01/03/2008
Ano 11 - Número 570

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões
 


A FILIAL DO PARAÍSO


 

Por algumas vezes, tanto em crônicas como em mensagens para amigos mais íntimos, eu já me referi a esta casa onde vivo atualmente com as palavras que compõem o título de hoje deste meu texto.

Já contei alguns fatos que me levavam àquela conclusão: “filial do paraíso”. Não só pelo silêncio, pela paz que desfrutamos aqui, pela brisa constante que mantém uma temperatura agradável na sombra, mesmo quando lá fora está mais quente, pelo cantar dos passarinhos que nos dão a honra de dividir este espaço com eles, etc.

Já escrevi certa vez pela emoção de acompanharmos o zelo dos pais cuidando da segurança de um ninho, em uma das árvores de acerolas, fato que já se repetiu outras vezes. Ver a vida renascendo sempre e sempre na sábia natureza que o ser humano insiste em agredir, em desrespeitar, mas que resiste eternamente.

Também pelo poder colher no pé, em casa, sem agrotóxicos, alguns legumes, verduras, pimenta, além de mangas deliciosas, bananas prata e nanica e acerolas às centenas, fato este que ocorre várias vezes ao ano. Por ter a liberdade de andar na grama sem ser proibido, deitar numa das redes na varanda quando apetece, etc.

Hoje porém quero lhes contar que tive a felicidade de testemunhar mais uma vez, há dias atrás, a “visita” que nos fez novamente um dos pássaros que aqui voam livres, sem gaiolas. Eles costumam entrar pela janela por trás de mim, quando estou no computador, passeiam pela sala e pela copa, e eventualmente vão até à cozinha.

Alguns podem pensar que estou fantasiando, mas creiam, só estou descrevendo a mais pura verdade de uma realidade com a qual eu não convivia mais desde criança, em Belém do Pará. Sermos eleitos pela natureza numa intimidade que nem sei se merecemos.

Entre a sala e a copa temos duas portas e duas janelas numa posição que facilitam a circulação do ar dentro de casa. Pela manhã geralmente estamos com o som ligado em boa música, tanto da nossa MPB como internacional, e geralmente instrumental. Acho que a passarada aprecia o nosso gosto musical.

Entretanto naquele dia tivemos bons motivos para nos emocionar ainda mais. Pela manhã, quando eu lanchava, um passarinho veio até à janela, parou, olhou para dentro e depois alçou um vôo suave passando pela sala, seguindo para a copa, onde eu estava, quase raspando em minha cabeça. Eu ri e achei aquilo muito lindo.

Sou muito bobo, devem estar pensando alguns, mas me vanglorio de que ainda sou humano, no melhor sentido desta palavra, e mantenho uma sensibilidade hereditária e aquele jeito de “amante á moda antiga que ainda manda flores”, como diz o Roberto Carlos. A vida é uma grande dádiva, ser feliz depende muito de nós mesmos.

E o tal passarinho completou um longo circuito, “se despediu” e saiu pela porta da frente, a que dá para a varanda. Pensei: quando será que ele vai voltar a nos visitar?

Eu nem podia imaginar que no mesmo dia, mais à tardinha, fôssemos ter o privilégio de ver se repetir a mesma cena. Foi por volta das 17 horas. Estava um lindo final de tarde com uma temperatura agradabilíssima.

Eu voltava da cozinha quando vi o passarinho novamente pousado na janela da sala que dá para o jardim. De imediato ele voou pela sala a dentro, foi até parte do corredor, retornou e completou o circuito sobrevoando a copa. Desta feita ele saiu por onde entrara. Duas visitas num mesmo dia, uma dádiva rara.

Outro fato muito comum é testemunharmos eles entrarem pela porta que dá para a garagem indo direto para a copa. Ficam a caçar eventuais migalhas no chão sem se importarem com nossa presença há poucos metros deles.

Nosso bom Touche, hoje com quatro anos de idade, jamais os atacou, limita-se a olhá-los, respeitando-os, e a pequena Safira, filha de Touche, também. Talvez por nunca se sentirem agredidos os passarinhos gostem de conviver conosco em paz e sem medo.

O que os nossos leais yorkshires não permitem é que os pombos venham roubar comida da “dama” Coker, a querida Tuane, cadela com mais de 7 anos. Num gesto de solidariedade eles costumam pôr os pombos a correr, ou a voar, quando percebem suas manobras próximo à vasilha do alimento da Tuane. Lindo isso.

Então por essas e outras é que isto aqui parece realmente uma “filial do paraíso”, se é que existe o dito cujo, claro.

Na hipótese dele não passar de uma ficção dos ensinamentos religiosos, já que acreditar em Adão e Eva julgo ser quase como crer em Papai Noel, nós temos cá, acreditem, o nosso Éden, real, autêntico, verdadeiro, num mundo atormentado por tanta violência, descaminhos, ambições de toda ordem, miséria e fome, pois é como atualmente caminha a humanidade.

Seguimos então curtindo a cada dia a nossa “filial do paraíso”, onde nós, seres humanos, convivemos em paz e harmonia com a natureza que nos cerca, integrando-nos à ela sem a destruirmos, sem sermos seus predadores, mas amigos e parte dela.

 


(01 de março/2008)
CooJornal no 570


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br