ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


INTERNAUTA ATRAPALHADO
 

 

Eu conheci o Zacarias, quem não o conheceu não sabe o que perdeu. O Zaca, para os íntimos, era o que se costumava chamar de um emérito paquerador. Para ele não havia mulher feia ou bonita, mulher nova ou velha…. só havia mulher.

Quando ele se empolgava com algum magnífico espécime do sexo feminino logo ligava as luzes da pista, assumia o comando da torre de controle, vasculhava o radar e acabava por conseguir um pouso sereno, e tranqüilo daquele “avião” nos seus braços.

O Zacarias tinha recurso para qualquer situação, eu nunca o vi sair de campo derrotado. Certa vez estava com ele quando surgiu uma morena escultural. Zaca entrou em transe e partiu para novo ataque. De onde eu estava só ouvia ela dizer: “Não… não… não”. Pensei: “Hoje o Zacarias vai perder a invencibilidade.” Ledo engano, soube depois que ela foi dizendo “não” até o apartamento dele.

No dia seguinte, no trabalho, ele chegou com visíveis olheiras e nossa curiosidade superou a discrição e o Zaca comentou: “Amigos que mulher, que mulher! Aquilo devia ser um tipo de cacoete.” Como não entendemos pedimos-lhe que explicasse melhor. – “É que mesmo no momento mais sublime, no auge do prazer, ela não parava de repetir… não…não…não…”

Ele era o tipo de homem que nunca deveria casar, mas casou quando tinha cerca de 40 anos. Sua mulher, Cacilda, tinha muito ciúme dele pois sabia do potencial e da insaciabilidade do marido, porém não queria dar uma mostra de fraqueza. No casamento o Zacarias lhe jurou ser fiel até que a morte…. aquelas coisas de sempre, mas afinal, para mulher, ele sempre prometia tudo, quanto mais casando.

O tempo foi passando, o mesmo tempo que além de costurar o amor que une duas vidas as faz acostumarem-se uma a outra num permanente cerzir na rotina diária onde alegrias e decepções são compartilhadas por ambas. Cacilda já se investira de uma suficiência e um desprendimento antes somente ostentados por Zacarias.

Arquitetando um plano para tentar afastá-lo de suas conquistas “além-lar”, ela sugeriu que ele comprasse um computador. Zaca a princípio não demonstrou maior interesse, todavia ao conversar com um amigo que tinha larga experiência na lide da informática, ele mudou completamente de opinião.

No dia seguinte lá estava o Zacarias com um computador a sua frente, mergulhado em folhetos explicativos, disquetes, cd-rom etc. Seu entusiasmo era tanto que Cacilda chegou a duvidar se teria mesmo sido uma boa idéia. Olhos fixos na telinha o Zaca clicava daqui, clicava dali, e resmungava baixinho: “Bolas, uma geringonça tão moderna dessas, cheia de links, ícones, sites e não tem mulher?!”

Aos poucos ele foi se familiarizando com aquilo tudo. Logo já entrava em certos chats de conversação. Foi num desses que resolveu deixar uma mensagem realçando seus atributos, seus anseios e uma certa, e mentirosa, abstinência sexual porque estaria passando.

Minutos depois recebeu um e-mail em caráter pessoal: “Zacarias, fofinho, que peninha de você. Olhe, eu posso ser o pão para quebrar o seu jejum, a água para aliviar sua sede. Escreve pra mim, vai.” Assinado estava: Roberto. O Zaca espumou de raiva, deu um pontapé na mesa que quase derrubou o computador ao chão. Era sua primeira decepção com a internet.

Conversou com outro amigo a propósito de suas intenções e de seu fracasso inicial para atingir os objetivos e este lhe sugeriu que escrevesse algumas poesias e as postasse em alguns sites, ou as oferecesse a alguém etc, etc. Bem, romântico o nosso moderno D. Juan era, mas poeta, não. Até lia alguns poemas para certas namoradas a fim de impressioná-las, mas daí a escrevê-los....

Certa noite porém o Zacarias estava inspirado e decidiu sapatear com seus dedos no teclado digitando um texto com toque de erotismo. Talvez escrevesse uma crônica, um artigo, algo que lhe rendesse finalmente algum “dividendo”, face ao investimento que fizera na compra do computador. Tão distraído estava que não percebeu a aproximação de Cacilda vestida com um baby-doll e transpirando segundas intenções.

O olhar dela foi direto para a telinha e sua ira saltou do coração para a boca e explodiu: “Ah, então é assim, sêo canalha, cafajeste, até na internet hein?!” E leu entre os dentes: “…Eu queria ser o amante ideal…” Zaca tentava apagar o texto mas na tela aparecia: “Quer salvar o ….” Ora, ele queria mesmo era salvar a sua pele. Mais batia nas teclas e menos o texto dava sinais de se sensibilizar com sua angústia e lá permanecia como que a rir da desgraça do nosso Zacarias.

A ira de Cacilda já saltara da boca para a mão direita e daí foi direta para o rosto do Zaca, onde chegou com grande impacto. Uma bofetada com carga explosiva concentrada por mais de 20 anos, idade da revolta que Cacilda encarcerava.

Iniciava-se ali um enorme período de real abstinência sexual para o Zacarias e de um silêncio sepulcral que se espalhava por todos os cômodos do apartamento. Cacilda não mais lhe dava o almoço, não mais lhe dava o jantar, não mais lhe dava…. bom, o jejum era mesmo absoluto.

Não mais agüentando a situação o Zaca decidiu vender o computador. Cacilda até afrouxou o seu autoritarismo porque gostou da idéia. Ele colocou anúncio no jornal: “Vende-se computador novinho, quase sem uso, tratar com o Zaca pelo telefone…”

No dia imediato o aparelho tocou e ele atendeu. Do outro lado da linha uma voz quente, melosa e sensual perguntou: “Ói, você é o Zaca? Olha, eu sou a Naninha e quero comprar o seu computador, viu querido?” O Zacarias sentiu aquele frio antigo subir-lhe pela espinha e obrigá-lo ao cacoete de cruzar as pernas.

Nisso Cacilda se aproximou: “Quem é ?” A pronta resposta mostrou que o Zaca não perdera a forma: “É um tal de sêo Geraldo. Ele tá querendo comprar a máquina. Deixa comigo.”

Naninha percebera a “cumplicidade” de Zacarias e atacou: “Ói queridinho, é sua mulher? Você é casado, é? Olha, eu sou divorciada. Aliás, Zaquinha, você podia trazer o computador aqui em casa para me facilitar? Ah, a Naninha também não entende nadinha dessa coisa. Será que você arrumava umas horinhas livres para me dar umas aulas aqui mesmo? Saberei lhe recompensar, Zaquinha.”

Zacarias pigarreou e respondeu: “Claro sêo Geraldo, eu levo aí para o senhor sim, e pode deixar que lhe ensino o que precisa saber, certo?” Ia começar tudo de novo. O nosso Zaca voltava à ativa.

(O Zacarias é um clone miscível de genes de vários amigos que conheci nesta longa estrada da vida, e do meu também, claro)



(março/2001)
 


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
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