23/02/2008
Ano 11 - Número 569

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões
 


PARVOEIRA: A RAZÃO OBSCURECIDA


 

No começo deste ano um bom amigo, gente da melhor qualidade, me repassou um artigo de certo cidadão com o título de “Niemeyer: Um Século de Hipocrisia”. Eu sabia que ele me enviara apenas para me “fustigar”, no melhor dos sentidos, e ver o que eu diria a respeito das “idéias, conclusões e argumentos” de quem o escreveu.

Sem mais delongas digo-lhes que o autor esbraveja, no correr de todo o texto, uma aversão, quase ódio, ao fato de o nosso grande Niemeyer ter uma preferência política que não coincide com a dele, e nem com a minha, claro. Ele parece, entretanto, não conseguir conviver com preferências contrárias, o que é muito comum em pessoas que alimentam radicalismos. Não leva em conta toda uma vida dedicada não só à arte da arquitetura como ao exercício permanente de uma criatividade sem limites.

Destacarei aqui trechos do início de seu artigo divulgado na internet: O arquiteto Oscar Niemeyer completou um século de vida sob grande reverência da mídia. Ele foi tratado como "gênio" e um "orgulho nacional", respeitado no mundo todo.....  Alguém pode detestar a pessoa em si, mas respeitar seu trabalho. O problema é que vejo justamente uma grande confusão no caso de Niemeyer e tantos outros "artistas e intelectuais" . O que acaba sendo admirado, quando não idolatrado, é a própria pessoa. E, enquanto figura humana, não há nada admirável num sujeito que defendeu o comunismo a vida inteira. Niemeyer, sejamos bem francos, não passa de um hipócrita.”

Com todo respeito ao autor, julgo que já aqui deveríamos fazer-lhe um minuto de silêncio. Adiante, entre outros argumentos, o crítico afirma: “Seus inúmeros trabalhos realizados para governos, principalmente o de JK, lhe renderam uma bela fortuna. O arquiteto mamou e muito, nas tetas estatais, tornando-se um homem bem rico.”

Já se vê que ele não considera que tudo que Niemayer possa ter ganho no período citado acima, no Brasil, muito pouco representa do que ele logrou receber por tantas e inúmeras obras, por muitas décadas, pelo mundo afora, onde sempre foi e continua a ser reverenciado. E não me refiro ao mundo comunista, de forma alguma. Mas às vezes o ódio e a histeria cegam as pessoas e as leva a julgamentos e conclusões equivocadas. E acabamos tendo que ouvir ou ler coisas deste jaez. Lamentável.

Sobre a coerência de Niemeyer, dizendo-se comunista a vida inteira, me perdoem, mas eu respeito isso. Discordo da preferência política dele, mas respeito sim quem é coerente. O que me enoja é ver quantos políticos aí estão a mudar de partido e de ideologia, se é que a têm, passando da esquerda para a direita, e vice-versa, sem a menor cerimônia. A discordância de idéias não deve nos induzir ao desrespeito. 

Lembro aqui o caso do já falecido Luis Carlos Prestes que foi comunista por toda a sua longa vida, chegando mesmo a exercer mandatos políticos, sem nunca ter trocado de partido e nunca ter se envolvido em tramóias, corrupção, etc, o que hoje em dia parece que virou rotina com os piores exemplos vindo dos mais altos escalões.

Prestes nasceu, viveu e morreu pobre. Minha discordância da sua preferência política não me dá o direito de desprezar sua coerência, pelo contrário. Idéias a gente deve debater sem se submeter a elas, porém jamais condenar pelo radicalismo odiento.

Usando os mesmos argumentos pelos quais condenou Niemeyer, o autor lança sua ira também sobre Luis Fernando Veríssimo e Chico Buarque de Holanda. Chega a se valer de um raciocínio surrado, antigo, e meio infantil, digamos assim, para condenar o grande Chico Buarque por “cobrar caro”, segundo o autor, nos seus shows. Defendendo o socialismo ele deveria fazer shows de graça!! Sem comentários.

Não podendo criticar a inteligência, a cultura geral e o talento de Veríssimo, Chico Buarque e Niemeyer o autor investe com um estilo vulgar e rasteiro contra eles. E se julga no direito de apresentar uma “proposta”, ou “sugestão” que só pode encontrar guarida em mentes pequenas, com visão míope e distorcida da realidade. Diz ele:

“Recentemente, mais três cubanos fugiram da ilha-presídio de Fidel Castro. Eles eram artistas, como o cantor Chico Buarque, por exemplo. Aproveitaram a oportunidade e abandonaram o "paraíso" comunista, que faz até o Brasil parecer um lugar decente. Eu gostaria de aproveitar a ocasião para fazer uma proposta: trocar esses três "fugitivos" que buscam a liberdade por Oscar Niemeyer, Chico Buarque e Luiz Fernando Verissimo, três adorados artistas brasileiros, defensores do modelo cubano.”

E o autor segue adiante derrapando numa indisfarçável incapacidade de conviver com pensamentos contrários. Pisa no respeito que nos merecem os três nomes citados e demonstra claramente, na forma como escreve, que talvez só reprove ditaduras impostas por regimes de extrema esquerda, como o comunismo, todavia deve tolerar as demais, embora não o afirme. Bush deve ser um dos seus ídolos. Quem sabe?!

Ele mergulha, com uma censura feroz, no que Niemeyer teria dito sobre Fidel Castro: “Mostre-me alguém que admira Fidel Castro e eu lhe garanto se tratar ou de um perfeito idiota ou de um grande safado. E vamos combinar que a ignorância é cada vez menos possível como desculpa para defender algo tão nefasto como o regime cubano, restando apenas a opção da falta de caráter mesmo. Ainda mais no caso de Niemeyer.  Na prática, Niemeyer é um capitalista, não um comunista. Mas um capitalista da pior espécie: o que usa a retórica socialista para enganar os otários. ”

Quando se escreve publicamente, caso da internet que corre o mundo inteiro, deve-se ter um mínimo de respeito também para com os leitores e não usar termos chulos, ainda que para expressar sentimentos de raiva ou ódio. Mas como exigir uma postura educada, mesmo na crítica, em quem a emoção domina a razão e cretiniza o estilo?

Embora não me mova defender o ditador Fidel, citá-lo apenas por aquilo em que ele se tornou depois é negar fatos históricos indesmentíveis. Alguns o têm feito ou por total ignorância da História, anos 40, 50, e 60, especialmente, ou por julgarem que somos todos néscios, desinformados, subestimando a nossa inteligência. Comigo não.

Para tentar repor a verdade de fatos que alguns radicalmente insistem em ignorar eu terei que me alongar, todavia o farei em outro texto que poderá ser lido entrando pelo link que se encontra ao final desta crônica. Seu título é “Cuba e a Revolução de Fidel”.  Leiam, por gentileza.

Recomendaria a especial atenção do autor do artigo aqui referido até porque me apoiei, para o escrever, num excelente trabalho de Luiz Alberto Moniz Bandeira, Doutor em Ciência Política, professor titular (aposentado) de História da Política Exterior do Brasil na Universidade de Brasília e autor de várias obras sobre as relações dos EUA com o Brasil e os demais países da América Latina.



(23 de fevereiro/2008)
CooJornal no 569


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br