08/08/2008
Ano 11 - Número 593

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


O MONÓLOGO QUE VIROU “DIÁLOGO”
(ou um louco que quis entender a realidade)

 

E aí, cara, é verdade que soltaram todo mundo? -- Só tu não sabias disso, pô. -- Mas porque fizeram isso? -- Vê se te mancas, panaca, era a turma do poder econômico, eles têm mais megatons que qualquer bomba atômica. -- Bomba atômica? Caracas, eles também são terroristas? -- Oh, imbecil, não é isso, eles têm muita mufunfa, entendeste agora, mufunfa. -- Mufunfa??? E isso explode?

Ah meu sacrossanto saco, não explode mas mantém os rabos presos a eles, sacaste? -- Sacar como, oh cara, eu estou no vermelho, dentro do cheque especial. -- Putz, vê se mergulhas nessa, os caras são da pesada sociedade anônima do mais alto grau do colarinho branco. -- Xiii, colarinho branco deve sujar muito, né, e tem que lavar sempre. -- E tu achas que eles estão preocupados com sujeira, meu? Isso é até o que eles produzem. E sobre lavar, bom, aí sim, eles lavam e lavam muito sim, mas não é o colarinho não, oh pateta das arábias.

Ah, eles são donos de lavanderias, é isso? -- Só eu mesmo pra te agüentar, sua anta antológica, eles não usam água para lavar, usam dinheiro, dinheiro, sabes o que é isso? -- Saber eu sei, mas faz tempo que não vejo um. -- Olha, eles também compram, e compram muito. -- São consumidores compulsivos, é isso, amigo? -- Consumidor compulsivo é a roleta, da parafuseta, seu asno. Eles compram consciências, muitas, geralmente com grande poder de decisão, percebes? Não é maçonaria, mas algo parecido, do tipo máfia, mafiosos tupiniquins.

Ah, então se tem máfia deve ter Poderoso Chefão, tem um? -- Tem, mas como por aqui tudo é “maior do mundo”, não há um só, mas vários Poderosos Chefões, assim como há muitos “rabos presos” também, anexados aos interesses comuns. Entendes isso? -- Taí, não... como pode haver vários poderosos Chefões a mandar, cara? Não existe um conflito de mando? -- Há,há,há,há... conflito de mando, nesta terra em que todo mundo manda, menos o povão??!! És mesmo um parvo. Eles botam a mão grande nisto e naquilo, guardam boa parte por aqui, mandam outra boa parte lá pra fora, e com muitas e muitas verdinhas fazem cordões e controlam, qual bonecos de marionetes, vários escalões da sociedade no poder, seu bobão.

Espera, políticos também? Governos também? Justiças também? -- Hahahaha... é claro seu otário. Essa raça é pior que cupim, só que este destrói e se auto destrói também, mas eles não, e se apesar de todo o controle que exercem sobre aquelas esferas que citaste algo tende a dar errado, pulam para um país vizinho, tomam um avião e... pimba, se mandam para a Europa ou outro continente qualquer.

E por que nenhum juiz os manda prender preventivamente? Não seria uma forma de evitar que o escroque se evadisse? -- Santa paciência, tu não lês jornais, não ouves rádio, nem vês TV, caro jumento emancipado? Claro que algum juiz manda prender sim, mas logo tem outro com poder maior que manda soltar. E fica nesse prende e solta, prende e solta, que aí a lei e o direito vão pros quintos dos infernos. Prevalece a força, que deveria ser a do direito, mas é o direito da força da caneta que acaba mandando mais. E ainda explicam e justificam tudo publicamente.

E a gente como fica nessa, meu amigo? – Queres dizer a gente? Nós, povo? Ora, ora, com a mesma cara de palhaço que sempre ficou o nosso povo que acredita, vota, depois é roubado e torna a votar, e torna a ser roubado, mas vota sempre porque é obrigado a isso. Mas agora tem um agravante a mais. -- Agravante? Que é isso? -- Tu também não sabes de nada, hein panaca mor? Agora a turma pode votar, declaradamente, em político com ficha suja. E parte da justiça defendeu com unhas e dentes esta decisão. -- E a moral, a ética, etc, onde vão parar? -- Já pararam, já pararam faz tempo. Mas o cara do Planalto continua não sabendo de nada, não vendo nada, assim como tu, filhote desmamado de actinopterígios.

É verdade que até juiz do Supremo reclamou de porem algemas nos indiciados, presos pela Polícia Federal? É verdade? -- E bota juiz nisso, oh chupetinha, teve deputado, senador, Ministro, e alguns juízes, sim, que chamaram aquilo de “espetacularização”. -- Ah, então não vão mais algemar a senhora que roubar algo na feira, ou no mercado, por pura necessidade, não? -- Hahahaha... oh pata choca, a senhora ou o garoto que cometerem pequenos furtos, insignificantes, esses não representam “espetacularização”, logo... algema neles, sempre. Tu achas, oh sacripanta do agreste, que juiz está preocupado com o povo? Com a situação social de nossa gente? Eles devem usar película bem escura nos seus belos carros com motorista particular para serem poupados do miserê reinante em nossas ruas, pô.

E as eleições que vêm por aí? Tens candidato ou candidata? – Tás brincando, xereta. Cansei de discursos, cansei de horário eleitoral gratuito, cansei de promessas, cansei de comícios, cansei de olhar pra cara deles parece que sempre a gozar com a nossa, enfim, cansei de votar, borrachudo. – Mas não somos obrigados a votar? – Cacetada, seu chato, és obrigado a comparecer à seção eleitoral, votar sem quereres só se alguém puser uma arma na tua cabeça e te obrigar, pó. – Pois ouvi no rádio que estão temendo isso mesmo em certas comunidades. O que achas disso? – Olha, o último que achou acharam ele com a boca cheia de formiga e os fundilhos cheios de... ah, deixa pra lá, vê se não me torras a paciência. E eu já passei dos setenta, seu verme retardado. Me poupa, pó.

(Um longo silêncio se fez... de repente “ele” esbravejou) “Quer saber de uma coisa, quebra a droga deste espelho que eu não agüento mais este monólogo disfarçado de diálogo contigo mesmo todo dia, caraças. Vai...quebra.” – .....CRASSSHHHHH.....

Não tendo mais com quem “dialogar”, com quem “debater”, com quem “trocar idéias”, nosso tresloucado e desorientado personagem emudeceu, emergindo do seu desvairamento para um desvario absoluto, total e silencioso.

Só se ouvia, em rápidos momentos, ele repetir sempre a mesma coisa em voz baixa, trêmula, nervosa, quase como sussurros delirantes. Era um refrão de uma canção popular... “cidadão brasileiro”... “cidadão brasileiro”... “cidadão brasileiro”... “cidadão brasileiro”... “cidadão brasileiro”...

Os cacos de vidro espalhados ao redor do seu corpo ficaram banhados de lágrimas... a outra voz não mais lhe respondia. Não havia mais a outra voz.



(08 de agosto/2008)
CooJornal no 593


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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