07/11/2008
Ano 12 - Número 606

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


COMO SE FORJA UM MAU CARÁTER
 

Meus amigos, outro dia eu estava na sala de espera de uma médica com quem Marlene se consulta aqui em Cabo Frio. Sala confortável, ar condicionado suficiente para amenizar o calor lá de fora, mas sem excesso.

Aguardávamos ser chamados pela doutora Lourdes naquele ambiente calmo, silencioso, com três atendentes e várias pessoas, algumas para outro médico que atende no mesmo andar.

Posso dizer que estávamos num ambiente seleto... é, estávamos, até que chegou uma senhora com um garoto. Ele devia ter entre 10 e 12 anos. Branco, meio gorducho, calça no meio da canela, do tipo “sou e daí?” A mãe conversava baixo com uma das atendentes. Lena, ao meu lado, lia uma revista.

De repente o tal menino foi até à janela que estava devidamente fechada face ao funcionamento do ar refrigerado. Com os olhos acompanhei os passos, ou a intenção dele. Tentou abrir uma delas e não conseguiu. Cutuquei a Marlene.

Dirigiu-se à seguinte e aí obteve êxito: abriu a janela num visível gesto de má educação enquanto a senhora sua mãe nem se apercebia de nada ou fazia que não era com ela. Não pensem que ele só queria abrir a janela, não, sua falta de educação já planejara algo pior quando foi até lá.

Tinha na mão um copo de plástico e, ato contínuo, acreditem, o pequeno sacripanta o arremessou pela janela, e estávamos no terceiro andar, que corresponde ali, ao quinto, pois há dois andares de garagem. Olhei para Lena e perguntei: “Você viu isso?” Resposta dela: “Prefiro nem comentar.”

Uma outra senhora que estava ao nosso lado percebeu tudo, olhou-nos também com ares de quem reprovava aquilo, mas nada disse. Antes de continuar gostaria de apresentar-lhes a definição de “sacripanta” que está no dicionário Aurélio: “Diz-se de pessoa desprezível, capaz de quaisquer violências e indignidades.”

Não pensem que eu exagero ao rotular aquele projeto de mau caráter com aquela palavra. Afinal dizia minha avó (como a sua certamente também o disse) é desde pequenino que se torce o pepino.

A mãe do garoto percebeu que o filho ainda por cima deixara a janela aberta, então foi até lá e a fechou, mas fez apenas isso, fechou a janela. Nenhuma palavra dirigida ao garoto nem alguma desculpa aos que ali estavam como nós. Vejam que ao lado do bebedouro há uma grande cesta para copos usados.

Mas, é com atitudes, ou falta de, como a daquela mãe, que se vão forjando os indivíduos que no futuro se mostram violentos ao volante, agressivos na mais simples discussão de trânsito, que avançarão sinais vermelhos e dirigirão na contra-mão, pois regras e leis não foram feitas para ele.

Acreditem, crianças desacostumadas de ouvir um sonoro NÃO (psicólogos à parte) ou que nunca foram contrariadas em suas intenções, mesmo que desrespeitosas a alguém, são as que acabam agredindo professores em sala de aula ou na rua, que amanhã batem até nos próprios pais e nos colegas, pois jamais lhe puseram freios em suas atitudes.

Quando o dicionário define a pessoa sacripanta como... “capaz de quaisquer violência ou indignidades”, fico imaginando aquele garoto crescendo, se alimentando provavelmente de muitos preconceitos, agredindo semelhantes pela cor da pele ou pela preferência sexual, isto quando não os mate. Acontece todos os dias atualmente aqui e alhures, é só querer ver e saber.

Se já tiver namorada, ela que se cuide, pois pode ser uma das suas próximas vítimas, afinal os exemplos estão aí a se proliferar quase diariamente. Sorte terá a mãe se o mal educado, forjado em casa para não agir respeitando as leis e os seus semelhantes, não cair também nas garras das drogas e carregar para dentro de casa toda a agressividade que ele já esteja praticando na rua.

Como diz a letra daquela antiga canção... “o capeta em forma de guri”... segue um rumo que pode nem nos dar muita esperança de mudança mesmo vindo a ter uma formação universitária, ou “ser alguém”. Na nossa sociedade atual há profissionais liberais, alguns de muito prestígio, não só a praticar crimes já “corriqueiros”, como o da corrupção, mas também outros classificados como hediondos.

Até aí parece que vivemos uma era em que a ordem das coisas, atreladas ao bom senso e à justiça, estão a se inverter completamente. A sociedade esbraveja cada dia com menos vigor, como estivesse a se dar por vencida. Afinal eles são resguardados, ainda que criminosos, pela tal “prisão especial”, quando chegam a ser presos, ou pela salvaguarda absurda do “criminoso primário”!! Talvez a lei considere, sei lá, que o primeiro crime compensa, daí...

Desculpem, podem discordar de mim à vontade, mas por favor, não me decepcionem mais ainda apoiando o que condeno acima. Nosso mundo atual começa a desmoronar justo naquele copo atirado pela janela por um garoto mal educado, e por tantos outros copos, latas e garrafas jogados pelas janelas de automóveis em nossas estradas. Só não vê quem não quer.

De repente me ocorre que hoje ele atira um copo, porém quem sabe no futuro atire o próprio filho! Sem problemas, se não teve mãe ou pai para lhe dizer NÃO um dia, com certeza agora terá dois ou três competentes advogados a tentar provar sua improvável inocência. E de repente até o conseguem.

Pois é, amigos, apresentei-lhes através de um aparente “fato comum”, verdadeiro, testemunhado por mim e outras pessoas, uma provável receita de como se forja um mau caráter. Se você é pai e se orgulha do seu filho, confio que esteja a par de todas as suas preferências e procedimentos, dentro e fora de casa. Ajude então a mudar este quadro triste e assustador que está aí. Confio em você.
 

 
(07 de novembro/2008)
CooJornal no 606


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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