05/09/2008
Ano 12 - Número 597

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


QUANDO EDUCAÇÃO E RESPEITO PASSAM PARA O SEGUNDO PLANO
 

Pois é, amigos, as Olimpíadas terminaram e o nosso Brasil ficou em 23º lugar com um total de 15 medalhas, 3 de Ouro, 4 de Prata e 8 de Bronze. Sabiam que eram 87 nações, ao todo, a disputar aquele evento? Sabiam quantos países do primeiro mundo ficaram bem pior colocados que nós? Pelo menos 11 (onze).

Perceberam que ali na faixa das 3 medalhas de ouro, mas com um total de somente 10, estavam Noruega, Polônia, Hungria, acima de nós por terem apenas uma medalha de prata a mais, e o Canadá, que é uma nação olímpica, mas com três a mais no total somente? Alguns não devem ter reparado nesses “detalhes”.

Se a Grã-Bretanha surpreendeu com o terceiro lugar, Cuba decepcionou muito. Costumava se colocar entre os cinco primeiros, mas ficou num distante 28º lugar. Dos 18 países que ficaram rigorosamente à nossa frente no ranking, amigos, não dá nem para pensar em disputar em igualdade de condições com a esmagadora maioria deles. Então por que tantos manifestaram tanta decepção?

Ora, primeiro teremos que ser uma Nação Olímpica, mesmo, e estamos longe disso ainda. Sejamos honestos e deixemos de bancar os críticos que não querem ver. Isso é triste, amigos, isso sim é muito triste. Pessoas escrevem o que lhes vem à cabeça, querem assumir um papel de cronistas, e saem divulgando o que nem sequer conferem antes. Não apuram nada, não investigam nada, o objetivo é criticar.

Se mandam só para uns dois ou três amigos, reservadamente, tudo bem, problema deles, mas se espalham pela net, e outras pessoas ainda repassam dando força a esses pretensos críticos, eles acabam se sujeitando a comentários e a autêntica crítica, sim senhor. Mas eles nem ligam, tiveram o seu “minuto de fama”!! Triste fama, falando mal de pessoas que deveriam respeitar e venerar por tudo que conseguiram fazer, não obstante esperássemos melhores resultados.

Na tal lógica do “se”, percebam que se medalhas de ouro quase certas, como a do volley masculino, do futebol feminino, do hipismo (que já ganhamos antes), além do excelente Diego Hypólito na ginástica, acontecessem, mesmo sem ganhar mais nenhuma medalha, saltaríamos para, no mínimo, o 13º lugar, bem entre os cobras. E então? Ora parem de dizer tolices. Tenham mais compostura ao se meterem a criticar o que quer que seja.

Costuma-se dizer que o brasileiro “não tem memória”, mas de há muito eu já entendi que não é bem assim. Eu acredito hoje que certos brasileiros têm memória sim, mas também têm é preguiça de a consultar, ou preferem sufocá-la só para porem banca de entendidos, críticos de verdades incontestáveis, mas que eles vão ignorando, chutando pro lado e pro alto, e é quando a educação e o respeito passam para o segundo plano.

Entre várias mensagens que chegaram a me tirar do sério uma dizia literalmente isto... “E jamais me sairá da mente o olhar de estupor de Diego Hipólito caindo de bunda no chão no final de sua apresentação quando, por infelicidade e questão de dois segundos deixou de subir ao pódio.” – Até aqui ele ia bem, mas acrescentou:

“E de suas lágrimas, pedindo desculpas, quando ele não tem culpa de nada. Das lágrimas de outros atletas brasileiras dizendo que não deu, pedindo desculpas aos familiares e ao povo.”

No correr do texto o autor deixa claro que deplorou as lágrimas, os choros dos que não conseguiram alcançar o objetivo maior. Olhou para elas com um certo desdém. Ora, prezado, vou lhe responder com palavras de um amigo que vive em Cascais, Portugal, o Manuel dos Santos, após ler o que você escreveu e divulgou:

“O que é que o autor queria, amigo? Que os atletas derrotados, lutando muito pela vitória, em vez de pedirem humildemente desculpas, posassem com arrogância? Ou culpassem terceiros pelo insucesso? Vá plantar batatas! Que falta de sensibilidade!”--- Pois é, o respeito demonstra educação, faltando este o outro fica cego, insensível, injusto, cruel e infame. Não se esqueça disso, prezado.

E mais acrescentou meu amigo Manuel: “E tem mais um detalhe: as medalhas ganhas pelos brasileiros (e brasileiras, para não haver queixas) são de modalidades desportivas diversificadas. Isto é, o Brasil também é bom em outros desportos, além do futebol. Temos de estar orgulhosos por isso, ainda que por enquanto não tenhamos chegado ao pódio em muitos deles. Chegaremos lá, se houver humildade para aprender com as derrotas, por parte dos atletas e dirigentes, e também muito apoio dos torcedores” --- Entendeu bem, meu prezado?

Nossos rapazes do volley também choraram, mas como criticar isso? Nestes 7 anos sob o comando do Bernardinho eles já ganharam 6 títulos mundiais seguidos, enfrentando essas mesmas feras, Rússia, EUA, Cuba, Sérvia, Holanda, entre outros títulos Sul Americanos, e o Ouro Olímpico em Atenas, em 2004 e antes, em 1992, nas Olimpíadas de Barcelona.

O Diego Hypólito acabara de se sagrar campeão do mundo na sua modalidade preferida. Dera um show. Agora fez uma exibição a grande, magnífica, ganharia o ouro. Um detalhe, uma falta de sorte, roubou-lhe a oportunidade e o jogou para o quinto lugar. Incompetente? De forma alguma. Saibamos respeitar o desabafo de um atleta quase perfeito que falhou só no final. Falhou porque é humano, e chorou porque tem sentimentos nobres e vergonha na cara. Nem todos sabem o que é isso.

No futebol feminino eu diria o que falou o nosso Pelé sobre elas: “As meninas não perderam, elas ganharam a medalha de prata”. Parece que alguns esqueceram rápido a goleada acachapante (4x1) que elas impuseram às alemãs, um time até melhor do que o americano. E aqui nem se organiza campeonatos regionais e/ou nacionais, como nos EUA, na Noruega, no Canadá, na Alemanha, etc.

No futebol masculino foi duro perder para os argentinos por 3x0, foi sim, mas o pior foi uma certa falta de empenho do time. Agora, acusá-los de “ganharem milhões no exterior e não jogarem sério pelo Brasil”, como escreveu alguém, é pura ignorância da verdade. Naquele time olímpico só estavam lá, desses referidos, o Ronaldinho Gaúcho, o Diego, e talvez mais uns 2 ou 3, os demais jogam em times no Brasil. Você sabia?

Só vou lembrar, mais uma vez, que sob o comando do Dunga, o “burro” para muitos, nossa seleção recentemente venceu a mesma Argentina e por este mesmo placar, 3x0, duas vezes seguidas. Nelas ganhamos títulos internacionais como a Copa América e a das Confederações, esta disputada na Alemanha. Esqueceram?! Ah, sei, para alguns o Brasil tem que ganhar sempre e sempre. Tá bom.

E não subestimem o Quênia, a Jamaica ou a Etiópia, no atletismo, amigos, especialmente em provas de corridas curtas ou longas, maratonas e afins, eles são quase imbatíveis. Ganham Medalhas de Ouro com total justiça. Mereceram a bela classificação conseguida e a quebra de recordes.

Vou encerrar lamentando a descompostura dos que compõem o programa “Casseta & Planeta”. Não costumo assisti-los, só raramente, porque não gosto do tipo de “humor” (?1) que eles praticam. Na noite de 26/Agosto eles foram (mais uma vez) desrespeitosos, injustos, grosseiros, mal educados, fazendo questão de levar ao ridículo o sentimento de nossos atletas, transformando em ironia barata e de mau gosto as lágrimas de quem tem vergonha na cara, o que a outros falta.

Até quanto ao sumiço da vara da nossa atleta que foi seriamente prejudicada no salto em altura, uma falha imperdoável da organização das Olimpíadas, aqueles senhores preferiram se referir ao fato, não com uma crítica aos chineses, mas com uma insinuação impolida e sórdida como costumam fazer. Há quem os admire, tudo bem, por mim se saíssem do ar não deixariam uma lacuna, a valorizariam.

Por essas e por outras é que preferi o título acima: “Quando educação e respeito passam para o segundo plano”. Bom humor eu tenho, e muito, o que não tolero é ignorância, preconceito, injustiça, e certo tipo de “brincadeirinhas” que mais machucam do que divertem. Só isso.



(05 de setembro/2008)
CooJornal no 597


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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