26/09/2008
Ano 12 - Número 600

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


E AÍ?

Temos aí uma crise anunciada há tanto tempo na economia americana que alcança e abala as economias de muitos países, inclusive do chamado primeiro mundo. Mas curiosamente alguns se calam, é, se calam, não lhes interessa talvez dizer mal de um país ou um governo que eles, quem sabe aplaudiam, não obstante todos os desacertos, desde o primeiro mandato, e se americanos fossem de certo nem se envergonhariam do governo eleito nem do seu povo, que por sinal o reelegeu.

Ainda há poucos dias eu li um artigo assinado pelo Sr. Mário Soares, por quem tenho muito respeito e admiração, ex Primeiro Ministro e ex Presidente de Portugal. A matéria me foi enviada pelo meu bom amigo Manuel dos Santos, de Lisboa. Logo ao começo está dito o seguinte:

“George Soros, numa entrevista dada ao Le Monde, no sábado passado, culpa os integristas do mercado (isto é, o sistema neoliberal, a ideologia "do laisser faire e da auto-regulação dos mercados"), responsáveis, pelas imensas perdas dos bancos, das seguradoras e das bolhas do imobiliário (sub-prime), que estão a conduzir à implosão do sistema. E então?”

“Perante a catástrofe iminente, aqueles mesmos que reclamavam, há poucos meses, menos Estado, mais privatizações, recorrem agora ao Estado, com total desfaçatez, isto é: ao dinheiro dos contribuintes. Privatizam-se os lucros e socializam-se os prejuízos - essa parece ser agora a regra - sem se importarem com os prejuízos dos accionistas e as consequências que daí vão resultar no aumento em flecha do desemprego e na quebra intolerável do nível de vida das pessoas menos favorecidas.”

“Como de costume, são os inocentes que mais sofrem. Porque os administradores e os gestores dos bancos e demais empresas - os responsáveis - saem a sorrir, com grandes indemnizações e chorudas reformas, com total impunidade…”

Mais adiante escreveu Mário Soares: “De qualquer forma, o sistema neoliberal entrou em ruptura. É preciso repensar o capitalismo, passando da fase especulativo-financeira dos paraísos fiscais, de uma "economia de casino", para um capitalismo ético, vincadamente social e respeitador do ambiente. É possível uma tal mudança? É. Mais: é inevitável. Mas, como escreveu o economista Joseph Stiglitz, prémio Nobel: "É preciso que os dirigentes políticos do Ocidente tenham a coragem de virar decisivamente à Esquerda" (El Pais, 7 de Setembro de 2008).”

Bom, vou parar por aqui com meus aplausos ao Sr. Mário Soares e quem desejar ler o artigo na íntegra é só me pedir que o tenho no meu arquivo. Economia à parte, voltemos ao primeiro mandato do Sr. Bush. Lembram quantas denúncias surgiram, escândalos diversos, envolvimentos vários com empresas suspeitas, corrupção, etc e tal? A própria imprensa americana tomava esta posição, até que... bom até que um dia começou aquela mal velada censura, como disseram alguns jornais de lá, e de repente tudo virou um falso “paraíso” para quem queria crer nele. Bush foi crescendo nas pesquisas e logo exibiu o seu lado mais atemorizante, o agressivo, o arrogante, o belicista, o falso democrata.

Com a derrubada das torres em Nova York vieram as ameaças a diversas nações, a desnecessária (hoje se sabe) guerra ao Iraque, a execução de Sadam Hussein, tudo porque ele insistia em afirmar, o que depois foi desmentido por técnicos americanos, que lá existiam “armas de destruição em massa”. Conversa fiada, o motivo maior, em verdade, estava embaixo do solo daquela região. E, apesar de tudo, ele foi reeleito pelo povo americano. Os  “politizados” americanos. Pois sim.

No começo o personagem central das severas críticas de Bush era Bin Laden. Eu jamais acreditei na sinceridade daquilo. A bravata de que iria prender a qualquer preço (o que dura até hoje) o referido e conhecido terrorista nunca me convenceu e eu o disse em alguns textos. Afinal havia uma conhecida e profunda relação de amizade familiar e de altos interesses comerciais, na área do petróleo, entre os Bush e os Bin Laden, de muitos anos. Desde o avô do americano com o pai do saudita, seu irmão e ele próprio, o “procurado” Bin.

Frei Beto relatou tudo detalhadamente em crônica de março/2002 intitulada “Laços de Família”. Está tudo ali. Mais detalhes no livro “A fortunate son: George W. Bush and the making of an American President,” de Steve Hatfield. O povo Americano foi informado sobre tudo aquilo, mas preferiu fazer ouvidos moucos. Para mim nenhuma surpresa, acreditem. Vamos agora pular do norte para o sul.

Quem me lê sabe o quanto tenho criticado o nosso governo no qual votei apenas para o primeiro mandato. Já disse isso em outros textos. Entretanto não tento me fazer de “cego”, ou “surdo”, ou mesmo “mudo”, como aliás o próprio Sr. Lula se expressava quando da grande crise de corrupção no começo do seu governo.

Assim sendo, e não fazendo defesa do que não acredito, mas sendo acima de tudo justo, leal, honesto, imparcial, sim, por que não, decidi terminar este texto com perguntas que vão pedir respostas. Sei que não as terei, tudo bem, não me importo.

Percebo de há muito que os mais ferozes críticos (eu disse “críticos”?!), para além das palavras chulas, de baixo calão, que usam para xingar nosso presidente, costumam defini-lo como... “arrogante, incapaz, incoerente, prevaricador e... sem ética”. Haja vista uma charge interessante que recebi esses dias, onde a palavra ÉTICA está escrita justo no espaço onde lhe falta o dedo na mão direita. Criativo?!

Aí me pergunto: será que o Sr. Bush, com tudo que aprontou e continua a aprontar, tanto nos EUA como pelo mundo afora, não se enquadra exatamente nos rótulos acima mencionados, porém endereçados ao Lula? Será por isso aquela forte empatia que parece existir entre os dois governantes? Engraçado, e parece que quase ninguém se dá conta disso, não é? Como dizia meu pai: “Assim como são as pessoas são as criaturas”... É verdade, amigos.

Será que alguns, tendo vergonha de ser brasileiros neste governo, teriam orgulho de ser americanos nessa era Bush?? Nem precisam me responder. Tudo bem.

(Quem quiser ler “Laços de Família”, de Frei Beto, aviso que tenho arquivado.)
 

 
(26 de setembro/2008)
CooJornal no 600


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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