03/05/2008
Ano 11 - Número 579

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões
 


ROSAS LUTUOSAS DE MAIO


 

Amigos e amigas, eu me recuso a falar hoje do mês de Maio com palavras poéticas, românticas, inspiradas no que se consagrou chamar de Maio, o mês das flores.

Como ser poeta nessas horas se as flores estão continuadamente a ser pisoteadas, esmagadas, esquartejadas, despetaladas, arrancadas do seu habitat de vida para uma morte truculenta, cruel, perversa, desumana, quantas vezes impune. Muitos seres humanos estão provando que nada têm de jardineiros, pelo contrário, estão mais para verdugos, executores de uma inocência indefesa.

Como me decepciona, desculpem a sinceridade, ver certas pessoas bem letradas, muito bem formadas, cultas, inteligentes, pisarem em ovos para se pronunciar sobre este ou aquele ato monstruoso quando os envolvidos, ou suspeitos, ou mesmo já com a culpa formada por investigações e periciais policiais possuem uma certa posição social que parece lhes dar direitos que a lei não admite.

Não, hoje não tenho ânimo para ser poeta. As outras flores que me perdoem a falta de homenagem, mas recomendo que se cuidem, que fiquem muito alerta, na medida do possível. Os jardineiros parecem ser uma classe em extinção.

O que vem crescendo, não adianta discordar, é a raça dos exterminadores, dos esquartejadores, dos que já nem pisam nas flores, mas as atiram espaço afora, as rasgam com tesouras, as atiram em lagoas, em latas de lixo, quando não as esganam, despetalando-as com uma fúria e uma indiferença ao ato praticado que nos arremete ao demoníaco, ao satânico, à barbárie que julgávamos ultrapassada.

Faço aqui um parêntesis para lhes contar que no ano de 1995, quando passeava pela parte antiga e histórica da linda cidade de Barcelona, na Espanha, um som bem suave irrompeu pelo silêncio e chegou aos meus ouvidos. Aquela música me era muito, muito familiar. Tratei de seguir o som e acabei encontrando sua origem.

Um jovem, postado embaixo de uma marquise, com seu solitário violino, tocava nada mais nada menos que esta linda canção, “Rosa de Maio”. Quantos ainda se lembrarão dela?! Esperei que ele terminasse e me dirigi ao jovem. Perguntei se ele sabia que aquela linda partitura que ele acabara de executar era de um autor brasileiro. O violinista mostrou surpresa e respondeu apenas que a achava realmente bela, muito bela, por isso a tocava. Ele era italiano.

Neste momento em que escrevo estou a ouvir, já pela terceira vez, a mesma melodia, só que executada pelo saxofone do excelente Ivanildo. E aí me ocorre perguntar: quantas rosas de maio, de setembro, de janeiro, etc, já foram estupradas, estranguladas? Quantas ainda o serão? Quantas outras, ainda em botão, foram desrespeitadas, sem sequer terem direito a crescer no jardim?

Isso tudo o choca? Isso tudo o revolta? Isso tudo acirra sua indignação? Por que então acha que eu não deva manifestar também a minha revolta, sem qualquer tipo de exploração seja de que ordem for, e hoje também como pai e avô que sou?

Deveria eu apenas enfiar a cabeça no buraco da indiferença e fazer de conta que de nada sei? Por que o desejo que eu me cale, que não comente, não opine? Perdoe se contrario algumas opiniões, mas eu vou defender sempre essas flores embora com a única “arma” que tenho, a palavra e os espaços que me abrigam.

Desculpe, mas não integro nenhum time de gente que prefere, nessas horas, falar de poesias, insistir que o mundo é azul e que a vida é um mar de rosas, ou filosofar para as paredes, fazendo ouvidos moucos aos gritos suplicantes de tantas flores indefesas a serem exterminadas. Não, eu não me omitirei, jamais.

Tenho vocação para jardineiro, sei cultivar flores e zelar por elas, não me tome por avestruz, ou “aquele tipo de pessoa geralmente obstinada em não ver ou considerar o lado desagradável das coisas.”

Há dias atrás o amigo Otacílio Guerra, me escrevendo sobre a tortura e morte recentes de mais uma linda e indefesa flor, justamente por quem deveria estar a cultivá-la, a regá-la diariamente, e revoltado com certos comentários que insistiam em ir na contra mão dos fatos, fez esta reflexão que eu aplaudo:

“Gosto muito de ver quão tenebrosos somos, às vezes, como a face que Nelson Rodrigues expunha da sociedade que compomos, hipócrita e avestruz, e como nos repetimos ao longo da História, como se uma só vida tivéssemos nos tipos que formamos pelos séculos de nossa existência como raça "humana".

Ele tem razão. Citar Nelson Rodrigues foi realmente muito oportuno. Muitos não gostam do estilo do maior teatrólogo brasileiro porque ele não escondia, não simulava, não fingia não ver ou não saber, mas nos atirava na cara a realidade em que estamos metido, a sociedade doente e bastante hipócrita com que convivemos.

Rosas, rosas, rosas, rosas de março, rosas de abril, rosas de maio, rosas do ano inteiro que deveriam sempre expressar alegrias, venturas, prazeres, serenidade, mas..... tem havido sangue, muito sangue em certos jardins.

Infelizmente muitas delas vêm sendo encontradas em lagoas, latas de lixo, espatifando-se contra pára-brisa de um carro, espancadas, arrancadas do seu hábitat e lançadas das alturas contra a incredulidade dos que têm muita dificuldade em acreditar no que vêm, no que fica provado, porque se olharem para os jardins vão perceber que as flores estão faltando lá.

Para as tantas rosas lutuosas de março, de abril de maio, etc, dedico esta quadrinha que escrevi há alguns anos:

“Da promessa tu brotaste em amor,
Florejando em paz e felicidade,
Pra eternidade tu levaste a vida,
Deixaste o amor, desfolhando em saudade.”



(03 de abril/2008)
CooJornal no 579


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br