



(22 de setembro/2007)
CooJornal no 547


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br