12/09/2008
Ano 12 - Número 598

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 

O COLARINHO QUE NÃO COLA


 

Pois é, amigos e amigas, tenho concordado plenamente com a linha de raciocínio do jornalista Arnaldo Jabor em seus comentários na rádio CBN que ouço todos os dias pela manhã. Refiro-me a quando ele analisou, em vários textos, este assunto de grampos, hábeas corpus, e afins.

Botando indignação, denúncia e muito humor, com o talento que ele tem de sobra, Jabor vem tocando nas “feridas” que outros preferem tolerar ou passar uma pomada e lançando carapuças inominadas mas com endereços certíssimos.

Eu diria que elas até devem ser feitas “sob medida”. Claro que os prováveis “destinatários” das mesmas, ao ouvir os comentários devem dar de ombros, como soe acontecer quando estão do lado do poder, da força inatacável, ou quase.

Não quero ser panfletário, não, porém omisso igualmente não. Lembro que justamente por muitos serem acomodados, não quererem esquentar a cabeça, ou fazerem sempre questão de olhar nossa realidade (digo a tupiniquim) com indiferença, é que ocorre o que cantou Chico Buarque: “A gente vai levando”.

Parece que há uma espécie de “guerra de colarinhos” no ar, mas não é bem assim. Talvez haja mais é uma tentativa de preservação ou imposição de quem manda mais, de quem é mais forte. E, claro, “colarinhos sujos e pretos”, não levam nenhuma chance sequer de almejar um simples habeas corpus.  

Estes são justamente os colarinhos que “não colam”, sem trocadilhos, entenderam? Colarinhos brancos não só são mais bonitos, como mais asseados, mais evidentes, mais protegidos, mais poderosos, e “colam” sempre.

Segundo está no dicionário, o hábeas corpus, por exemplo, é, ou seria, uma ... “Garantia constitucional outorgada em favor de quem sofre ou está na iminência de sofrer coação ou violência na sua liberdade de locomoção por ilegalidade ou abuso de poder.”

Com todo o respeito à cabeça que assim o define eu diria que me soa parecido com aquele artigo da nossa Constituição que afirma que “somos todos iguais perante a lei.” Deveria ser assim, mas acreditar que isto é aplicável, ou aplicado regularmente a todos os casos, é mais ou menos como acreditar em Papai Noel.

Este, por sinal, está à margem desse debate, até porque o Papai Noel, se não estou enganado, tem colarinho vermelho. Ademais ele nunca vai precisar apelar para um habeas corpus já que ninguém ousaria impedi-lo em sua liberdade de locomoção e suas renas, coitadas, aprenderam a obedecer e nunca contestar.

Os meus colarinhos pessoais foram brancos durante a maior parte dos 30 anos que trabalhei no Banco do Brasil. Só que aqueles eram obrigatórios, além de disciplinados, funcionais, e mais obedeceram ordens do que estiveram em condição de as impor a alguém. Colarinho branco, dos meus, só sujavam pelo uso, só assim.

Voltando ao “affair” dos colarinhos, digo que há muitos (só não sei quantos) dos chamados “colarinhos sujos e pretos”, em cadeias que mais desumanizam do que recuperam, esperando julgamento ou mesmo até sem culpa seguramente formada.

Não raras vezes ocorre de, após algum tempo, aparecer o verdadeiro culpado de um delito, ou vários, e a polícia ter que soltar pessoas antes presas acusadas do que não haviam feito. Pergunto: e alguém se interessa pelas injustiças cometidas contra aquelas pessoas? E os anos perdidos de vidas que dificilmente voltam a retomar o seu curso anterior? E os STF e STJ por acaso tomam conhecimento desses fatos?

Não, eles estão num nível muito alto para olhar tão pra baixo, amigos. Se o fizerem devem sentir tonteiras. Afinal andam deixando correr solto, dentro da lei, claro, que determinado assassino, réu confesso, que matou a sangue frio uma jovem, condenado que foi a cerca de 15 anos, continue até agora em liberdade total e absoluta. Não acreditam? Pois apurem, ele continua livre, sim senhor.

Justificativa pelos cânones da justiça: estão aguardando, vejam só, o julgamento de todos os recursos jurídicos a que ele tem direito. Confirmo, aguardando em liberdade total e absoluta. Aliás, é direito mesmo, sem aspas, mas parece que só vale para colarinhos brancos. Já viram isto acontecer a algum “colarinho sujo e preto”? E somos todos iguais perante a lei, hein?! Ah Constituição Brasileira!!

Aí eu leio na imprensa, diversos jornais, no dia 05 do corrente, e ouço na rádio CBN, esta declaração que nos estarrece, ainda mais por vir de quem veio:         “Presidente do STF vê 'milícia' de juízes e delegados. Ele teme atuação de magistrados que agem como 'justiceiros'”.

Se eu acreditasse em fim do mundo diria que ele estava chegando, mas como não creio nisso devo admitir que colarinhos, especialmente brancos, não só estão atuantes em áreas que deveriam combater, como parece estarem a estabelecer o que alguns chamam de “guerra de posição”. Barbaridade.

Acreditar em quem, acreditar no quê? A verdade é que estamos ficando à mercê de níveis da sociedade que deveriam nos defender, aplicar a lei, mas parece que alguns se bandeiam facilmente para o lado oposto, aquele que deveria ser por eles combatido sempre e com firmeza.

 

(12 de setembro/2008)
CooJornal no 598


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
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