19/07/2008
Ano 11 - Número 590

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


POVO DE SUCUPIRA

 

Desculpem, mas eu cansei, cansei demais de ver tanta injustiça, tanto desmando, tanta corrupção impune, tanto sorriso masturbado, inclusive no planalto, tanta promessa que sabiam jamais cumpririam, tanto candidato com ficha suja podendo ser eleito, tanta sem-vergonhice em debates em Câmaras, Assembléias, Senado e outras casas que abrigam políticos que jamais se preocuparam com a gente que os elegeu, ou com o país para o qual deveriam trabalhar.

Haja tanto descaramento em mais uma vez elaborarem um “trem da alegria” no Congresso abrindo dezenas de vagas, sem concurso, para pessoas com salários que a maioria dos trabalhadores brasileiros levaria muitos e muitos anos para conseguir juntar. Chega, gente, chega.

Eu realmente já cansei de tanta justiça preocupada em defender sempre os direitos legais de poderosos, ainda que perseguidos ou presos por tantos desvios de dinheiro público, de tantas jogadas ilegítimas no mercado financeiro, de tanto enriquecimento ilícito, contrário à moral e ao direito, de ver tanto rabo preso e favores mil a serem compensados com atitudes esdrúxulas como se certas autoridades estivessem a participar de um “clube de amigos” ao quais doam tudo.

Não cheguei aos 71 pensando em ver tanta podridão, tanto desrespeito ao cidadão comum, tantas vidas inocentes a serem tiradas ora pela sanha cruel, perversa, insensível, de bandidos, traficantes e também pais, mães e/ou madrastas que atiram seus filhos em latas de lixo, ou pelas janelas, ou sobre carros no trânsito, mas que acabam tendo a seu lado sempre algum psicólogo, algum advogado, ora a provar sua “sanidade mental”, ora a provar sua “inocência”.

E se não são aqueles a lhes tirar a vida acabam sendo atingidos por balas perdidas, ou pior, pelo que alguns insistem em chamar de “policiais mal preparados” que primeiro atiram para depois perguntar de quem se trata. Sei que estes podem até ainda ser considerados como exceções, mas essas estão a se repetir num ritmo insano que o meu medo maior é que se aproximem do que consideramos ser uma regra. Eu não gostaria de ter que dar razão ao nosso mestre Chico Buarque de Holanda quando em certo tempo compôs a música e escreveu a letra que nos conclama... “Chame o ladrão... chame o ladrão”... não, eu não gostaria.

Sim, eu já cansei, povo de Sucupira, de ouvir, através da tranqüilidade, da postura reta, da calma de um Secretário de INSEGURANÇA, pedidos de desculpas que não devolvem a vida de inocentes, sejam adultos, sejam crianças. Não, eu não consigo entender o coração de uma autoridade dessas, ou mesmo de um Governador, que devem ter suas famílias, claro, quando nada mais têm a fazer que... pedir desculpas pelo assassinato “involuntário” de um menino de apenas 3 anos. Ora vão criar vergonha e tratem de nos oferecer o que até o momento não têm feito, uma verdadeira, uma autêntica SEGURANÇA. Pagamos muito caro para ter o que os senhores só se lembram quando ocorre uma tragédia.

Mas não precisam se preocupar, pois para esses senhores a segurança anda sempre ao seu lado, pra onde forem, em forma de pessoas bem armadas, bem articuladas, fisicamente bem formadas. Não têm como se preocupar com aquilo que o nosso povo anda a temer diariamente em cada rua, em cada esquina e até dentro de casa.

Devem rir quando parte da nossa gente se reúne em manifestações de protesto, promovem caminhadas pela paz, contra a violência, etc e tal. Ora, isso nem lhes toca de perto. Não mesmo. Suas famílias devem estar sempre bem protegidas.

Confesso que cheguei ao meu limite de tolerância, de esperança, e se esta é a última que morre, acreditem, a minha acaba de entrar na UTI. Por isso, meus amigos e amigas, “Povo de Sucupira”, lembrem que o meu tempo de lutar já passou. Por favor, não me peçam para participar de nenhum abaixo assinado pedindo, ou quase implorando, o que de direito deveriam estar nos dando há muito tempo.

Não me convidem para passeatas pela paz, pela segurança, contra a violência. Não, por favor, não me convidem. Tenham certeza de que até hoje, com todas essas manifestações, não foi o povo quem ganhou com elas. Não foi mesmo. Muito menos me enviem manifestos pra serem endereçados a congressistas, etc e tal. Ora, vocês acham que eles se tocam, que estão preocupados com o que quer ou o que pensa o povo? Se estivessem não abrigariam tanta bandalheira, não reativariam o tal “Trem da Alegria” desde ontem tão divulgado pela mídia em geral.

Como diria aquele personagem do Chico Anísio... “Eles querem é que o povo se exploda”... Então, “Povo de Sucupira”, eu prefiro a falta de vergonha, o descaramento, a safadeza, a imoralidade, a prática de maus costumes, a safadice, a perversão, a promoção do suborno, o escárnio da corrupção, o semi-analfabetismo, personificados no personagem de ficção vivido pelo brilhante e saudoso Paulo Gracindo, o tão aplaudido, na história, Prefeito de Sucupira.

Por quê? Ora, como crítica, claro, porque foi o retrato mais fiel, a descrição mais perfeita, as fortes denúncias em forma de bom humor, colocadas numa obra de ficção que tanto se identifica, cada dia mais, com a realidade que vivemos neste país que só é das maravilhas para aqueles que podem gastar milhares e milhares de reais para pagar advogados e dar entrada em pedidos de hábeas corpus, algumas vezes até atropelando instâncias para ir direto ao tribunal maior, à alçada mais forte e definitiva. Vale até profetizar resultados.

Com 71 anos não sou mais obrigado a votar. Já o fiz, mas agora não pretendo mais repetir o gesto. E não me venham com a lenga lenga de cidadania, etc e tal. Conheço isso muito bem. Cumpri com o meu dever por décadas, procurei sempre acertar, como tantos brasileiros o devem ter feito, mas, e daí??!!

Passei por uma ditadura, conheci de perto a censura, o medo de colegas dedos duros que conviviam ao nosso lado no dia a dia e depois poderiam nos entregar aos “agentes da lei” que mantinham uma rotina de apuração e denúncias no próprio ambiente de trabalho, tendo a seu dispor uma sala especial para a inquirição. Não venham me falar em cidadania, por favor, me poupem.

E foi pra isso que tantos lutaram, foram presos e torturados, outros muitos perderam a vida, na tentativa de derrubar o regime de exceção que vivíamos? E temos que ver gente que esteve ao nosso lado, na época, investindo-se agora de poder e o usando contra o seu povo? Que raio de Democracia é esta?? Que raio de democratas são esses?? Democracia não é só liberdade de imprensa, não é só ter liberdade de expressão. Mas eu pergunto, e isto tudo existe mesmo atualmente??

Pois é, estou realmente cansado, decepcionado, entristecido, desiludido, desapontado, injuriado, me sentindo traído, estuprado, enxovalhado. Mais acabrunhado ainda por ver que este país, hoje, está muito menos para país do futuro e muito, mas muito mais mesmo, para “Sucupira”.



(19 de julho/2008)
CooJornal no 590


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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