14/11/2008
Ano 12 - Número 607

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


AMAR É PRECISO
 

Ele se chegou a mim meio ressabiado. Vinha de um debate com outro amigo quando os dois divergiram sobre amar e ser amado. Em questão esteve, assim me pareceu, que amor só se tem um em toda a vida... ou não?!

O amigo dele defendia ardorosamente a tese de que o normal é as pessoas terem apenas um amor que conservam pela vida afora, o grande amor que ultrapassa a morte. Todavia ele discordava e argumentava que isso varia muito e nem as pessoas são todas iguais nem o amor é o mesmo para todas.

Já comecei a ficar simpático à tese do meu amigo quando ele repudiou a posição do outro que tratava o assunto amor tal como uma espécie de dogma, ou algo parecido, do qual não se deve discordar. Pior, achava o outro que quem diz ter amado diversas vezes em seu viver é um mentiroso.

Eu me enchi ainda mais de razão e me pus ao lado da “tese”, digamos assim, defendida pelo bom amigo. Claro que nessa posição influenciou completamente o meu exemplo de vida em relação ao assunto. Mas preferi escutá-lo.

“Amigo, posso afirmar que amei ainda desde muito jovem. Nem todos considerarão aquele estágio de vida uma condição ideal para discernir o que seja amor, mas eu, e mais ninguém, posso e devo dizer que amei muito, muito mesmo, e até sofri com o rompimento da minha primeira namorada. Tinha eu uns 12 anos.”

“Essa gente tem mania de tanto ser dono de verdades como querer nos fazer crer naquilo que acreditam de uma forma bastante impositiva. Eu não me conformo com isso. Hoje, após tantas décadas de existência, tenho realmente amigos que se dedicaram apenas a uma mulher, a um único amor.”

Enquanto ele fez uma pausa para tomar um gole de água convoquei os meus botões e rápido passei em revista meu passado e meu presente reconhecendo que também tenho amigos que se enquadram no perfil por ele traçado. Têm e/ou tiveram um único e verdadeiro amor na vida. Mas concordo com ele que não se pode é transformar situações pessoais, individuais, em regra geral. Absolutamente.

Deixei que ele continuasse sua narrativa/retrospectiva de vida: “Eu te garanto, amigo, com a convicção de quem conhece bem o âmago do seu coração, que amei algumas vezes, sim, amei mesmo. É claro que também tive apenas namoricos, relacionamentos de bem-querença que podiam durar uma semana ou mesmo até alguns meses, porém jamais os classificaria como amor, isso não.”

“Até posso usar nomes, afinal elas ficaram na bruma de um tempo que nem a memória da vida as identificaria hoje. Foi o caso de Glorinha, morava do outro lado da rua da casa dos meus pais no começo da minha mocidade. Gostei dela, namoramos algum tempo, mas depois acabou. O mesmo ocorreu com Madalena.”

“Esta era na verdade mais um sonho do que uma realidade. Alguns familiares gostariam de me ver namorando com ela e eu fui embarcando naquela sensação enganosa visto que a moça era apenas muito simpática e educada comigo, nada mais. Sua irmã, Conceição, essa sim parecia sentir atração por este garoto, maroto, ali pelos meus 13 anos. Hoje tenho certeza que por ela senti apenas desejo, muito desejo, jamais amor.”

“Ana, bem mais velha que eu, quantas lembranças gostosas guardei dos nossos relacionamentos, geralmente às escondidas, até um dia sermos flagrados numa situação que não deixava dúvida quanto ao que estávamos a fazer. Parecida foi a longa amizade/desejo com a maranhense Marina. Aí eu já era mais velho, vivia a era dos meus 17 a 20 anos. Um pouco antes eu iniciara um namoro que chegara a ser proibido por ambas as famílias por puro preconceito de ambos os lados.”

“Terezinha, era o seu nome. Posso dizer que entre nós, como dizem hoje, rolou um xodó muito forte com gosto de amor verdadeiro. A força e as ameaças acabaram vencendo o sentimento. Éramos muito jovens. De repente conheci Graciete. Foi um namoro daqueles que todos apostavam que ia dar em casamento. O amor era verdadeiro e recíproco. Durou alguns anos e havia muita compreensão entre nós.”

Após outra pausa ele exibiu aquela fisionomia de arrependimento e contrição. Respirou fundo, olhou para o alto e, ainda calado, baixou a cabeça. Em silêncio respeitei seu sentimento. Depois ele continuou: “Um dia fiz uma burrada daquelas que, para aliviar nossa consciência, costumamos culpar o destino. Deixei-me fascinar por uma bonita mulher e, mesmo sabendo a dor e o sofrimento que estava impondo à minha amada, ignorei suas lágrimas, seus apelos e sem qualquer razão lúcida, sensata, rompi com ela. Acordei de tudo muito tempo depois. Já era tarde.”

“Acredite que a vida me castigou e muito, não me perdoou a decisão equivocada. Até ali eu tivera muitos namoros, porém apenas dois amores, e estes foram fortes e autênticos. Certo dia a mesma vida, no auge da minha caminhada muito sofrida, apresentou-me o que viria a ser talvez o maior amor da minha existência. Voltava a felicidade que eu abandonara há uns anos, aos prantos, na juventude.”

“Amigo, foi a melhor fase do meu viver. Durou algumas décadas. Um dia, certamente achando que eu ainda lhe devia algo, a vida me cobrou novamente a fatura e me arrebatou aquele grande amor, roubando-me a felicidade que eu imaginava me acompanharia até o fim da minha existência. Empurrou-me para a solidão, para a angústia, que pareciam me arremeter ao fundo do poço.”

Percebi que, aparentemente recuperado do sofrimento já há algum tempo, o amigo se perturbava ao retornar àquelas lembranças. Tomou outro gole de água e seguiu na narrativa: “Sabes, parece que a vida insiste em brincar comigo. Explico, quando me refazia aos poucos eis que ela me ofereceu outra oportunidade nesta reta final de existência. Vacilei, porém senti que teria ainda que viver e eu nunca admitira existir sem ter ao meu lado um amor. Ainda mais àquela altura de tudo.”

“Comecei por um forte sentimento de amizade, ternura e solidariedade que acabaram construindo os alicerces propícios a um novo amor. Mas, haveria reciprocidade? Lembrei que pior do que não amar é amar sem ser correspondido na mesma medida. Eu não tinha escolha, precisava pagar para ver. Foi o que fiz.”

“Não posso te contar mais nada, só te afirmar que tenho me doado muito, devotado cada dia, cada instante deste renascer de vida, a esta oportunidade de reencontrar a felicidade e o amor. Se ganhei ainda mais o respeito e a solidariedade também daquela pessoa, não tenho certeza quanto ao amor. Nem me atrevo a fazer a clássica pergunta: “Tu me amas?”. Não convém, não é hora.”

“O tempo, como sempre ele, é que poderá me fazer esta revelação algum dia, ou nunca. Eu disse que não admito viver sem amor, tudo bem, mas neste caso, meu amigo, conforta-me saber que a solidão não mais me escraviza.”

“Se um dia eu ouvir o que gostaria de escutar agora, caminharei ainda mais feliz para o meu horizonte de vida. Se não, levarei comigo a certeza de que pelo menos eu fui amigo, solidário e amante que se doa e nada cobra. Porém, se eu regressar à solidão, prefiro a morte, acredite.”

Depois que o amigo encerrou sua narrativa confesso que torci por ele, torci muito, mas destino, karma, ou seja lá o que for, não nos é dado conhecer, só viver. Mas guardei comigo, no coração, as palavras que ouvi dele, ditas com muita convicção: “Amar é preciso, sempre.”
 

 
(14 de novembro/2008)
CooJornal no 607


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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