15/03/2008
Ano 11 - Número 572

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões
 


E SE O MUNDO FOSSE DAS CRIANÇAS?


 

Para alguns este título pode parecer uma bobagem e para outros pode se assemelhar a uma infantilidade. Pois é, amigos, parece mesmo. Mas foi o que de melhor eu consegui construí com as palavras para contar-lhes mais uma história de vida que presenciei há dias atrás.

Nós voltávamos do centro da cidade, aqui em Cabo Frio, e fomos até o bairro de S. Cristóvão. Marlene precisava comprar umas coisinhas numa pequena loja onde já é cliente há muito tempo. Conosco estavam os filhos da irmã caçula de Lena, que chamo de sobrinhos netos, o Luis e a Adriele.

Parei o carro bem à porta da loja. Aqui ainda podemos nos dar a este “luxo”, ou conforto, como queiram. Deixei o som ligado enquanto ouvia ótimos solos de piano do maestro Eduardo Lajes. Pelo cd “Emoções” escutávamos um magnífico desfile de canções do Rei Roberto Carlos. O horizonte começava a acolher o sol.

De repente percebo a aproximação de uma menininha pela janela do meu lado que olha para mim e pergunta: “Moço, ela pode vir brincar comigo?” A garotinha se referia à nossa Adriele, a pequena bailarina, que está hoje com oito anos e se encontrava no banco de trás do carro.

Depois eu soube que a menininha que falara comigo tem apenas quatro anos. Dirigi-me à nossa Didi e falei: “Vai, meu anjo, um convite desses é irrecusável.” A educação da pequenina me chamou mais a atenção ao vê-la conduzir Adriele pela mão até onde estavam os seus pais, sentados num degrau do prédio ao lado. Lá chegando ela apresentou Didi aos pais e logo lhe ofereceu sua moto de brinquedo, porém motorizada. A velocidade era bem lenta, claro.

O pai da menina sorriu para mim e acenou agradecendo minha autorização. Logo as duas brincavam como se fossem amigas há muito tempo. Aquilo me encantou. Dentro do carro, também no banco traseiro, ainda ficara o Luis, irmão de Adriele. Passados uns dois minutos a mesma menininha chegou-se a mim novamente:

“Moço, ele também pode vir brincar com a gente?” Autorizei de imediato e Luis não se fez de rogado. Este tem 10 anos. Voltou a garotinha até minha janela e me perguntou: “Como é o nome dele, moço?” Ao sabe-lo ela foi até aos pais e disse-lhes como se chama nosso Luis. Enquanto isso Marlene escolhia algumas peças de roupa na loja em frente e eu mais me emocionava com as atitudes da menininha.

A menina fez questão que os dois usassem seu bonito brinquedo demonstrando total desprendimento. Afinal é tão comum crianças terem ciúmes do que lhes pertence, mais pela educação que lhes passam os adultos geralmente apoiada em sentido de posse, o que acaba por gerar seres egoístas com amor excessivo ao bem próprio. Estava ali bem flagrante uma maravilhosa exceção.

Não resisti e me levantei, saindo do carro. Falei então para os pais da pequenina: “Meus parabéns pela filha que vocês têm,amigos. Que encanto de garota e com tão pouca idade. Percebe-se facilmente a bela educação que à ela vocês têm dado.”

Eles sorriram meio sem jeito e eu continuei: “É isso amigos, e se o mundo fosse das crianças? Já pensaram? Se elas tomassem conta de tudo, conduzissem tudo, a vida não seria melhor e muito mais simples?”

Eles concordaram comigo, com outro sorriso, e eu prossegui no meu discurso: “Quem complica tudo, quem destrói tudo, quem acaba com a vida, com a natureza, produz guerras insanas, gera tanta fome e tanta miséria, somos nós, sempre nós, os adultos. E pensamos saber de tudo, que somos donos da verdade.”

No íntimo eu imaginava o planeta habitado por milhares ou milhões de crianças como aquela menininha cujo nome eu nem perguntara até aquele momento. Mais tarde soube chamar-se Márcia.

Quando Lena terminou de fazer suas compras e voltou ao carro, Luís e Adriele se despediram da garotinha e também vieram. Percebi um ar de pequena tristeza no olhar da menina Márcia.

Fomos saindo devagar e acenei para ela e seus pais. Ainda cheguei a ouvir a voz da pequenina a dizer: “Boa Viagem. Vocês voltam?” Eu disse que sim, sem nenhuma convicção, e os pais dela novamente sorriram para nós.

O assunto em nossa volta à casa não podia ser outro, falamos o tempo todo sobre aquela bonita família de gente simples, mas não me deu vontade chorar, como diz a letra de uma canção do Chico Buarque. Pelo contrário, estávamos todos realmente encantados.

Qualquer dia voltaremos por lá e faremos uma surpresa à garotinha Márcia. Aos nossos sobrinhos netos, Luis e Adriele, valeu demais aquela lição de amizade, paz, solidariedade que tanto anda em falta em nossa sociedade e mesmo no mundo de hoje. E não partiu de nenhum adulto, mas de um anjo em forma de criança.

Quando será que aprenderemos, nós, os adultos, que sem amor, respeito mútuo, solidariedade, jamais plantaremos um mundo melhor?



(15 de março/2008)
CooJornal no 572


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br