24/11/2007
Ano 11 - Número 556

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

ACONTECEU HÁ MUITO TEMPO

Ele era muito jovem, garboso, e namorava uma moça dócil, carinhosa, bonita, que o amava de verdade, só tinha olhos para ele. Vejam bem, eram anos 50. Naquele tempo não existia essa “nova versão” de se conhecerem melhor pelo... ficando. Não mesmo.

O namoro acontecia todas as noites na casa da jovem e sempre com a presença vigilante, e bem inoportuna, do pai dela. Quando este não podia, porque não se sentia bem ou queria ir dormir mais cedo, colocava a irmã mais velha de “vigia” do casal.

Assim eles namoraram ano após ano. Beijinhos, os mais audaciosos, só podiam ocorrer quando eles iam ver um filme. Ou como se dizia antigamente... “no escurinho do cinema”. E, creiam, eu que sou daquele tempo garanto, era muito legal. Os carinhos proibidos em casa ganhavam liberdade... no cinema.

Geralmente o filme era o que menos importava. Mas só podiam freqüentar aquelas salas uma vez por semana, ou de quinze em quinze dias. Embora ele fosse romântico, sua namorada o era muito mais. Sobrava para o jovem a angústia ou a ansiedade do desejo. Uma coisa natural e que clamava por compensações.

No momento da despedida, na casa dela, ao pé da escada, se lhes davam uma chance eles avançavam o sinal, mas muito discretamente. Além do mais o dizer “até amanhã”, com abraços e eventuais beijinhos, tinham que respeitar uma limitação de tempo imposta pela autoridade paterna. Esta, mais do que a materna.

Houve noites em que ele, até por uma necessidade que explodia em apetite sexual, passou a descer por umas ruas próximas, poucos quarteirões, que o conduziam ao que naqueles tempos se chamava de meretrício. Havia o baixo e o alto, o jovem sempre se dirigia ao alto onde encontraria carinhos seguros, mulheres de bom nível, sem o receio de se contaminar com eventuais doenças nos relacionamentos.

E note-se que naqueles tempos não existia o medo atual da AIDs. Além de que era comum nascerem amizades que ultrapassavam os limites do simples negócio do sexo, e acabavam se consagrando, com o decorrer do tempo, num tipo de amor que transcendia tudo e unia o homem e a mulher numa aliança, num enlace muito sério.

O compromisso de ambos era o de não praticar a “traição”. Naquele ambiente em que se conheceram o homem se dedicaria, sempre que lá comparecesse, apenas àquela mulher. Ela, por sua vez, se comprometia a fazer o mesmo desde que o jovem lá estivesse presente. Na ausência deste ela ficava liberada para tocar... os seus negócios.

Era assim que funcionava. Os de hoje devem achar tudo muito estranho e jamais entenderão aquele “código de honra” entre um jovem e uma mulher da vida. Os tempos mudaram muito, é verdade, mas para o meu gosto, até em coisas como esta, mudaram para pior. Naquele tempo jamais um moço as chamaria de “cachorra”.

Certa vez o rapaz, ao passar por uma das outras muitas casas que havia ali, foi chamado por uma bonita morena. Conversaram, e mais conversaram, e ele acabou não seguindo seu caminho até onde costumava ir. Naquela noite o jovem fraquejou, deixou-se seduzir por outra, e acabou por “rasgar” o compromisso que tinha com a bonita maranhense, a Madalena. Naufragou nos braços e carícias de Helena.

Nada precisava acontecer de mal se ninguém desse com a língua nos dentes para Madalena, como se diz. Porém alguém, talvez até por ciúme, despeito ou inveja, sussurrou nos ouvidos dela o que acontecera. Entregou de bandeja aquele a quem ela costumava dedicar o melhor dos seus carinhos, numa lealdade elogiável.

Enquanto isso o rapaz continuava a ir namorar todas a noites a moça com a qual todos imaginavam que ele se casaria um dia. Ambas as famílias faziam muito gosto, diga-se de passagem. Até que numa noite, ao sair da casa da namorada, resolveu ir “matar saudades” da maranhense. Lá chegando aproximou-se dela e logo estranhou a recepção. Ela justificou que estava com dor de cabeça. Ele acreditou.

Nem chegaram a ir até o quarto. Tomaram apenas uma cerveja e logo ele resolveu se retirar. Ela fez questão de o acompanhar e foi buscar sua bolsa. Na saída tomaram um táxi. Tudo parecia normal, mas ela mostrava estar um pouco nervosa. Quase não trocaram palavras. Ele colocou o braço direito por trás dela, abraçando-a.

A certa altura ele percebeu que ela parecia esconder a mão direita sob a perna. De repente, num descuido de Madalena, apareceu parte de uma espátula que ela segurava escondido. O jovem se colocou na defensiva e perguntou o que ela estava pretendendo. Rápido ela puxou a mão como se fosse atacá-lo com o objeto.

Com a mão esquerda ele segurou o pulso direito dela com força levando o braço da moça para fora da janela do carro. A espátula acabou caindo na rua. O motorista ficou nervoso, mas o jovem mandou que ele seguisse em frente. Ela começou a chorar. Disse estar arrependida, e que fora só um momento de descontrole por ele ter traído o “pacto de honra”. Ele procurou acalmá-la, pediu desculpas, mas seria mesmo o fim.

Muitas noites depois ele estava novamente na casa da namorada, cumprindo a rotina de anos. Tudo parecia indicar que os dois se casariam, pareciam um feito para o outro. Pois é, parecia, todavia uma noite ele confessou que não pretendia casar. Ela disse que saberia esperar, mas o jovem desfechou o golpe inesperado: estava gostando de outra pessoa. E era verdade, se encantara com uma jovem que chegara do sul.

Acabou casando com esta cerca de um ano depois contra a vontade da família. Em apenas três anos eles estavam se separando. Ele fizera a opção errada outra vez, mas assim é a vida. E temos que pagar por nossos erros. Ele pagou, acreditem, muito caro.

Por outro lado, naquela noite, se Madalena tivesse conseguido alvejá-lo mortalmente com a espátula com certeza eu não estaria agora aqui para lhes contar esta história.



(24 de novembro/2007)
CooJornal no 556


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br