07/06/2008
Ano 11 - Número 584

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões
 


QUEM É IRRACIONAL?

 

Em verdade considera-se que os seres humanos, nós, é que somos seres racionais. Nós é que sabemos “fazer uso da razão”, que agimos “racionalmente”. Pois é, deveríamos ser assim, mas quantos exemplos, os piores possíveis, nós, seres ditos humanos e racionais, já demos ao mundo da nossa irracionalidade, humana, claro?

Os exemplos a que me refiro estão todos registrados na história deste mundo através de séculos. E quanto mais evoluímos parece que mais nos refinamos na crueldade, na ambição, na maldade, ou como diz o dicionário “nos comprazemos em fazer o mal, em atormentar e/ou prejudicar alguém, alguns, ou muitos.”

A história registra as monstruosidades praticadas em nome de “Pátrias”, “Religiões”, de falsas “Libertações”, de ambições de poder mal disfarçadas, mas não somente por políticos inescrupulosos e/ou tiranos. Houve algumas colaborações para tanta tirania, execuções sumárias, além de apoios a poderosos mandatários (ditadores, algozes) que chegaram a promover execuções em massa, caso de Hitler, por parte de quem vive a falar em nome de Deus. Refiro-me às religiões, inclusive a católica, e seus líderes maiores. A História não mente.

Certa vez, creio que em 2004, um amigo trocava idéias comigo em cima de uma de minhas crônicas sobre terrorismo, religião, guerras, etc e tal. Ele me fez lembrar fatos que não podem ser desmentidos até porque a História deste mundo, que os mais religiosos ainda dizem ser de Deus, comprova a veracidade de uma trajetória muito menos digna ou honrada do que se poderia imaginar. Preferi deixar os (maus) exemplos para outra oportunidade.

Chegamos ao século XXI e aí estamos nós cada dia mais mergulhados em guerras, terrorismo, escravidão, tortura, ditadura, tráfico de drogas, e um rosário imenso de desgraças, claro que todas bem “racionais”, afinal somos seres superiores, somos humanos. E alguns ainda se vangloriam do que fazem.

Felizmente existem os cientistas, os médicos, os artistas, os ambientalistas, os pacifistas, enfim, os que se empenham em salvar vidas, em preservar o meio ambiente, em criar situações de sobrevivência, em imitar a vida pela arte, etc.

Mas, é verdade também que certas descobertas científicas acabaram em mãos de alguns “racionais”, do mal, claro, e terminaram “evoluindo” para a produção de armas poderosas de extermínio em massa. O átomo foi um grande exemplo. Haja vista Hiroshima e Nagasaki, cidades japonesas arrasadas por bombas atômicas que fizeram milhares de mortes, destruição total, onde até hoje nascem pessoas com defeitos físicos face àquela decisão americana sob o pretexto de terminar a II Guerra Mundial.

Não obstante toda a crueza desumana promovida pelo nazismo, que até hoje consegue adeptos, o que é uma insensatez, aí estão as inúmeras guerras que não me deixam mentir, algumas que ficaram na história especialmente como primores de sandices, crueldade sem limites, porém engendradas e conduzidas por seres... “racionais”.

Enquanto isso vamos considerando irracionais todos os animais. Eles que normalmente não matam seres da mesma espécie, e quando atacam os de outra é porque estão com fome ou para defender sua família. Nunca, até porque não faria sentido, pelos motivos torpes e desprezíveis que nós, “racionais”, nos justificamos.

Nós que já alcançamos o grau “máximo” de nos matarmos pelas razões mais vulgares, além de tomarmos conhecimento de pais que constantemente ou abandonam bebês em lixeira, à beira de rios e lagoas, quando não os assassinam. Não raras vezes tenho lido em jornais e visto em noticiários televisivos tanto mães quanto pais que trucidam suas crias, atirando-os por uma janela, envenenando-as, na maioria das vezes porque brigaram entre si e vão “à forra” nos seus filhos. Quanta “racionalidade”!

Sei que seria para mim muito mais fácil estar aqui a falar de outro assunto mais leve, mais agradável, cuja leitura não deixasse ninguém enojado de fatos tão horripilantes, mas de quando em vez é necessário encararmos de frente o que se passa à nossa volta e não ficarmos a pensar que tudo são flores, ou que a vida é apenas, e sempre, azul.

Por isso fico perplexo quando vejo seres ditos “irracionais”, como nossa querida Safira, (yorkshire, filha de Touche) por exemplo, demonstrar por Lena um amor, uma fidelidade, que não sabemos de onde surgiu, já que todos a amamos, e a tratamos com o maior carinho. Ela não se afasta de Marlene. Se esta sai para comprar algo Sassá permanece encostada à porta da rua até Lena voltar. E não sai de lá.

Mais, se alguém finge que vai bater em Lena, Safirinha mostra os dentes, rosna braba, (se é que consegue ficar braba...) e aquela coisinha pequena e tão linda só se acalma se percebe que tudo não passou de uma brincadeira. Outra atitude dela que nos deixa pasmos, já que se trata de um ser “irracional”, é quando Sassá sente fome.

Parece incrível, mas é verdade. Se a cumbuca da comida dela está vazia, Safira, com a patinha, fica a bater na mesma várias vezes, com força, até nós percebermos que nos chama. Ninguém ensinou isso à ela, e se alguém falar em “instinto”, saiba que nossos outros dois cachorros jamais tiveram este comportamento. Nem Touche, o pai dela. Teria outras histórias para contar mas o espaço não permite.

Touche, por seu lado, muito amigo e leal à “dama Coker”, a Tuane, 7 anos, se ouve alguém a zangar com ela corre para perto da amiga e se põe a defendê-la. A mesma atitude ele tem quanto às crianças, Luis e Didi, nossos sobrinhos netos. Essa lealdade, entre outras atitudes, me faz descrer de que eles sejam totalmente “irracionais”.

Acreditem que há algumas semanas atrás, estando Touche na rua em companhia de Luis e Didi, ao ver o cachorro de um depósito de material, imensamente maior do que ele, se aproximar das crianças, sem hesitar partiu para cima do mesmo. Logo me tomou o medo de que acontecesse o pior. Gritei mas de nada adiantou. O que vi a seguir foi o cachorrão atravessar a rua correndo tendo nosso bravo Touche a atacá-lo, aos pulos, com uma coragem indescritível.

Uma senhora que passou na hora brincou com ele dizendo: “Baixinho, você é valente, hein?” A história terminou com Touche sendo coberto de carinhos e beijos por todos nós. Apesar disso prefiro que o fato não se repita.

Concluindo e admitindo existirem animais irracionais, claro, tenho certeza de que, proporcionalmente, há muito, mas muito mais humanos irracionais. Só não vê ou não admite quem vive a bancar o cego que não quer ver. Afinal a grande maioria das desgraças que vêm acontecendo nesta humanidade, mesmo os cataclismos, são no fundo gerados pela irracionalidade humana através de décadas e décadas de desatinos e predação tendo, quase sempre, a ambição e o poder como pano de fundo.



(07 de junho/2008)
CooJornal no 584


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br