ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

ANTICICLONE

 

Somente quem já esteve em alto-mar e enfrentou a fúria da natureza quando ela está muito, muito zangada, poderá entender perfeitamente o que lhes vou narrar aqui.

No ano de 1992 nós partíamos pela segunda vez no transatlântico Eugênio-C rumo à Europa. Aquela viagem não seria direta a Lisboa, como em 1989, quando gastamos 9 dias, ela seria como cruzeiro. Estavam previstas 4 paradas em portos brasileiros e outros. Demoraria 13 dias ao todo.

A bordo há todo tipo de atividade para as pessoas se ocuparem, começando às 6 horas da manhã e entrando pela madrugada. Eu fazia minha corrida de manutenção nas partes laterais do navio, respirando ar puro, e tendo uma visão magnífica da imensidão do oceano e da grandeza do firmamento. É quando mais se percebe a pequenez de nossa presença no imensurável infinito, na Eternidade de Deus.

A programação de bordo nos oferece diariamente 6 oportunidades para saciarmos nossa fome, ou nossa gulodice. Há também diversão para todos os gostos, além de uma missa diária na capela do navio. À noite, antes dos shows num imenso teatro, pode-se tentar a sorte no bingo. Depois do show pode-se dançar num dos três salões com ambientes e músicas diferentes, ou apenas conversar, ou tomar alguma bebida no bar ou, para quem gosta de jogar, comparecer ao cassino.

Já estávamos entrando no 12º dia de viagem, faltando apenas um para chegarmos a Lisboa. O tempo estivera sempre a nosso favor. A fidelidade do sol, deslizando no azul celeste encheu de felicidade todos os nossos dias de sonho. A lua compareceu noite após noite, mas a grande maioria das pessoas nem se lembrava de ir ao convés comungar com a natureza, o mais antigo e mais exuberante cenário pleno de lirismo, de poesia.

Durante a madrugada seguinte o tempo mudou. Acordamos sendo jogados de um lado para o outro na cama. Se estivéssemos em terra imaginaríamos que estava acontecendo um terremoto. Cheguei à janela da cabine e quase não vi o mar. Uma forte neblina nos envolvia. Ao ir até o corredor externo, embora estivesse numa altura equivalente ao 7º andar de um edifício, recebi uma rajada de água salgada. As ondas estavam de fazer inveja às preferidas dos surfistas no Havaí.

Como enjôo fácil nessas circunstâncias recorremos à farmácia do navio e tomamos umas pílulas contra náuseas. O médico nos recomendou repetir a dose à tarde e à noite se a situação continuasse crítica. Tomar o desjejum no self-service requeria muita habilidade e equilíbrio. Alguns deixaram cair ao chão suas bandejas. Outros nem saíram das cabines. Tentei ultrapassar a porta e ir até o convés. A fúria do vento quase nos arrastava. Ninguém se arriscou a sair da parte interna do navio. Era mesmo perigoso.

Havia pessoas caídas pelos sofás e cadeiras. A ação das pílulas nos mantinha alheios àquela tormenta e seus terríveis efeitos, embora estivéssemos também dentro dela. Percebíamos tudo, mas não ficamos tontos nem com enjôo. Procuramos consolar alguns amigos, tranqüilizar outros. Recomendamos o remédio que nos dera o médico, mas a maioria tinha lá suas preferências por outros. Pareciam menos eficientes.

O navio balançava ora de proa a popa, ora lateralmente. Neste caso a sensação é pior. Olhava-se na direção do mar pelos janelões laterais e via-se o horizonte subir e sumir de vista. Parecia que mergulharíamos no mar. O imenso transatlântico era um pequeno barco de papel, dentro de uma banheira, nas mãos de um menino traquinas, a ver se o afundava. Quando o horizonte descia outra vez, pelo mesmo lado, pelo outro, ele sumia. A sensação de impotência era total. As eventuais poltronas vazias pareciam dançar sozinhas.

O pessoal de bordo tentava passar-nos uma tranqüilidade na qual não acreditavam. Repetiam sempre que logo aquilo terminaria. Torcíamos para que terminasse antes que fosse tarde demais. Os segundos pareciam minutos, estes se arrastavam como horas, estas pareciam medir uma eternidade.

Quase ninguém foi almoçar, mas nós fomos. Logo depois tomamos novamente as tais pílulas. Tentei ler um livro, mas nisso as pílulas não ajudavam muito: senti uma tonteira e preferi relaxar numa poltrona no jardim lateral, ouvindo música, no embalo das vagas gigantescas. Todas as atividades foram canceladas, inclusive o show noturno e o bingo. Esta ociosidade, digamos assim, nos obrigava a pensar e portanto a perceber que o tempo se arrastava com a dificuldade que o navio vencia as ondas.

Não havia relâmpagos nem trovoadas, apenas vento. Segundo explicaram estávamos numa zona de alta pressão atmosférica. Navegávamos no colo de um anticiclone. Nunca vira nada igual. O tempo parecia ter parado e estávamos a expiar alguns pecados. Talvez um castigo coletivo para quase 2000 almas.

Foi inevitável surgirem em nossa memória cenas de tragédias, por exemplo, como a do Titanic. Esperávamos que o destino não proporcionasse aos produtores de Hollywood a chance de realizarem algum filme sobre aquela nossa viagem. À noite fomos ao restaurante para o jantar. Poucos lá compareceram. A ausência dos oficiais de bordo, que tinham sua mesa próxima a nossa, era um forte indício de que a situação exigia a presença de todos eles na ponte de comando.

A certa altura pareceu que o navio fora lançado para cima, pelas ondas, e ao cair de volta ao mar houve um estrondo assustador. A porta de um dos armários abriu-se e os pratos saíram a fugir numa grande bulha. Gritos nervosos misturaram-se com a correria dos garçons que procuravam acalmar as pessoas. Aquele suplício já nos torturava há quase 24 horas. Não houve ânimo para mais nada, saímos dali direto para nossas cabines. Rezar e dormir era o que nos restava.

O medicamento que tomáramos a bordo logo nos lançou nos braços de Morfeu. Nem vimos a noite passar. Nosso sono fora tão pesado que se o pior acontecesse certamente despertaríamos já em outro plano. Mas, quando acordei senti uma paz imensa. Parecia que estávamos parados.

Olhei pela janela da cabine e vi que algumas luzes ainda permaneciam acesas. Luzes de terra. Eram 5 horas da manhã. Navegávamos nas águas calmas do rio Tejo. Nos aproximávamos de Lisboa. O anticiclone deixara comigo uma lembrança: um forte resfriado. Estarmos vivos era o que importava, a saúde eu consertaria em terra.



(abril/2001)


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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