08/12/2007
Ano 11 - Número 558

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

OS CORRUPTOS

Já estou aqui imaginando a expressão de cada um dos amigos ou das amigas ao ler o título acima. Expressão de ansiedade para querer ler o que devo ter escrito sobre os políticos, tanto de apoio ao governo como da oposição.

Alguns já devem ter até se preparado para acrescentar novos nomes à lista que provavelmente já têm. Outros estarão a imaginar a que partidos pertencem eles.

Também alguém estará muito curioso esperando ver nomes de empresários até agora não citados na mídia e que talvez estejam envolvidos em novas falcatruas. Adoram ver o circo pegar fogo, não é? Pois vão ficar decepcionados sobre isso.

Aqueles que costumam se “esmerar” em elaborar mensagens com toque de agitação, catastróficas, com previsões em que somente eles e uns poucos seguidores acreditam, vão se decepcionar também ao ler este meu texto. Não encontrarão “munição” para suas novas invencionices, posando de que sabem mais que qualquer um de nós. Lamento, vão ter que esbravejar de raiva que é o que mais alimentam.

Entretanto os que têm pisado na bola, decepcionando a opinião pública constantemente, se envolvendo em escândalos os mais escabrosos ou querendo jurar inocência com aquela cara de pau habitual, ou mesmo afirmando que não sabiam de nada quando tudo ocorreu à sua volta e com amigos de sua confiança, esses podem ir pondo a barba de molho porque não os esqueci, não. Pelo contrário.

Ocorre que hoje não estou com vontade de voltar a assuntos que me tiram do sério, que me fazem perder o bom humor, uma de minhas características de bem viver e manter a saúde num patamar aceitável que dá para comemorar. Com certeza. Faça você o mesmo, amigo ou amiga, entenda que à sua volta há um mundo que não comporta só corrupção, políticos, desgraças, bandalheiras de toda ordem, etc. Relaxe.

Então sobre o que falarei com um título tão claro, tão explícito, como o que usei acima? Ora, amigos e amigas, exatamente sobre... corruptos. É, corruptos.

Quem vai à praia em Ipanema, Copacabana, Leblon, no Rio, ou faz lá suas caminhadas diárias, certamente não se apercebe da existência deles. Talvez por lá, hoje em dia, eles nem mais apareçam. Detestam muito público. Os corruptos são assim mesmo. Eu os conheço bem.

Freqüento Cabo Frio desde meados dos anos 60, ou seja, há pouco mais de 40 anos. Naquela época eu e Zezé costumávamos nos hospedar num pequeno Motel, o “Cabanas Veraneio”, que não mais existe há muito tempo. Ficava perto da praia. Não havia prédios como agora, esta cidade era completamente diferente de hoje.

Íamos à praia a pé onde depois se convencionou chamar de Posto 2. Não havia barracas, apenas vendedores ambulantes, na praia. Esticávamos nossas esteiras na areia e desfrutávamos do sol e do mar quase solitariamente. Naquele tempo isto era possível. Havia uma paz e um silêncio só entrecortado pelo ruído das ondas.

Era comum sermos “visitados” por aqueles pequenos caranguejos de areia. Vinham em grande número e ficavam a nos olhar. Não sentiam medo, só se tomávamos alguma atitude no sentido de tentar pegá-los. Aí eles corriam de volta para os seus buracos. Divertíamo-nos com eles. Hoje sumiram.

Alguns já devem estar a se perguntar: “E cadê os tais corruptos?” Calma, eu chego lá.

Quando caminhávamos à beira mar, atravessando com nossos corpos a brisa fresca e constante, deixando que o sol fosse nos bronzeando suavemente, era comum vermos inúmeros corruptos. Nós os encontrávamos às dezenas quase a cada passo, creiam.

São assim chamados, nem sei porque causa, uns bichinhos pequenos que vivem ali, na praia, mas sempre na proximidade do mar. Quando alguém chega perto deles os corruptos rapidamente cavam a areia molhada e somem.

É difícil pegá-los pela agilidade que têm e que usam com muita destreza ao fugir. Nisso nota-se certa diferença com alguns dos corruptos humanos, embora outros hoje sequer fujam, quando muito “renunciam” para escapar de eventuais riscos de cassação de mandato, no caso de militarem na política, claro.

Hoje eles aparecem em menor número por aqui, talvez tenham emigrado para outras praias. Mas corruptos são assim mesmo. Adoram viajar, até fazer turismo, de preferência com o nosso dinheiro, digo nós, povo, pois.

E os que têm a “costa quente”, esses então não temem nada, pois sabem que têm ao seu lado a garantia da impunidade, a proteção do poder ou do “hábeas corpus”, de uma justiça que deixou de ser cega faz tempo para ser, como eu costumo dizer ... seletiva. Estou mentindo?

Amanhã, se eu for à praia, vou procurar por eles, é, pelos corruptos de cá, os da areia molhada. Esses não se alimentam de suborno, peita, perversão, não, mas de restos, sobras, bem pequenas, e de água salgada. Que vida, hein?! Pois esses são os corruptos que eu queria lhes apresentar, amigos e amigas. Falei.




(08 de dezembro/2007)
CooJornal no 558


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br