21/06/2008
Ano 11 - Número 586

ARQUIVO SIMÕES

 

          

Francisco Simões
 


SURDOS E CEGOS POR OPÇÃO

 

Pois é, amigos, como sabem tenho me preocupado muito com esta sempre crescente violência em nosso país, e particularmente nas cidades do Rio de Janeiro e de S. Paulo. Me preocupo e uso o espaço que tenho para opinar, denunciar, criticar, enfim, para exercer uma cidadania que entendo ser meu dever.

Mas nem todos que me honram com sua atenção, lendo meus textos, acham assim. Já recebi críticas que respeito, mesmo discordando de algumas, geralmente sendo “acusado” de entrar na “festa” que faz a nossa mídia ao divulgar esses lamentáveis e terríveis fatos que estão acontecendo em nossa sociedade enferma e meio sem rumo. Tentam esses ignorar que a próxima vítima pode ser qualquer um de nós.

Esquecem-se que é também papel da mídia, escrita, falada e televisada, não esconder fatos desta ordem mas os trazer para o conhecimento de todos, denunciando, fazendo cobranças às autoridades, sim, e exigindo providências. Afinal os responsáveis foram eleitos pelo povo, este a maior vítima de tantas tragédias em assaltos os mais variados, invasão de residências, seqüestros relâmpagos, além da agora também crescente violência no trânsito, entre outras.

Houve quem me dissesse que prefere não ficar a tomar conhecimento de certos fatos porque faz-lhe mal à saúde. A mim também faz mal tomar conhecimento dessa violência hoje bem diversificada e cada dia chegando mais perto de nós. Não bastasse que certa vez fiquei com uma arma encostada em minha cabeça, dentro do meu carro, por cerca de vinte minutos. Já contei isto numa crônica.

Com todo respeito jamais serei avestruz, pois se enfiasse a cabeça no buraco como poderia depois me olhar no espelho? Não se trata de “fazer festa” com a desgraça de ninguém, não. Não se trata de valorizar o sangue das vítimas para atrair leitores interessados neste assunto, como também me disseram, não.

Imprensa calada já tivemos, e como tivemos, durante os anos da ditadura quando somente era permitido divulgar o que interessava “engrandecer” atitudes e decisões do governo. Como se o país e nosso povo vivessem permanentemente num mar de rosas. Não quero mais isso. Temos sim que denunciar, que fazer a crítica serena ou forte, conforme o fato o exija, sempre com responsabilidade, porém, repito, jamais se calar.

Faço um parêntesis rápido, embora o que vou escrever esteja dentro do assunto deste texto. Li outro dia uma pesquisa na qual estava registrado que atualmente, em nosso país, morre uma criança a cada 15 minutos. Perdão, morre, mas por violência, maus tratos, escravidão, tortura, ocorrendo esses crimes muitas vezes dentro do próprio lar. Por favor, façam as contas e vejam quantas são mortas por dia, por mês, e/ou por ano. Depois podem voltar à sua insensível indiferença!

Os que se auto nomeiam “surdos e cegos por opção” nem devem estar me lendo novamente, para eles devo estar a pregar no deserto. É, mas felizmente nem todos pensam assim, nem todos agem assim, então continuo a escrever para quem não vive a se esconder em sua concha particular, selecionando (ou seria seletando? se bem que no fim dá na mesma) quem escreva mais sobre música clássica, literatura em geral, história antiga, etc, assuntos que me interessam muito, mas que na nossa atual realidade infelizmente não são prioritários. Pelo menos enquanto escrevo.

Não sei se vocês leram esta notícia divulgada em nossa imprensa escrita há poucos dias. Um casal atirou ao lixo os seus bebês gêmeos. Claro, isso está virando uma rotina terrível. Vejam que este casal alegou que o fizera porque... “esperavam que nascessem dois meninos”, logo... Há momentos, meus amigos, que começo a me perguntar onde está o Deus em que ainda insisto em acreditar!!

Sabem que gosto muito de contar histórias da vida, mexendo com a emoção humana, e o tenho feito costumeiramente, mas outras vezes assuntos que, embora me desagradem, passam a ser prioritários e não há como fugir deles.

Atualmente não passa uma semana que não tenhamos notícia de algo como tortura, abandono e morte de crianças indefesas, ou, igualmente triste e condenável, a tortura por espancamento pra cima de pessoas doentes, idosos, feito por quem está ali para cuidar deles. Sem falar em casos mais recentes envolvendo a violência policial. Que loucura, amigos.

E faço mais um parêntesis aqui. Enquanto isso, um bando de ciclistas julga que pode fazer um protesto porém agredindo a ordem pública, pedalando nus, é, inteiramente nus, passando por vias públicas. Não sou falso moralista, porém eles teriam até como defender melhor seus argumentos usando de uma forma que não afrontassem leis e direitos de outros cidadãos de não gostar de assistir àquele espetáculo um tanto deprimente.

Se algum repórter se aproxima deles e os inquire logo alegam: “Estamos numa democracia, não estamos? E daí?”. Pobres e infelizes mentes que sequer sabem o que é realmente viver em democracia ou especialmente lutar por ela.

E ao que me pareceu até a “seleção” dos ciclistas foi feita com “certas regras”, pois homens e mulheres demonstravam estar com tudo em cima. Também não percebi pessoas que não fossem brancas. Protesto ou exibicionismo?!

A mim pouco me importa que o mesmo “protesto” se tenha repetido em outros países. Ou vamos continuar a dar razão aos argentinos e continuarmos a ser chamados de “macaquitos” por gostarmos de copiar exemplos??!! Lamentável.

Fechando aquele parêntesis, há muito pelo que lutar atualmente, há muito pelo que protestar e o que denunciar, mas alguns têm uma visão muito curta e sequer sabem o que seja “lutar” realmente pelo bem comum, pela cidadania de um povo.

Acho que é melhor eu me calar agora porque se continuar vou acabar saindo do sério e me lamentando por ainda estar aqui e ter que assistir a coisas deste jaez.



(21 de junho/2008)
CooJornal no 586


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br 

Direitos Reservados