10/11/2007
Ano 11 - Número 554

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

ABRINDO AS ASAS

 

O que lhes vou contar acontece em algumas famílias, ou já aconteceu na sua também, talvez. Entretanto vou narrar os fatos passeando pelas emoções humanas.

Ela, uma guerreira, uma lutadora, jamais se deixou vencer pelas dificuldades muitas que a vida, aparentemente nem sempre justa, colocou no seu longo caminhar. E botem dificuldades nisso, amigos, como diria alguém que conheço.

Era casada, de papel passado e tudo o mais que exige a lei, porém era como se não tivesse marido. Teve que atuar como mãe e como pai. Seus filhos foram crescendo, muito agarrados com ela, enquanto procurava trabalho por todo canto. Nem sempre podia estar junto a eles, mas jamais os abandonou ou relaxou na educação deles.

Quem nunca teve este tipo de dificuldade no começo de uma vida a dois (?!), com filhos, não pode entender bem ou sentir o que é sobreviver, dia após dia, sem a certeza de que amanhã será melhor ou pior que ontem, ou que ao menos haverá um amanhã. Quantas noites de choro no banheiro para as crianças não verem.

Assim mesmo ela seguiu em frente. Os salários que conseguia eram pequenos e as despesas os venciam fácil. O jeito era cortar daqui, cortar dali, não deixando faltar o essencial e se privando muitas vezes do que gostaria de ter, ou de fazer pelas crianças. Conselhos não faltavam para ela se livrar do homem que sustentava e que não era digno da aliança que tinha no dedo.

Mas, sempre tinha alguém da família com aquela velha história de que a separação não era uma solução boa, pois deixaria os meninos sem pai. Mas que pai? Ela cansou de se perguntar. Aturou tudo que pode por muitos anos até que um dia, sacou uma coragem que estava escondida no seu peito só esperando pela convocação. Enfim a separação definitiva, o divórcio.

Não havia mais crianças, a moça estava com 26 anos e o jovem com 25, ambos trabalhando. Após uns vinte anos de humilhação de todo tipo ela podia respirar um ar mais sadio em casa. Ela e seus filhos eram enfim uma família realmente unida, sem medos, sem ameaças quase diárias, sem noites torturantes de uma espera por alguém que jamais deu valor ao que possuía, sem ter ajudado a construir nada.

Alguns meses depois ela enfim conseguia abrir suas asas para a liberdade, para talvez lançar-se em outra tentativa de ainda alcançar um sonho de felicidade a dois. Mas, agora aos cinqüenta e um, a vida a fez perceber que nem sempre nossos planos são acolhidos num certo sentido universal de uma realidade da qual muito pouco conhecemos.

Estava feliz, era fácil de ver, gostava e gosta muito de cuidar de sua casa, aquela com a qual sonhara sempre. Tinha ao seu lado os filhos, ambos trabalhando, responsáveis, afetuosos. Certo dia a filha chegou-se à ela e disse: “Mãe, eu vou me mudar para a casa do meu noivo. Ele até já separou um cantinho para nós e assim poderei começar a construir, com ele, minha vida daqui pra frente. Não vai se zangar comigo, não?”

Zangar, claro que não, porém mãe é sempre mãe, e ela é daquelas que podemos considerar como “mãe de todos”. Sempre ajudando, sempre esticando sua mão, não apenas para seus familiares. E ela vivia um momento em que gostaria de ter os dois filhos, mesmo com 26 e 25 anos, sempre ali, sob suas asas. Como se dizia antigamente:

E lá se foi a primeira pomba, como diria o poeta Raimundo Corrêa. Aos poucos ela se acostumou com a idéia. Reformulou planos e trouxe sua genitora, sua irmã caçula e seus dois filhos, para morarem junto com ela. Este era um desejo que ela alimentava, mas não sabia quando poderia concretizar. Sem querer a própria vida facilitou tudo.

A verdade é que com ela ainda vivia o filho homem. Sabia que ele estava agora namorando uma moça que, diferentemente de outras garotas, anteriormente, o encantara a ponto de nem sempre ele vir mais dormir em casa. Nunca porém ele deixava de avisar, de dar ao menos um telefonema para a mãe. Felizmente sua nova namorada se deu muito bem com ela, e chegara para somar.

Até aí ela brincava mas parecia estar aceitando muito bem esta nova realidade. Certo dia, na hora do almoço, de repente ele falou: “Mãe, você se importa se eu levar minha cama de casal para a casa da Mel?.” Ela chegou a se engasgar, tossiu e a seguir, olhando nos olhos dele perguntou: “Você está falando sério?” --- “Claro, mãe.” ---

Ato contínuo ela explodiu num pranto que logo se misturou com riso quando os presentes brincaram com a mãe que, pelo que se percebia, ia ter que aceitar o fato de que ... “lá se ia mais uma pomba...” Aos poucos ele levara para a casa da namorada a sua TV, o som, algumas roupas e agora levaria a cama de casal.

Engraçado é que ele sempre dizia que casar não era com ele, e continuava a insistir nisso, mesmo com a nova namorada, de mais idade que ele, que parecia estar a se apossar definitivamente do coração do jovem que deixara de ser criança fazia 25 anos. No intervalo do trabalho ele costumava vir almoçar na casa da mãe, aos domingos também, e a mudança era evidente. Mas sempre que questionado ele reafirmava: “Casar, eu? De jeito nenhum.” – Nem sua mãe acreditava mais nessa decisão.

Felizmente ela, pouco tempo depois, rearrumando definitivamente o seu viver, agarrando a chance que lhe era oferecida pela vida mais uma vez, deixou o passado de lado e abraçou um presente novo que desenhava um futuro de paz, amor, solidariedade. A família continuava a existir, de quando em vez os filhos estavam com ela, também as irmãs, os sobrinhos, sua mãe, e aquele que teve a vida salva por ela.

Agradecimento? Só, não, havia muito mais naquela nova união, pois ambos saíam de naufrágios diferenciados e emergiam numa forte e leal amizade. Ambos abriam suas asas para um vôo conjunto, na mesma direção, buscando o mesmo horizonte, até que a vida os permita serem felizes.



(10 de novembro/2007)
CooJornal no 554


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br