29/09/2007
Ano 11 - Número 548

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

ALGUNS DELÍRIOS PERSECUTÓRIOS

 

Na semana passada eu tratei da “Crítica à Crítica”, referindo-me a mensagens que pretendem fazer denúncias, protestar, mostrar indignação com algo, mas descambam para um linguajar vulgar pontilhado de palavrões, ofensas diretas, etc.

Hoje enveredo pela trilha de mensagens que me chegam de quando em vez nas quais o autor ou autora faz um “discurso” contra alguém, geralmente da política, porém colocam como evidência algo que, de uma forma geral, carrega traços de um certo delírio e/ou elucubração fantasiosa. Dadas as minhas limitações na ciência dos fenômenos psíquicos e do comportamento tive que consultar um psicólogo competente, além de grande amigo.

Há pessoas que fantasiam exageradamente e montam uma “crítica” em cima de situações que, via de regra, elas mesmo costumam inventar. Em outros casos ouviram alguém dizer isto e aquilo e logo seguram no rabo do foguete para sair, junto com ele, esbravejando sua indignação, sua denúncia. Provas? Pra que, nem pensar. Saciam sua ânsia de crítica geralmente acrescentando algo de seu e atirando no escuro.

De passagem cito o caso de uma mensagem em que alguém vive a anunciar, isto há mais de dois anos, nesta internet, que o “13º salário estaria sendo eliminado, já aprovado na Câmara e estando no Senado para aprovação definitiva”... O absurdo é tamanho que me admira que pessoas inteligentes acreditem e repassem isto. Gente, político, alguns, pelo menos, podem ser corruptos, podem aceitar mensalões, etc, mas burros eles não são. Parem com isso, por favor.

Algumas dessas mensagens trazem conteúdo tão absurdo que seria de nem despertar interesse em outras pessoas, mas, ao contrário, muitos, talvez até por sentirem necessidade de acreditar naquilo, não obstante o disparatado, o insensato, sequer procuram comprovar a veracidade do que afirma o irresponsável autor e logo repassam... Quando o texto tem autoria, porque muitos se acovardam a tal ponto que se escondem no anonimato.

Lembram de quando andaram a divulgar que o jornalista Boris Casoy havia sofrido censura do governo e que este proibira a Tv Record de o usar no seu jornal da noite? Cansei de desmentir a pessoas do meu relacionamento, cansei de repetir que a verdade era bem outra, mas alguns preferiram se agarrar à leviana pregação.

Agora que o Sr. Boris já está conduzindo o jornal da nova TV JB, fazendo com total liberdade as mesmas críticas que sempre fez, com independência de pensamento e de palavra, os arautos da mentira se esconderam. O jornalista, outro dia, numa entrevista, esclareceu que sofreu censura sim, mas de dentro da própria Record e envolvendo assuntos variados.

Ele afirmou, que eu ouvi e vi, ter sido posto na “geladeira” por longo tempo pela direção daquela emissora, daí não aparecer mais no jornal. Mas os inconseqüentes que tanto espalharam a mentira por muito tempo estão por aí impunes e a armar novas “pregações” para iludir incautos e alguns que sofrem de certa idiotia crônica.

Lembram também de que repetiram diversas vezes em mensagens mentirosas e maldosas que outro jornalista, o Arnaldo Jabor, havia sido censurado pelo Planalto? Garantiam que ele não mais falaria na rádio CBN e deveria não ter mais acesso a jornais que escrevia, e escreve, até hoje e sempre? Quanta estupidez divulgada impunemente pela rede, o que eu também desmenti diversas vezes e o próprio Jabor o tem feito seguidamente no seu horário matutino na rádio CBN.

Ele tem e sempre teve total liberdade de expressão, e não só ele. Ouço-o todos os dias por volta de 8:07 h da manhã. Se este espaço virtual fosse sério aquelas pessoas deveriam responder a processo por calúnia e informação com intenção de prejudicar a terceiros. Alguns querem fazer campanha contra este ou aquele político, mas sequer têm competência ou criatividade para tanto. Usando a mentira eles vão muito mal.

Bem, e para encerrar aí vai o maior e mais exacerbado delírio persecutório atual. Circula nesta internet uma mensagem na qual o autor usando, ora letras normais ora letras imensas, com cores variadas, (outra prova de falta de argumentos e conhecimentos da língua mãe, querendo impressionar pelo “grito”, como dizem alguns) faz uma denúncia que não resiste a qualquer análise pautada em bom senso.

O título, em letras garrafais, é: “NÃO AO 3”. O autor tenta nos fazer crer que está em curso uma campanha para o povo aceitar um eventual terceiro mandato do Lula. Ele afirma, não sei com que autoridade ou provas, que o número 3 vai começar a aparecer em propagandas diversas, especialmente de empresas ligadas ao governo e também na TV. E o autor chama isso de indução subliminar. Será ele psicólogo?!

Se é deveria ter mais cuidado, ser mais cauteloso ao fazer este tipo de “denúncia” ou “acusação” a partir de que ele se considera dono de uma verdade que anuncia sem qualquer prova consistente. Então está proibido, pela lógica do autor, nós usarmos o número 3? Se o usarmos estaremos mancomunados com o Lula e com sua intenção, segundo quem escreveu aquilo, de vir a concorrer a um terceiro mandato?! Ora, ora.

Barrabás, quanta barbaridade. O próprio Lula, e não estou eu aqui para fazer sua defesa mas apenas lutar sempre pela verdade, esteja ela de que lado estiver, já disse tantas vezes ser contra a tal de reeleição, obtida antes pelo governo FHC e sabe-se a que preço. Mas o autor insiste numa argumentação que não faz nenhum sentido.

Como lhe faltam argumentos sólidos, o cidadão dá voltas no assunto e usa ora letras de um tamanho, ora de outro, ora em negrito, ora coloridas, o que, como eu já disse, mostra uma total falta de convicção, dele próprio, de que está a pregar uma verdade. Como diz um amigo meu ele quer convencer na marra, no “grito”, pela força, que julga que tem aquela apresentação esdrúxula e até meio carnavalesca.

Já que ele afirma tratar-se de uma “indução subliminar” fui ouvir o grande amigo, professor e psicólogo (de verdade) que, após ler a tal mensagem, assim se expressou:

“Simoes, parece estar aberto, ou melhor, em expansão o campo de trabalho dos psicoterapeutas: crescem assustadoramente os casos de delírios persecutórios. Nesses casos, há a "percepção real de um objeto inexistente". É real pela convicção inabalável da pessoa que alucina, em relação ao objeto alucinado".

“É o caso dos delírios: "juízos patologicamente falsos da realidade: uma "convicção subjetivamente irremovível e uma crença absolutamente inabalável". Podem ser sintomas de psicoses, como a paranóia, esquizofrenia e outras.”

“Fatores pessoais e culturais interferem na percepção e na ruptura com a realidade. Os delírios "são idéias morbidamente falseadas, não acessíveis à correção por meio de argumentos". O paciente crê-se ameaçado por acontecimentos irremediáveis. O delírio persecutório é o mais freqüente.”

“O paciente acredita ser perseguido por coisas ou idéias. Apresenta-se generoso com quem aceita suas alucinações mas, podendo atingir a violência, se contrariado. Acredita estar sendo vítima de conspiração, traição, espionagem, etc. Na minha modesta opinião, trata-se de um caso de delírio persecutório, nada mais. Abraços.”

Acho que com esta análise completa do meu amigo de longa data, psicólogo dos bons, além de professor e excelente contista, está tudo dito. Nada mais me resta acrescentar. Acredito que não precisamos retirar o número “3” de nossas tabuadas. Ora, ora.
 



(29 de setembro/2007)
CooJornal no 548


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br