29/03/2008
Ano 11 - Número 574

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões
 


CHUVA DE PIPAS


 

É comum assistirmos aqui em Cabo Frio ao bonito espetáculo das pipas, ou papagaios, ou pandorgas, especialmente no verão. Pipas de todas as cores, desenhos, mostrando símbolos de times de futebol, entre outros. Uma variedade incrível inclusive de formatos, algumas que se chamam arraias, maiores e geralmente sem rabiola.

Já escrevi sobre este acontecimento em outro ano. Neste verão, porém, o céu foi testemunha da imensa quantidade de papagaios que a garotada, alguns jovens, e outros nem tanto, levaram ao ar com muita perícia. O tempo e o vento ajudaram. Foi uma festa que se repetiu por muitas tardes com uma temperatura bem agradável.

E eu mergulhei em tantas recordações da minha infância pois adorava aquele exercício, verdadeira arte. Como tínhamos três grandes quintais, na antiga casa do bairro do Marco, em Belém do Pará, era muito mais fácil a missão de elevar ao alto o papagaio de papel. Nem sempre eu precisava correr para que ele alçasse vôo.

Mas, voltemos ao presente e a Cabo Frio, onde vivo. Sinto um grande prazer em assistir não só ao bailado que elas nos proporcionam como ver os chamados cruzas. Evidentemente que estes não teriam graça nem fariam sentido se as linhas, ou algumas delas, não estivessem enceradas.

Nos anos da minha infância e juventude usava-se o cerol, comprado ou feito em casa, a fim de tentarmos nos impor nas disputas dos referidos cruzas. Curiosamente naqueles tempos ninguém nos proibia de o usar, embora houvesse sempre o risco de se cortar um dedo, mas cujo ferimento geralmente era insignificante.

Os mais atentos usavam esparadrapo em alguns dedos para evitar isso e pronto. Também não se ouvia falar em mortes por causa das linhas com cerol, como ocorre atualmente. É verdade que sempre haverá esse risco, todavia, comparado com a imensa quantidade de pipas que são lançadas ao ar, ele se reduz a um mínimo. Mas o risco realmente existe. Mais irresponsável é soltarem pipas nas praias cheias de gente.

Por outro lado falar de pipas sem os indefectíveis cruzas é algo insosso, uma comida sem sal, um café sem açúcar, um beijo forçado. Apesar da proibição o cerol continua atuante e, em verdade, nem há como se controlar totalmente o seu uso mesmo que proibissem radicalmente a sua venda.

Já imaginaram uma partida de futebol sem a bola?! Digamos que seria mais ou menos isso. Todavia vamos deixar de lado essa polêmica já que me apraz muito mais falar do espetáculo em si, do verdadeiro show de habilidade e técnica que a turma exibe ao elevar aos ares seus papagaios, empinando-os com maestria.

Quantas manobras fantásticas, um autêntico bailado que assim descrevo nos versos do meu poema “Vôo de Papel”:

Solta a tua alegria
Feliz e vadia no ar,
Faz flutuar no espaço,
Rompendo o mormaço
Com teu braço gigante
De linha ou barbante
Tua asa, teu céu,
Teu vôo de papel.

Rege com as mãos o bailado
Aéreo dançado,
Teus sonhos cruzando
Com sonhos rivais,
Buscando tais quais
A mesma vitória
E ter uma estória
Para depois contar.

Guarda na tua alegria
Feliz e vadia, menino,
Teus sonhos bem pequeninos
Para poderes crescer e sonhar.
Nas tantas batalhas perdidas,
Nas muitas linhas partidas
Foge sempre um pouco da gente.
Estes sonhos não vão voltar.

Eu o escrevi em 1999. Ele ganhou o primeiro lugar no Concurso Literário dos sites “Sociedade dos poetas” e “Mural Livre”, algum tempo depois. Está para ser editado num livro escolar no Estado do Paraná, conforme autorização por mim concedida.

Queria registrar aqui que neste verão, entre os dias 11 e 12 de janeiro, ocorreu na casa em que vivo uma autêntica chuva de pipas. De um dia para o outro caíram, tanto no quintal, como na varanda e nos dois telhados, nada menos que... 7 (sete) pipas. Nunca eu vira tanta fartura que fez a felicidade dos nossos sobrinhos netos.

É verdade que estes estão proibidos de usarem cerol e são controlados por nós com rigor. Então eles ficam a lamentar que quando conseguem levantar uma pipa aos ares e aparece algum “competidor” mais atrevido e decidido, acabam não conseguindo fugir deles e... lá se vai mais uma pipa. Afinal fugir sempre do embate fica parecendo uma decisão com ares de covardia. Eles lamentam mas respeitam nossa decisão.

Com a minha velha experiência, passo para eles alguns truques de cruzas sem as linhas se tocarem. Do tipo “catar a rabiola” do papagaio do outro. O problema é que lhes falta a prática e o espaço de que dispõem é pequeno para uma fuga necessária. Valem as tentativas. Triste é perder pipas para as árvores... Um dia eles vão aprender.




(29 de março/2008)
CooJornal no 574


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br