28/06/2008
Ano 11 - Número 587

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


INDO CONTRA A MARÉ
Ou, Falando da Seleção
 

 

Amigos e amigas, hoje eu vou falar de futebol, mais especificamente sobre nossa seleção e, claro, sobre o comportamento de nossa torcida. Sei que provavelmente vou “nadar” contra a maré, mas não deixarei de dizer o que penso, de ser autêntico, como sempre o faço. Afinal não devo minha opinião a ninguém.

Que há uma turma enorme querendo a cabeça do Dunga, como técnico da seleção, quem lida com o futebol já sabe. Nessa turma incluem-se muitos comentaristas de diversos jornais e emissoras de rádio. Aproveitando que nos recentes jogos a seleção não se foi bem trataram de engrossar este coro contra o técnico.

Eu vi o Mineirão, lotado, já quase ao final do jogo, gritar em uníssono: BURRO – BURRO – BURRO. Torcida fanática é assim mesmo, não pensa, não raciocina e muito menos tem memória. Quer ver vitória e se ela não acontece: BURRO.

Naquele jogo contra os Argentinos (0x0) eles deveriam ter voltado este coro também para o jogador Robinho, ele que sequer jogou para o clube, foi egoísta, fominha, e foi responsável pelo menos por um gol não feito pelo Brasil. Adriano que o diga. Mas torcedor geralmente apenas xinga treinador.

Gente, como chamar de BURRO um técnico que em 30 jogos no comando da seleção venceu 19, empatou 7 e perdeu apenas 4, hein?! Não gostam dele? O acham antipático? Bolas, não vamos confundir as coisas. Não esqueçam que entre as vitórias que conseguiu duas foram contra a Argentina( 3x0 e 3x0), além de que vencemos uma Copa América que historicamente perdemos. Procurem lembrar.

Mas creiam que talvez até possa ser bom para o nosso Dunga ser chamado de burro agora. Explico: quando preparava a seleção para o mundial, o, hoje grande Scolari, teve também dificuldades durante a fase das eliminatórias. Por suas preferências não coincidirem com a de alguns torcedores e jornalistas igualmente foi chamado de... BURRO. É, chamaram o Scolari de BURRO. Esqueceram?

Todos sabem que posteriormente chegamos ao pentacampeonato com ele como técnico. Aí, claro, ele deve ter deixado de ser burro. Passou a ser um técnico eficiente, vencedor, até formando a carinhosa...”família Scolari”. Recordam?

Bem antes dele houve outro técnico que foi muito mais xingado, massacrado, chamado de tudo que não presta, porque corremos, na época, um sério risco de não nos classificarmos para a Copa do Mundo dos EUA. Refiro-me ao Parreira. Ele também ouviu diversas vezes o mesmo coro: BURRO – BURRO – BURRO.

Nas eliminatórias quem salvou nossa classificação foi o baixinho competente, o Romário, naquele jogo contra a Bolívia, lá, nas alturas, há quase 4.000 metros do nível do mar. Não se lembram? E assim fomos à Copa realizada nos EUA.

Parreira teve que agüentar mais alguns coros de BURRO, antes de viajar, porém, na hora do pra valer, numa Copa em que os times estavam muito nivelados em técnica e tática, chegamos à final com os italianos, mais uma vez. E nosso time, sob o comando de Parreira (o “burro” para alguns que fazem sempre muito barulho), conseguiu um feito inédito: decidiu o título nos penalties. Esqueceram?

Pois o “burro” do técnico Parreira nos levou ao tetra campeonato. Começo a crer que esta de ser chamado de BURRO pode até dar sorte, acreditem. É verdade.

Outro lembrete para os de fraca memória e para aqueles que nem eram nascidos. Seleção de 70, a tri campeã tão decantada que fez realmente uma bela Copa. Sabiam que antes de sair do Brasil também foi vaiada? Houve até alguém, que sempre respeitei muito, que afirmou: “Pelé está muito ruim da vista”. Outros criticavam alguns escalados que haviam estado nas Copas de 58 e 62, especialmente nesta, pois estariam já meio velhos...

A antiga CDB achou de marcar um jogo treino, antes da viagem, justo contra um time dos pequenos do Rio, creio que contra o São Cristóvão. Pois bem, a seleção que depois foi ao México e ganhou o tri, claro que não se empenhou e perdeu o jogo treino. Quando do embarque, tome vaias e mais vaias. Hoje é fácil dizer que aquela seleção só tinha craques. Ah esses torcedores que não aprendem nunca, entre eles os “Maria vão com os outros”.

Pois olhem, houve um técnico, comprovadamente competente, o saudoso Telê, ex jogador, que conseguiu formar uma seleção cheia de craques (Zico, Falcão e muitos outros) e mostrar ao mundo, em duas Copas, o melhor futebol de ambas. O reconhecimento foi geral, inclusive da imprensa internacional. Nunca foi vaiado.

Tínhamos realmente exibido um futebol vistoso, cheio de arte e competência, que mereceu ao menos ganhar uma das duas Copas, mas... infelizmente isto não aconteceu. Numa delas fomos eliminados ainda nas quartas-de-final justo pelos italianos, e de virada. Ganhávamos por 2x0 e perdemos por 3x2.

Posso dizer que os resultados foram injustos para com Telê, um homem sério, trabalhador, altamente competente, desde que era jogador. Todavia será que isto é tudo?? Sorte e azar existem ou não?? Será que não vale apenas o talento, a competência, o profissionalismo? Então por que perdemos as duas copas?!

Gente, somos os únicos que participamos de todas as Copas do Mundo, e não vai ser diferente agora. Não me importa se nos classificarmos em quarto lugar. A Argentina costuma chegar em primeiro ou segundo nas eliminatórias, mas depois, nas Copas... Quantos títulos eles têm?? Pois é, só dois, e o que ganharam em casa só Deus sabe como o conseguiram. Mas vocês nem devem se lembrar, certo?

No mais, logo deveremos ter Kaká de volta, Ronaldinho Gaúcho também, só espero que jogando mais do que o faz atualmente. E não adianta chorar pois não temos mais os laterais Roberto Carlos e Cafu.

E vamos esperar que um dia alguém nos conte a verdadeira versão do que aconteceu em Paris, em 1998, que nos levou àquela exibição medíocre, dando de presente o título à França. Jamais acreditei na versão oficial. Esperarei a verdade.



(28 de junho/2008)
CooJornal no 587


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
www.franciscosimoes.com.br 

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