22/08/2008
Ano 12 - Número 595

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


E O SAMBA PERDEU PARA O TANGO

Amigos e amigas, sempre tive posições bem claras tanto sobre a nossa seleção de futebol como quanto ao seu atual técnico, o Dunga. Opiniões minhas, sem me deixar influenciar pela onda “do contra” que habitualmente tenho criticado.

Perdemos para os Argentinos, todos sabem disso, e alguns reagem de forma emocional como se fosse o fim do mundo, alguns chamando nossos jogadores de “pernas de pau” e insistindo em classificar o técnico como “burro”. Mas torcedor brasileiro é sempre assim, e acho que jamais vai ser diferente. Não pensa, apenas vai no impulso da euforia ou da decepção. Neste caso, deu a segunda.

Outros me escreveram afirmando que os amistosos ocorridos antes das Olimpíadas foram com times medíocres e isso deve ter feito o Dunga “encher o peito” e julgar que éramos imbatíveis. Desculpem, não quero magoar ninguém, mas tenho direito a dar a minha opinião, até porque assumo sempre o que digo, o que escrevo.

Pergunto a esses e outros que tenham pensado a mesma coisa: “quando foi diferente, amigos?” Sabemos que sempre antes de um mundial ou de uma olimpíada a D. CBF arma esses amistosos, sabe-se lá com que interesses, e os técnicos só aceitam, até porque não podem discordar, se o fizerem perdem o cargo. Nunca foi diferente, amigos. Raciocinem, por favor, antes de afirmar tolices.

É sempre bom consultarmos nossa memória, e sei que vocês a têm, e não se negar a ouvi-la ou calá-la só para atingir o time e o técnico atual. O Dunga, com certeza não “encheu o peito” por alguns amistosos medíocres, claro que não, ele pode não ser perfeito (quem o é??), pode ser até meio antipático para alguns, mas bobo não.

Podemos criticá-lo por não fazer esta ou aquela substituição durante este ou aquele jogo, e isso aconteceu, até mesmo comigo, durante este jogo contra a Argentina, mas convenhamos que sempre o torcedor brasileiro apresenta este tipo de queixa contra qualquer que seja o treinador. Como dizem, cada torcedor brasileiro se considera um técnico e se não é atendido em suas exigências... “burro”...”burro”.

O torcedor tem razão algumas vezes, claro, mas começa a perdê-la quando abre a porta da razão e deixa entrar a emoção que distorce, via de regra, o seu raciocínio mais inteligente, mais justo. O pior é que a partir daquele momento ele se transforma e investe contra tudo e contra todos julgando-se o dono da verdade.

Não existe verdade absoluta, amigos, como creio não exista só uma solução para determinados problemas, mesmo em se tratando de futebol. Eu tenho minhas opiniões, cada um tem a sua, debatê-las em bom nível é o que de melhor se pode fazer para acender a luz do entendimento, o que não significa que algum de nós vá resolver todos os problemas da nossa seleção, ainda que acertemos em detalhes.

Técnicos de futebol há muitos, profissionais, outros milhões nas arquibancadas dos estádios pelo país afora. No Brasil costuma-se pedir este ou aquele técnico para este ou aquele time ou seleção. Quando o indicam, quando o exigem, lançam-lhe glórias, feitos mil, vitórias tantas. Ele é sempre indicado como o grande salvador.

Se ele acerta, tudo bem. Se o time começa a perder, todo aquele “currículo” que os torcedores (donos da verdade) usaram como argumento para o indicar como a solução dos problemas de repente se esvai. O treinador passa de bestial a besta às vezes em apenas dois ou três jogos. Não se aceita a continuidade de um trabalho aqui no Brasil. Só querem resultados positivos e imediatos. Nunca foi diferente.

Voltando à nossa seleção atual, amigos, desculpem mas vou ter que ser repetitivo. Este mesmo time brasileiro, com este mesmo técnico, o Dunga, faz pouco tempo teve vitórias retumbantes, especialmente sobre a mesma Argentina. Foram duas decisões em que muitos apostavam na nossa derrota e o Brasil venceu ambas pelo mesmo placar, 3x0. O mesmo time, o mesmo técnico. Copa do Brasil e Copa das Confederações. Mesmo assim os “do contra” ainda ficaram com um pé atrás.

Agora perdemos, mas não se ganha sempre. Feio foi não sabermos perder, e logo para os argentinos. E tem gente que ainda incentiva este tipo de agressão, essas ofensas nada esportivas, este proceder vergonhoso, quase humilhante. E o técnico é o culpado? Para alguns é, acreditem, o que começa a se traduzir em preconceito.

Nas Eliminatórias estamos em quinto lugar. É preocupante? Para alguns sim, para mim nem tanto. Já vi este filme antes e não apenas uma vez. Inclusive quando o Parreira, depois tetra campeão, era nosso técnico. Classificamo-nos quase no último jogo e contra a Bolívia. Romário nos salvou. A história, de certa forma, apenas se repete. Quem terminou em primeiro naquelas Eliminatórias e em outras? A Argentina. Foi sempre campeã do mundo? Não.

Já nos classificamos em segundo, terceiro, etc, e nas Copas provamos ser melhores, mas não imbatíveis, claro. Temos cinco títulos mundiais, alguns vices e outras colocações. Os argentinos, com todo o respeito que me merecem, venceram apenas duas vezes em Copas do Mundo. A realizada no país deles teve episódios vergonhosos. Só os desmemoriados ou que não gostam de futebol, não se lembram.

Alguns anos depois, jogadores da seleção peruana, já “aposentados”, tiveram alguma crise de remorso e resolveram abrir a boca e contar toda a verdade de público. Explicaram porque e como tomaram aquela goleada de 6x0 da Argentina, fazendo o Brasil voltar mais cedo pra casa. A decisão contra a Holanda foi um jogaço, mas também teve um certo “toque” de arbitragem.

Histórias há muitas sobre títulos ganhos com certa mancha. Por exemplo, quando a Inglaterra, venceu a Alemanha, em Londres, e foi campeã. Neste caso valeu até gol em que a bola sequer entrou. Assim como a Áustria, segundo dizem, entregou um certo jogo para ajudar a Alemanha a ser campeã em casa. Histórias do futebol. E nem vou falar da decisão da Copa da França, em 1998. Eu estava lá... Um dia alguém vai dizer a verdade. Jamais aceitei a versão oficial da CBF.

Com todo esse certo rastro de lama em alguns títulos mundiais, o Brasil é o único que participou de todas as Copas, e o único pentacampeão, sem ter vencido em casa. Talvez até “degolem” o Dunga agora, talvez. Quem o substituiria eu não sei, mas se recolocarem lá o “queridinho de alguns”, o Luxemburgo, depois não vão se queixar. Ele já esteve lá e não deu certo, não ganhou nada, por isso foi demitido.

Tempo há, de sobra, para nos classificarmos, sem qualquer preocupação de chegarmos em primeiro. Deixemos isso para “los hermanos” argentinos. Não acredito numa não classificação, não mesmo. Agora, se trocarem o técnico já, e houver muitas modificações no time, cuidado, se vocês acreditam em “milagres”, problema de vocês, eu não. Vamos aguardar.

E entendamos que perder da Argentina só dói mais nos que exageram nos seus sentimentos anti-platinos. Calma gente, ódio, rancor, repulsa, e afins, fazem mesmo muito mal à saúde. Por isso vou terminar com palavras que me enviou meu bom amigo Manuel dos Santos, de Cascais, Portugal, quando conversávamos justo sobre este sentimento. Disse ele:

“Falaste e disseste-o muito bem. Rivalidade, ok, sempre existiu entre Brasil e Argentina, em futebol e não só. Pode-se considerar isso normal - eu diria, até, saudável, porque, se cada procura superar o outro, acabam por ganhar ambos. Mas, rixa, não. Rixa de graça, só para "sacanear los hermanos", é má educação e ignorância.”



(22 de agosto/2008)
CooJornal no 595


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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