15/12/2007
Ano 11 - Número 559

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

LÁ VEM O NATAL DE NOVO

Às vezes chego a pensar em não escrever nada nesta época, ou a não externar os meus sentimentos quanto ao Natal. Acabo desagradando algumas pessoas que julgam devamos ser todos iguais, ou quase, no que se refere ao espírito das festas natalinas.

Quando criança sempre ganhei tudo que “pedi ao Papai Noel”, portanto não tenho nenhum tipo de frustração quanto ao Natal, pelo menos por este lado, não mesmo. Aliás, tive também uma infância muito feliz em família. Fui criado como católico, meus pais sempre foram muito religiosos, mas eu mudei muito quanto a isso também.

O fato é que já de há muitos anos para cá eu não sinto ânimo para comemorar o Natal. As músicas natalinas de certa forma me deprimem. Não gosto. Creio que já disse isso em textos que escrevi em anos passados.

É verdade que já participei com muito entusiasmo de eventos que nosso sobrinho, quase filho, o Márcio Cruz, promovia, levando a figura do Papai Noel, em que ele se travestia, a comunidades carentes. Ele já repetiu este gesto tanto no Rio como por duas vezes aqui em Cabo Frio quando minha esposa ainda estava entre nós.

Lembro-me que em ambas as vezes nós fizemos a festa no imenso ambiente do Centro Espírita de D. Geralda, uma amiga de Zezé e de vizinhos nossos. Compareceram crianças e muitas mães. Muitas mesmo. Quanta carência de tudo, de afeto, de alimentos, de uma vida mais digna, etc.  Aquilo nos comoveu muito.

No ano seguinte não levamos apenas brinquedos. Compramos mantimentos e arrecadamos bastante com amigos colaboradores. Junto com uma boneca, uma bola, ou um carrinho, eles recebiam arroz, feijão, leite, açúcar, etc. Não apenas eu, até o nosso bom “Papai Noel” desceu a ladeira abaixo da emoção e... pois é.

Natais em que a gente tentava levar à uma parcela, mesmo que pequena, da imensa pobreza que grassa por este país afora, um pouco de conforto, um pouco do nosso amor, do nosso carinho, de alegria, ainda que passageira.

Praticamente nunca mais tive Natal com presépio, apenas muito eventualmente quando o passávamos na casa de Jomar, irmã de Zezé, também já falecida. Só na minha infância e parte da juventude. Entretanto nada tenho contra, de forma alguma.

Mantenha as suas crenças e comemore o nascimento do Salvador. Tudo bem, mas entenda que hoje prefiro não ser convidado. Cartões de Natal deixei de os enviar também há muito tempo. Todavia, os que me são mandados pela internet, eu agradeço sempre. É uma questão de educação.

Sobre o Natal só escrevi até hoje dois poemas. Em dezembro de 1998 foi o “É Natal”, muito divulgado e que ganhou dois prêmios em duas únicas participações no Concurso “Expressão da Alma”, no Rio de Janeiro, nas quarta e sexta edições do mesmo. Foi considerado a “Melhor Crítica Social”.

Ele pode ser lido no meu site pessoal ou, durante este mês de dezembro, no “Conexão Maringá”,  www.conexaomaringa.com  em Poesias.

O outro poema foi por mim escrito em dezembro de 2005. Trata-se de “O Natal deles”. Este vocês poderão ler aqui mesmo, no Rio Total, da amiga Irene Serra, na bela seção que ela intitulou de “Expressão Poética” onde estou presente junto com outros poetas. Em ambos voltei minha preocupação para o ser humano, sua condição social, vivendo à margem de tudo, como que esquecidos por todos, aqui na terra e, quem sabe, nos céus.

Pois é. E lá vem o Natal de novo. Muitas famílias estarão reunidas e felizes nas comemorações, com certeza. Também muitos, muitos milhões de seres pelo mundo afora, não apenas em nosso país, passarão aquela noite ao relento, à margem dos mínimos direitos humanos. Sua realidade é cruel demais.

Quantos também estarão padecendo dos terríveis efeitos de guerras tantas que nunca acabam? Hoje calcula-se que em todo o nosso planeta haja cerca de um bilhão e meio de pessoas vivendo, ou sobrevivendo, na escassez de quase tudo. Parte dessa população deve se encontrar abaixo da chamada linha da pobreza.  

Morrem por doenças diversas, sem saneamento básico, sem amparo oficial de espécie alguma. Morrem de fome, de sede, de tristeza, etc. Nem conseguem entender o que vieram fazer nesta vida! Desumano destino de seres que de certa forma eu procurei retratar, em 2001, no meu poema “Sem saída” que agora repito aqui:

Levanta,  acorda,
Sai do teu túmulo vivo
Tenta redivivo ser,
Junta-te à horda
Dos filhos de Deus.
Quantos, quantos dos teus
Ainda choram, ainda moram,
Ainda vivem? Acorda,
Não espera pelos anjos
Eles estão muito ocupados.
Ultrapassa a maré-rasa,
Esbraveja,  extravasa,
Despeja o teu silêncio
tanto tempo calado
Nos ouvidos empoeirados
Da indiferença, dos moucos.
Contesta,  protesta
No teu manifesto rouco,
Encara, arrosta, afronta,
Desmonta do estribo do medo,
Recusa ser arremedo.
Apaga a luz, acende as trevas,
Cobra o justo, devolve a esmola,
Não teme o custo pois nada levas,
Desfralda a vida, zarpa do porto,
Alça teu sonho, rompe a gaiola,
Liberta-te ... pra seres morto. 


 

(15 de dezembro/2007)
CooJornal no 559


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br