20/10/2007
Ano 11 - Número 551

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

O GRITO DO SILÊNCIO

 

Pois é, amigos, estou aqui, como sempre, sentado à frente deste bonito e moderno monitor do meu computador. Tenho vários textos prontos, eu tenho, mas eles não servem neste momento, não servem não. Vão ter que esperar na fila.

Vou ao Outlook e converso com amigos: Orlando, Renato, Amaro, a querida Leyla Gomes, a artista plástica Flora Cavalcanti, de Londrina, sempre com uma palavra amiga, o Manuel me escreve de Portugal, manda notícias (que saudades daquela terra...), o conterrâneo e poeta dos bons, o Alberto Cohen, meu novo amigo Geraldo, é, o Batista, excelente escritor, sempre com seu humor refinado, o Trigueiro que surgiu após mais de 30 anos sem nos vermos. Conversa vai, conversa vem.

A boa amiga Sarita, gaúcha, o Otacílio, companheiro fiel de sempre, e lá vem o Otávio, do Leblon, ele me manda outra piada, comenta outro texto meu, a nova e querida amiga paranaense, a Valéria Eik, do "Conexão Maringá", a Ângela Stefanelli, outra amiga adorável, as escritoras amigas Tânia Melo e Rosa Pena, o Fábio Rocha, grande poeta, meu web designer, amigo de todas as horas também, a Mana Luiza, lá de Belém me dá notícias dos manos e manas. É, amigos, conversa vai, conversa vem.

Quanta gente mais com que me correspondo, quantos amigos e amigas, isso é bom. Mas hoje não está tendo o mesmo sabor. Escrevo quase que por um tipo de necessidade extrema de falar com alguém, de ouvir alguém, de saber sobre alguém, e assim o tempo vai passando, a vida se consumindo. Não estou deprimido, só apreensivo, só preocupado.

E continuo aqui em frente a este moderno monitor, atento, mas me sentindo meio estranho, acompanhado por Lena, esta amiga de todos os dias, de todas as horas, de todos os momentos. Ela também não entende esta taciturnidade, quase tristeza. É verdade. Ela também não entende.

Ponho pra tocar o mestre Jobim, com Chico, Vinicius, Toquinho, Miúcha, Caetano, e outros. A música enleva a alma da gente, nos transporta por seus acordes e vozes que cantam a um plano neutro onde ficamos silenciosos, quietos, apenas ouvindo, apenas relaxando, num repouso em que nossa mente mergulha e também silencia.

Percebo então que os passarinhos gorjeiam próximo à janela, bem atrás de mim. O passaredo fala e fala muito, entre eles, mas também não me dizem nada. Comemoram talvez um novo nascimento. Há um ninho na árvore de acerolas, mais um. Eles parecem felizes, parecem sim. Têm motivo e devem mesmo comemorar. Consagram a vida e fazem muito bem.

No intervalo entre uma música e outra vejo que a tarde se finda, mais uma. O sol já mergulhou no horizonte em busca de outras terras. Logo a noite chega e nem precisa ser convidada. Ela vem sempre, com certeza. Das trevas nascem poemas, ressurgem saudades, namorados fazem juras, espero que as cumpram, a violência estará também à espreita com suas tramas diabólicas. É vida que segue, na festa ou no silêncio.

Meu Deus, agora me dou conta de como é alto, forte e como doe dentro do peito da gente o grito do silêncio.



(20 de outubro/2007)
CooJornal no 551


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br