22/03/2008
Ano 11 - Número 573

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões
 


Preconceito: uma vergonha mal disfarçada


 

Realmente é uma vergonha, mas também uma realidade incontestável. Alguns até consideram que dizer não haver preconceito no Brasil não passa de um mito. Ora, uma das definições dos dicionários para a palavra mito é esta: “idéia falsa, sem correspondência com a realidade”. Outra é esta: “coisa fantasiosa, irreal...”

Mas o não preconceito seria afinal um mito ou não? No Brasil com certeza é, e como afirmo, uma grande vergonha nacional, pelo menos em boa parte da postura de pessoas que devem se julgar não preconceituosas.

Alguns costumam asseverar que no Brasil não existe preconceito, assim como já há os exagerados que acreditam que a miséria e a fome estão sendo vencidas. Desculpem, eu prefiro acreditar em Papai Noel.

Não raros têm sido os exemplos que em vez de exceções andam mesmo é a confirmar uma regra: muitos brasileiros são sim preconceituosos. Isto inclui as preferências sexuais, as diferenças sociais, a cor da pele, etc. Quantos jovens têm se dedicado a espancar e até matar homossexuais? Os exemplos se repetem constantemente.

Outros decidem “se divertir” espancando covardemente mulheres indefesas, sejam domésticas, sejam profissionais do sexo. Jovens de classe média alta. Porém o que considero mais abjeto, mais asqueroso, mais desprezível é o preconceito contra a cor da pele das pessoas, embora todos mereçam de nós um total repúdio.

Deste caso se tem ouvido inúmeras declarações de pessoas hoje famosas, com popularidade adquirida pelo seu talento, afirmando que passaram por situações constrangedoras quando ainda não estavam bafejadas pela fama.

Ainda no final do ano ouvi o ator Lázaro Ramos, em entrevista na Globo, confirmar exatamente isso. O grande instrumentista, saxofonista, Paulo Moura, afirmou também viver situações semelhantes. Ele que tem muita fama além fronteiras.

Muitos têm sido os casos idênticos aos deles. Se a pessoa é de cor negra, ou afro descendente, como querem agora, geralmente acaba suspeita de alguma coisa. Se todos os casos deste tipo de injustiça fossem realmente divulgados veríamos que muitos brasileiros, e brasileiras, gostam de afirmar seu ego exercitando o preconceito.

Este é um tipo de “câncer” social para o qual não vejo cura, já que o comportamento das pessoas vai sendo formado por muitos anos a partir dos exemplos em família e acabam explodindo nas escolas, nas ruas, no trabalho, por aí afora. Se alguém quiser me contestar deveria antes acompanhar os noticiários diários, observar melhor alguns seus semelhantes nas ruas, e não fazer de conta que nada viu ou ouviu, ou nada sabe.

Sem medo de ser feliz, posso também afirmar que já sofri na pele, mais recentemente, este tipo de agressão, como digo no título, muito mal disfarçada, ou mesmo desavergonhada, impudica. Este tipo de gente deve ser, no fundo de suas almas, bastante infelizes. Não tenho a menor dúvida.

Também já testemunhei, tanto andando nas ruas, como em recintos fechados, tipo lojas, lanchonetes, etc, pessoas serem discriminadas, algumas vezes até “dissecadas” minuciosamente por olhares que não fazem a mínima questão de esconder o seu “espanto”, como se estivessem a mirar algo como seres extraterrestres, sei lá.

O que tenho observado, especialmente no Rio, em Ipanema, tem partido, via de regra, de pessoas mais vividas. Gente que assume o seu preconceito publicamente sem o menor pudor.

E vejam que a nossa querida Ipanema, onde fui morar desde o ano de 1964 pela primeira vez, e o próprio Estado do Rio de Janeiro, sempre foram considerados, e com justa razão, como vanguardeiros em tantas iniciativas de caráter social, em movimentos de luta por direitos humanos e contra preconceitos de qualquer ordem.

Mas, talvez sejam sinais de um tempo que mais refletem uma sociedade bastante enferma. Assunto que pretendo abordar em outro texto, logo, logo.

Alguns me dirão: “ora, não liga, deixa pra lá”. Certo, porém não vou deixar de aludir a esses fatos e condená-los, do contrário estaria me omitindo e deixando ficar no ar a falsa impressão de que os brasileiros não são preconceituosos. Somos sim, e muitos têm sido os maus exemplos divulgados na mídia em geral, fora os que não ganham manchetes, que devem até ser em maior quantidade.

E creiam que eu poderia fazer outras várias citações, mas não é o caso aqui. Não me move transformar o assunto em palanque, não sou político nem candidato a síndico.

Entretanto vou deixar com vocês uma citação atribuída a Albert Einstein: “Época triste a nossa... Mais fácil quebrar um átomo do que o preconceito!”

Entendo que boa parte do nosso povo não alimente este sentimento negativo, porém isto não encobre a ignomínia que é testemunharmos tantos exemplos do que estou definindo aqui como “preconceito: uma vergonha mal disfarçada.”



(22 de março/2008)
CooJornal no 573


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br