15/12/2007
Ano 11 - Número 559

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões

 

UM RECADO AO PRESIDENTE

Agora que a CPMF foi extinta, embora não confie que o foi para sempre, queria dizer-lhe, com a autoridade de quem votou no senhor já em 4 (quatro) oportunidades desde 1989 no segundo turno contra o Collor, pois no primeiro eu estava em Portugal, que nunca esperei ouvi-lo usar tantos argumentos insustentáveis na defesa da CPMF.

Durante o governo anterior escrevi diversas crônicas analisando criticamente a atuação de FHC e, no que concerne à CPMF, fui ainda mais crítico, no fundo seguindo a linha que o então deputado Lula e seu partido, o PT, usavam para atacar um imposto injusto, porque jamais atingiu em sua plenitude os objetivos para o qual fora criado. O estado de indigência de nossa saúde pública, até hoje, o comprova.

Nem sei se o senhor ainda se lembra dele, é, do deputado Lula, afinal parece que o poder tem este lado ruim de mudar as pessoas, suas idéias e ideais, suas promessas, etc. Quero lhe dizer, Presidente, que eu não mudei, mas tive o desprazer de acompanhar sua transformação e confesso que hoje quase me arrependo de tanto o ter defendido em textos e mais textos que escrevi, inclusive quando comemorei sua posse com a crônica “E AGORA, LULA?”. Foi ainda no seu primeiro mandato.

Fiquei, e ainda estou, profundamente magoado com a sua afirmação pública de que “somente os que sonegam impostos é que querem a extinção da CPMF.” Lamentável, Presidente. Isso foi pior do que ser chamado de “vagabundo”, na época, pelo então presidente FHC, pois sou aposentado faz tempo e tenho hoje 71 anos.

Eu, como tantos outros brasileiros, tenho meu imposto de renda descontado na fonte, todo mês, e ao final de cada ano a Receita ainda consegue me tomar um valor alto e injusto, isto sobre salário, nunca sobre renda, o que não tenho. Sempre fui contra a CPMF porque ela nunca alcançou seus objetivos, nem antes nem agora no seu governo. Ela tem servido sim para cobrir outros gastos que não a saúde. Não suporto mais tanta hipocrisia, as mesmas que o senhor antes combatia e que agora camufla.

Por outro lado jamais soneguei imposto, jamais em toda a minha vida, e estou situado naquela faixa de salário que realmente segura as despesas de todos os governos visto que a classe média a que pertenço sempre foi a maior sacrificada, o senhor sabe. Os que estão mais abaixo não têm condições de pagar imposto de renda e os que estão mais acima, bem esses sabemos que nem todos pagam, pois podem, mas não querem.

O senhor usou o alvo errado ao afirmar aquilo. Cidadãos honestos, da ativa ou aposentados como eu, que aos 71 ainda trabalho, agora voltando à literatura faz alguns anos, sentem o peso de mais um imposto, entre tantos que nos massacram direta e/ou indiretamente neste país. Lamento um dia ter acreditado que todas as reformas necessárias seriam efetuados em seu governo. Quanta decepção.

Não interessam a mim, que ajudei a elegê-lo no primeiro turno, os tão comemorados superávits de que o vejo se vangloriando constantemente. Na minha modesta vida, procurando manter um orçamento equilibrado, tenho dificuldades. Vejo porém que aquela tal “farra” que condenamos em governos anteriores não acabou, talvez muito pelo contrário. Isto chega a nos empurrar para a desesperança.

Fiquei também muito decepcionado ao ver aquela “proposta” de última hora levada ao Senado, com cheiro de trapaça, me desculpe a sinceridade. Foi mais uma atitude que não dignifica a autoria. Se era para valer, por que não foi apresentada antes, quem sabe quando do trâmite da CPMF pela Câmara? Nem os seus aliados devem ter acreditado nela, mas fizeram o papel que a eles estava destinado, claro. Vergonhoso.

Agora que o senhor sentiu o amargo gosto de sua primeira e grande derrota no Congresso deveria fazer um exame de consciência (ainda sabe o que é isso, senhor?) e, pelo menos, ter uma relação de maior respeito com os senhores senadores, sejam de que partido for. O senhor é o Governo, talvez ainda democrata, portanto desça desse pedestal em que o poder parece tê-lo entronado e incorpore o Lula que conhecemos antes, em quem acreditamos, mas que hoje não nos engana quando tenta parecer povo como nós. Sei que vai ser muito difícil e nem espero por este “milagre”.

Fico muito triste, aos 71 anos, repito, porque a esperança que tínhamos na estrela vermelha não passou de um grande engodo. Certamente me restará pouco tempo para ver este país ter uma transformação com a qual sonhei que começaria com um governo seu, Presidente. Ledo engano. Sinto-me ludibriado.

Não fique muito encantado com essas pesquisas que possam ainda mostrar um quadro de apoio ao seu governo. Um dia eles também vão acordar de um sonho que para tantos, como eu, já se transformou em pesadelo. Saiba que mais de 70% do povo brasileiro disse NÃO à CPMF que o senhor defendeu com exagero de ardor e argumentos. Basta ver pesquisa publicada ante ontem em O GLOBO.

E cuidado com as artimanhas de alguns para querer alterar nossa Constituição a fim de lhe oferecer a chance de tentar um terceiro mandato. Respeite a Carta Magna na sua integralidade. Não rasgue o que está escrito. O Hugo Chaves já teve a resposta às más intenções dele pelo seu próprio povo. Por favor, não alimente sonhos impossíveis que podem pôr em risco uma ainda frágil democracia conquistada com tanta luta, tantas vidas, tantas lágrimas, o que o senhor sentiu na pele naquele período.

Chega de decepções, de promessas não cumpridas, de mentiras de toda ordem, de discursos eivados de demagogia de seguidos governos. O Brasil e seu bravo povo merecem um destino melhor. E cuidado, por gentileza, ao se dirigir a brasileiros, da forma como o fez, chamando-os de sonegadores, colocando no mesmo baú pessoas que torceram, sim, pelo fim da CPMF, mas que jamais tiveram intimidade com a ilicitude da sonegação. Só queremos respeito.




(15 de dezembro/2007)
CooJornal no 559


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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