26/07/2008
Ano 11 - Número 591

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


CIDADANIA POR OBRIGAÇÃO

 

Sei que vou desagradar a alguns mas com certeza não a todos que me lerão. Respeito a opinião de cada qual. O Brasil é um dos raros países deste planeta que ainda tem uma lei que não estimula o exercício da cidadania pelo voto, mas obriga todos a votar. Desculpem, não acredito no exercício da cidadania por obrigação.

Durante a minha vida eu sempre disse que jamais abri mão, não da obrigação, mas do meu sagrado direito do voto. Quem me lê habitualmente e me conhece de há muito sabe que estou a dizer a verdade. Hoje estou às vésperas de completar 72 anos de idade. Na eleição anterior, mesmo estando já dispensado eu votei.

Muitos leram minha crônica POVO DE SUCUPIRA, na qual já quase ao final eu escrevi: “Com 71 anos não sou mais obrigado a votar. Já o fiz, mas agora não pretendo mais repetir o gesto. E não me venham com a lenga lenga de cidadania, etc e tal. Conheço isso muito bem. Cumpri com o meu dever por décadas, procurei sempre acertar, como tantos brasileiros o devem ter feito, mas, e daí??!!” – Leram e depois comentaram, como muitos costumam fazer felizmente.

Se houve apoios significativos, e botem significativos nisso, até de escritores e poetas amigos, também não escapei da crítica de poucos, igualmente amigos e de muitas décadas. Pessoas que respeito e admiro, às quais dou razão no defender seus pontos-de-vista porém pedi que respeitem também meus argumentos para a tomada de decisão que declarei, sem medo de ser feliz.

Vejam que no correr do meu texto POVO DE SUCUPIRA fiz análises e críticas bem severas a toda esta realidade que aí está, não apenas no mundo político, mas em nossa sociedade em geral que parece não se dar conta das bandalheiras que se antes eram forçadas de baixo para cima, agora, sem nenhuma cerimônia, se exibem de cima para baixo. E vindas dos mais altos escalões de segmentos que deveriam sim defender a honra, a ética, a justiça, a dignidade, a honestidade, porem preferem enveredar pelos tortuosos caminhos da desonra. Até Juízes.

Fui ácido, fui sério, toquei em pontos bem nevrálgicos do que vem acontecendo, mas alguns só devem ter prestado atenção quando eu declarei a minha decepção com as futuras eleições, afirmando o que afirmei. Um direito que me assiste usando a liberdade de expressão que ainda vigora neste país. Não preguei coisa alguma, e antes, pelo contrário, quantas vezes estimulei o voto, quantas vezes.

Devem ter-se esquecido das minhas posições anteriores. No mais, amigos e amigas, considerando as próximas eleições para Prefeito nesta cidade do Rio de Janeiro eu pergunto a cada um de vocês: têm algum candidato digno da vossa confiança, certo de que deverá fazer um bom governo que esta cidade não vê faz tempo?

Não vale sair de lado afirmando “quem sabe”, “talvez este o faça”, “pode ser que aquele ou aquela”... por favor, sem evasivas, sem vacilos, quero ver assumir pra valer, me afirmar que vai votar neste ou naquele conscientemente e certo de que confiará nele ou nela para fazer um governo como se espera faz tempo mesmo.

Digo-lhes que até teria uma candidata, teria sim, ela tem se mostrado, há anos, uma parlamentar atuante, equilibrada, nunca participou de mutretas tantas acontecidas no Congresso, estando portanto acima de qualquer suspeita. Pelo menos a vejo assim. Mas já se candidatou aqui e por preconceito ou por divergências políticas da visão de cada eleitor, jamais foi eleita para prefeito ou governadora. Mais, certamente não o será outra vez.

Ocorre que votar nela também não me dá a tal garantia de fazer um trabalho como nossa cidade necessita, repito, há muito tempo. Por quê? Ora, ela teria minoria na Assembléia e aí... bom, e aí teria que fazer alianças tantas para governar e é quando o certo começa a virar duvidoso. Tem sido sempre assim.

Olho para as últimas eleições municipais daqui e o que vejo? O Sr. César Maia que antes já não fora um bom prefeito acabou se elegendo. Não votei nele jamais. No correr de seu mandato andou a maquiar bairros importantes aqui da zona sul da cidade, como Leblon, a minha Ipanema e Copacabana, além de outras medidas demagógicas pelo município afora. Resultado: se reelegeu fácil. E o que fez de útil para nossa cidade no segundo mandato? Respondam se puderem, por favor.

Em verdade, amigos, nosso povo gosta, não gosta? É, mas eu não gostei e não votei nele, como já disse. Vocês acham que agora vai ser diferente? Amigos e amigas, na Europa assim como nos EUA a não obrigação de votar dá ao povo a oportunidade, quando estão indignados com determinada situação, de se manifestarem contra pela abstenção. E isso é cidadania, isso é democracia. Abstenção de 60 e 70%.

Pois é, mas aqui, no país das maravilhas, falar em abstenção parece algo grave e contra a legislação em vigor. Quanta hipocrisia, amigos, quanta hipocrisia. Alguns chegam a afirmar com um ar doutoral que a mim não mais convence: “Amigo, sendo você uma pessoa bem informada, letrada, séria, culta (etc e tal) é importante que não deixe de votar. Vote, por favor, precisamos de gente assim ao votar.”

Muito obrigado, mas e se o cidadão com todas estas qualidades não vê, no quadro de candidatos, nenhum que reúna condições para o governo que a cidade merece e precisa? De que adianta uma multidão de cidadãos politizados, bem informados, cultos, etc, se os políticos são os mesmos, não inspiram nenhuma confiança, desrespeitam até a lei eleitoral fazendo todo tipo de demagogia em determinadas comunidades que, agradecidas, acabam lhe dando o seu voto? E impunemente.

O resto, gente boa e cheia de fé, é pura conversa fiada. Nem para o plano presidencial antevejo algum nome, ate o momento, em quem pudesse votar e ter certeza de que iria realmente mudar o quadro atual. Parece que o tal “rabo preso” está virando uma Instituição Nacional. Ganhe quem ganhar acaba fazendo acordos e conchavos tantos que anulam as promessas de campanha. Ou tem sido diferente?

Vamos aguardar as próximas eleições, mas acreditem, não são cidadãos cultos, politizados, que realmente elegem neste país, nem nesta cidade. Estes são muito poucos diante da grande massa que exerce democraticamente o seu direito ao voto. Já esses elegem, até porque continuam a ser obrigados a votar... E é só.



(26 de julho/2008)
CooJornal no 591


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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