17/05/2008
Ano 11 - Número 581

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões
 


O MILAGRE DO SORRISO


 

Quando contratei os serviços da Costa do Sol, Tv e internet a cabo aqui de Cabo Frio, não imaginava que para além dos benefícios que me trariam através da instalação, eu seria presenteado com uma história de vida das mais emocionantes.

Eram dois os funcionários cada um a trabalhar em sua respectiva área. O que cuidava de nos colocar a Tv a cabo chama-se Valquir. Cidadão simpático, educado e conversador, páreo duro comigo, pois.

A certa altura do trabalho ele parou e se dirigiu a mim assim: “O senhor disse que escreve e que gosta de contar histórias de vida, especialmente com muita emoção?” Após eu confirmar ele afirmou: “Pois se prepare para o que lhe vou relatar. É uma história verdadeira, acredite.”

Valquir começou contando que certa vez, quando fazia a mesma instalação numa casa em que havia uma senhora e uma criança, de repente se distraiu ao cortar um fio e... quase decepou o próprio dedo.

Enquanto ele se contorcia de dor e tentava conter o sangue, reparou que o garoto, que parecia ter uns nove anos e estava sentado num sofá da sala, ria, mas ria muito olhando para ele. Valquir não deu importância e até esboçou um leve e sofrido sorriso para o garoto. E mais o menino ria, ria gostoso.

Repentinamente a mãe do garoto apareceu com um celular na mão e a filmar o filho a dar risadas. O técnico se distraiu novamente e acabou martelando outro dedo da mão esquerda, oferecendo mais razão para o pequeno rir sem parar.

A certa altura a mãe parou de filmar e se dirigiu ao Valquir. Explicou que estava registrando aqueles momentos do seu filho para mostrar ao marido quando este chegasse para o almoço. Afirmou que ele iria ficar muito feliz assim como ela também estava. Valquir não entendeu nada, mas preferiu não fazer perguntas.

Foi aí que a senhora explicou a ele o que se passava: “Amigo, sem querer você está sendo um anjo bom que acaba de realizar um verdadeiro milagre, creia.” O técnico pensou: “Milagre, eu? Um pecador que não tem nada de santo?!”

Agora explico eu a vocês, amigos e amigas leitores: o menino era paraplégico e altista. Por outro lado, há muito tempo ele sequer esboçava algum sorriso, o que preocupava e muito aos seus pais.

Valquir até esqueceu a dor dos dedos atingidos e sentiu algo mais forte a tomar conta dele, uma emoção sem limites que se traduziu em algumas lágrimas naquele rosto antes enrijecido pela dor.

O menino o chamou e esboçou um gesto de carinho em Valquir.

Terminado o serviço de instalação, o técnico, antes de se retirar, falou com o menino e este disse que gostava de escrever na internet. Então o nosso bom Valquir anotou para ele o seu e-mail pessoal. Quando o fez não imaginava que o guri o fosse realmente usar.

Pois é, mas usou. Visivelmente emocionado ele respirou fundo diante de mim e depois seguiu com o seu relato que me estava interessando e muito.

Quando coincidia dele passar pela casa daquele seu novo amigo e este estava na varanda, sempre os dois se cumprimentavam. Esta cena aconteceu algumas vezes até que depois nunca mais o técnico teve oportunidade de passar por lá e depois soube que a família se mudara de Cabo Frio.

Os meses se sucederam e a rotina de Valquir continuou a mesma, apenas a vida afastara seu novo amigo para um destino que ele ignorava.

Certo dia o nosso técnico abriu sua caixa de mensagens no computador e se surpreendeu ao ver lá justo uma que vinha daquele garoto.

Pois é, amigos e amigas, ali estava uma doce mensagem do menino que aprendera a sorrir com um descuido do Valquir.

Ele ficou emocionado e tratou de abrir a mensagem. Vocês também já devem estar ficando ansiosos para saber o que escrevera o bom menino para o nosso técnico.

Valquir abriu a mensagem e leu:..... SAUDADE.....
 



(17 de maio/2008)
CooJornal no 581


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br