23/02/2008
Ano 11 - Número 569

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões
 


CUBA E A REVOLUÇÃO DE FIDEL


 

Ao se criticar o ditador Fidel, que acabou se eternizando no poder, o que todos sabem e nós condenamos evidentemente, há que relembrar os fatos históricos, sim, pois sem eles parece que Fidel foi um louco que roubou o poder só pelo prazer de se tornar ditador e sem maiores motivos para o fazer. Não foi assim. Ademais falar sobre História e respeitá-la não é padecer de idiotice, já quem a renegue, sim.

Parte deste relato eu retirei do excelente trabalho de Luiz Alberto Moniz Bandeira, De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina.”  Ele é muito abrangente e merece ser lido. Analisa Cuba e Fidel até o presente. Encontra-se no site do Google. Os parágrafos por mim usados estarão em itálico.

“Cuba vivia, desde 1952, sob a ditadura de Fulgêncio Batista, que chegara ao poder através de um golpe militar. Batista era um ex-sargento, promovido de uma hora para outra a coronel, depois da chamada “revolução dos sargentos” que depôs o presidente Gerardo Machado, em 1933. Sete anos depois, em 1940, Batista foi eleito presidente. Concluído seu mandato, manteve-se distante do poder durante o governo de seus dois sucessores, para retornar novamente à ativa em 1952, com um golpe de Estado.” ..... 

Para se contar toda a história da luta de Fidel, que era advogado e depois exerceu mandato político pelo Partido Ortodoxo, para derrubar o general ditador Fulgêncio Batista, apoiado pelos governos americanos da época, necessitaríamos de um espaço que não temos ao tratar do assunto em uma crônica. Vou resumir porém os fatos realçando os acontecimentos relevantes. Aliás a vida parlamentar de Castro foi interrompida justo com o golpe militar de Batista.

 

A luta de Fidel se iniciou em 26 de julho de 1953. Ele liderou então um grupo de 120 homens que tentaram tomar o quartel Moncada, em Santiago de Cuba. O assalto todavia não obteve êxito e vários revolucionários terminaram, uns presos, outros mortos. Fidel Castro foi preso e julgado. Consta que no curso do processo ele apresentou sua própria defesa. Ali foi lido o célebre texto "A História Me Absolverá".

 

Fidel chegou a ser condenado a 15 anos de prisão, mas tendo cumprido 32 meses da pena acabou beneficiado com uma anistia e partiu para o exílio no México. Lá ele  conheceu o argentino Che Guevara, um socialista, idealista, e médico formado. Castro reviu sua estratégia e regressou a Cuba no dia 2 de dezembro de 1956 comandando então uma tropa de apenas 81 revolucionários. Conta a História que eles invadiram a Ilha naquele dia tendo viajado a bordo do iate Granma, desde o México.

 

Outra vez o sucesso virou-lhe as costas. As forças do ditador Fulgêncio Batista acabaram por se impor e quase aniquilaram com todos numa localidade conhecida como “Alegría de Pio”. Os que sobreviveram refugiaram-se em Sierra Maestra. Sem desistir da derrubada do general ditador, Castro e seus poucos comandados deram início à guerra de guerrilhas contra a ditadura cubana. Guevara já estava com eles.

Longo foi o tempo desta etapa da nova estratégia para derrubar o general ditador. Depoimentos da época afirmam que muitos soldados do exército de Fulgêncio Batista desertaram e se juntaram ao grupo Castrista. Batista reagiu então muito forte.

“A selvagem repressão desencadeada por Batista aumentou sua impopularidade a tal ponto que, em 1958, os Estados Unidos acabaram suspendendo a venda de armas para o ditador. Em 8 de janeiro de 1959, depois de uma bem-sucedida greve geral, Batista foi derrubado e as tropas de Fidel entraram em Havana.”

O general ditador, uma vez se sentindo derrotado, tratou de se evadir de Cuba para não ser apanhado pelos revolucionários invasores.

“Manuel Urritia Manzano, moderado opositor do regime Batista, ocupou a presidência, e Fidel foi indicado primeiro-ministro. Alguns membros do Movimento 26 de Julho – nome da organização político-guerrilheira chefiada por Fidel – também ocuparam cargos ministeriais.” --- Entre estes estava Che Guevara.

“A organização de Fidel desfrutava de uma simpatia generalizada entre os cubanos e, a princípio, manteve-se eqüidistante do comunismo e do capitalismo. Os cubanos esperavam, por isso, que se instalasse um governo constitucional, um sistema democrático-representativo nos moldes conhecidos das repúblicas burguesas.”

Fidel foi considerado um herói, sim, para o povo cubano, pelo menos à época. Isto é História, não invencionice, e História não se discute, não se contesta, mas tem-se que reconhecer como verdade, gostemos ou não do que nela se contém.

 

Já no poder, e não contando depois com o reconhecimento americano para o seu governo, Fidel declarou o caráter socialista da revolução, mas isto somente mais de dois anos após sua posse, ou seja, em abril de 1961. Foi quando, face ao amplo e duro bloqueio econômico feito à Cuba por muitos países, inclusive europeus, imposto pelos governos americanos de então, Fidel caiu de vez nos braços dos russos.

“A radicalização: O fuzilamento dos inimigos da revolução (o famoso paredón), as reformas urbanas que obrigaram a baixar os preços dos aluguéis e a reforma agrária, de profundidade sem paralelo na América, eram manifestações de radicalismo que começaram a inquietar os moderados e, no plano externo, o governo dos EUA.” 

“A resistência do presidente Urritia à radicalização levou Fidel a demitir-se em julho de 1959. Essa atitude suscitou a mais viva manifestação a favor de Fidel e levou, por sua vez, à renúncia de Urritia, que foi substituído por Osvaldo Dorticós Torrado. Fidel voltou a assumir o posto de primeiro-ministro.”

“Os moderados, vendo na manobra política de Fidel o sintoma de uma indesejável combinação de radicalismo e autoritarismo, afastaram-se do poder. Isso significou, para a revolução, a perda de apoio dos quadros qualificados (profissionais especializados), a qual, no entanto foi compensada pela aproximação e colaboração dos comunistas, que desde o início da guerrilha conservaram-se distantes do Movimento 26 de Julho”.

 

Falar dele só pelo depois, é desprezar a História, e isso eu não aceito, como não aceito a eternização de Fidel no poder, como ditador sanguinário nos anos que se seguiram.   

 

O comportamento de Castro posteriormente, isso sim, podemos analisar como uma ambição desmedida de poder que fez com que ele preferisse não confiar numa alternância de comando. De socialista, que era, acabou por declarar o regime como comunista-marxista. Ainda por cima, na época, Guevara se afastou de Castro, segundo consta, por um desentendimento forte entre ambos. Há versões conflitantes sobre os motivos do rompimento entre eles.

 

Alguns anos depois Che foi morto na selva, na Bolívia, pelo exército de Barrientos, estando a CIA americana envolvida no seu assassinato, segundo diversos relatos históricos. Para o conhecimento total do desenrolar da ditadura Castrista, suas conseqüências, seus rumos, sugiro uma leitura atenta ao documento que cito ao começo deste texto.

 

Para informações mais completas sobre a história política de Cuba, entretanto, recomendo a leitura total da obra, com o mesmo título, do referido autor, que contém 687 páginas, editada em 1998.

--- Luiz Alberto Moniz BANDEIRA: Doutor em Ciência Política, professor titular (aposentado) de História da Política Exterior do Brasil na Universidade de Brasília e autor de várias obras sobre as relações dos EUA com o Brasil e os demais países da América Latina, entre os quais “O Governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil” - 1961-1964 e “De Marti a Fidel: a revolução cubana e a América Latina”.---

 



(23 de fevereiro/2008)
CooJornal no 569


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
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