14/06/2008
Ano 11 - Número 585

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões
 


MARVÃO – Portugal

 

Foi no ano de 1992 quando estávamos a morar por um longo período, pela segunda vez, em Lisboa. Passeávamos muito, geralmente de comboio. Eu tinha muita curiosidade por conhecer Marvão pelo que já lera a respeito daquela vila. Ela se localiza bem na fronteira com a Espanha, pela região do Alentejo, e no alto de uma colina. Está há uns 850 metros acima do nível do mar.

Naquele passeio tomamos o comboio noturno, com cabines dormitório, e fomos até Madri. De lá viajamos a diversas cidades não muito distantes da capital espanhola. Dias depois retornamos da Espanha porém no comboio que saía de Madri pelas 14 horas. A parada na Estação de Marvão-Beirã era obrigatória.

É necessário que eu explique: Marvão-Beirã fica na parte baixa, já que a vila de Marvão que visitaríamos é que está no alto da colina. Quando saímos da estação estranhei não ver qualquer ônibus ou táxi para podermos nos deslocar ao nosso destino. Um funcionário da ferrovia orientou-me.

Deveríamos ir até um bar, bem familiar, logo do outro lado da rua, onde uns cinco homens, que nos cumprimentaram cavalheirescamente, tomavam canecas de vinho. Lá procuramos por uma senhora, dona do estabelecimento, e pedimos que nos chamasse algum táxi da cidade de Marvão. Ela sorriu e nos explicou como aquilo funcionava por lá.
Havia um táxi, sim, em Marvão, apenas um, mas ele estava numa oficina passando por reparos. Tomei um susto e perguntei como faríamos para subir a colina. Fiquei então sabendo que a senhora com quem eu falava era esposa do motorista do, também único, táxi de Marvão-Beirã. Ela colocou o veículo à nossa disposição.

Logo a seguir apareceu um senhor muito distinto que nos cumprimentou, guardou nossa bagagem no táxi e nos conduziu enfim ao alto da colina. Já havíamos feito reserva na única pousada que lá havia. A vila de Marvão está situada dentro dos muros, ou muralhas, do Castelo de Marvão.

Lá no alto escuta-se o silêncio que só é rompido pelo gorjear dos passarinhos. Não diria que ali o tempo teria parado, até porque a antiga aldeia evoluíra para a classificação de Vila e era evidente a presença de um certo progresso, se posso dizer assim, embora a maioria de seus benefícios passassem bem ao largo.

As casas eram todas pintadas de branco, assim como os muros e as escadas. As pequenas ruas ficavam umas acima das outras e geralmente passava-se de uma para outra descendo ou subindo poucos degraus.

Jardins em profusão, flores muito coloridas por toda parte, tudo muito lindo para quem gosta de paz, muita paz. Tem-se lá uma visão de 360 graus das terras tanto portuguesas quanto espanholas próximas à fronteira. Que delícia o pequeno almoço (café da manhã para nós) na Pousada Santa Maria em que nos hospedáramos. Eu sonhara com aquilo por um bom tempo.

No primeiro dia fomos almoçar num local que nos chamara a atenção pelo exótico da coisa. Havia uma árvore frondosa com muitos galhos espalhados numa área bem grande. As mesas estavam justamente embaixo da dita árvore. Logo ficamos sabendo que o dono do restaurante era também o dono da padaria local e do único táxi de Marvão. O que estava em reparos quando chegamos lá embaixo.

Conta a História que a vila de Marvão, há séculos, foi muito disputada entre portugueses e espanhóis. Chegou a ser tomada por esses umas duas ou três vezes e recuperada pelo bravos soldados lusitanos outras tantas. Consta que D. Afonso Henriques (1112 – 1185) foi quem tomou a vila aos mouros pela primeira vez entre 1160 e1166. À época Marvão era uma vila medieval.

O Castelo de Marvão, no Alentejo, está localizado na vila e Freguesia de Santa Maria de Marvão, Concelho de Marvão e Distrito de Portoalegre.

À noite, após o jantar, costumávamos andar despreocupadamente por aquelas ruas estreitas, tal como fazíamos de dia, até porque nada havia lá que levasse alguém a pensar em algum tipo de violência, absolutamente.

Um dia paramos junto a um pequeno grupo de três pessoas já de idade avançada, um homem e duas mulheres. Pedimos licença e puxamos assunto com eles, dizendo sermos brasileiros e fazendo-lhes algumas perguntas sobre a vida em Marvão. Eles disseram jamais ter saído da vila e confessaram adorar viver ali naquele paraíso.

Percebemos que lá existiam crianças e uma Escola. Este fato, em outras duas vilas, ou aldeias, bem antigas de Portugal, que já havíamos visitado, não ocorria. Explico: como nelas não existia Escola nem maiores oportunidades de trabalho, exceto o braçal que alguns faziam, e as tarefas domésticas, os jovens acabavam indo embora da aldeia para buscar o ensino, a aprendizagem necessária ao seu preparo para algum futuro emprego e assim só ficavam lá os mais velhos.

Não era o caso de Marvão, não pelo menos em relação às crianças e quanto ao ensino primário, ou secundário. Se alguém sonhasse em cursar uma Universidade, aí sim, teria que deixar a vila e buscar um centro onde pudesse realizar o seu sonho. Até hoje carrego bem nítido em minha memória aquela aventura, aquele sonho realizado por mim e Zezé, vivendo por três dias na Vila de Marvão – Portugal.

Saudades e lembranças que levamos na vida e nos ajudam a continuar nossa caminhada nessa existência.



(14 de junho/2008)
CooJornal no 585


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br 

Direitos Reservados