04/04/2009
Ano 12 - Número 626

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


VERGONHA NA CARA, VOCÊ TEM?


 

Como é tão difícil alguém, no mundo de hoje e em especial neste país, ter vergonha na cara, ter dignidade, pundonor, se manter honrado, verdadeiro, ético, não se deixar arrastar pelo canto da sereia da corrupção endêmica, ter coragem de enfrentar a mediocridade reinante, dizer o que pensa mesmo desagradando a tantos, saber dizer não à mentira e defender sempre a verdade em que acredita.

Enfim, retidão de caráter é hoje uma ave rara numa sociedade poluída, enferma e contaminada pelo vírus do levar vantagem em tudo e a qualquer preço.

Prevalecem em certos grupos, principalmente do poder, em qualquer nível e nas mais diversas áreas dominantes, justamente o oposto de tudo a que me refiro acima. Parece que a mentira tomou o poder e pretende se eternizar.

Hoje o sucesso, de uma maneira geral, não é mais medido pela competência, pelo talento, pela idoneidade, não, hoje prevalecem outras regras, outros critérios ditados por cabeças vazias e comprometidas com a mediocridade. Felizmente há as boas e honradas exceções, mas que já não conseguem ser regra.

Alguém, quando lhe falta o reconhecimento pela incompetência ou ignorância do julgado, se vale de qualquer recurso para subir degraus, para galgar posições no grupo a que pertença, ainda que pisando em quem deveria ser respeitado, usando da intriga, da impostura, ou mesmo da fraude para alcançar seus objetivos.

O medíocre geralmente se alia a outros como ele, ou ela, e não hesita em usar qualquer método, qualquer atitude, assumindo um cinismo próprio dos falsos, atropelando a verdade. Algumas vezes chega a se fingir de agredido(a), por exemplo, despejando lágrimas de crocodilo num teatrinho vulgar e repetitivo, pois dizem que o hábito do cachimbo faz a boca torta, e o da falsidade também, acreditem. Este tipo de medíocre nem sabe o que é vergonha na cara.

Na minha já meio longa vida tenho convivido com todo tipo de gente. Não me julgo melhor do que ninguém, mas jamais me coloquei ao nível daqueles cuja personalidade (?!) sempre se inclinou para o puxa-saquismo, ou para a traição, ou para o carreirismo que lança mão de qualquer processo a fim de atingir seus objetivos, ou para a amizade que tem duas caras conforme a circunstância.

Felizmente nesses 72 anos colecionei maravilhosos amigos, daqueles que o poeta diz que devemos guardar do lado esquerdo do peito. Esses valem mais do que ouro. Eles costumam estar presentes nos nossos melhores e piores momentos, na alegria e na tristeza, têm sempre uma palavra que ora nos incentiva, ora nos consola. Jamais nos viram as costas se a eles recorremos.

Em vida tenho sabido regar essas amizades com o melhor da minha atenção e respeito, sempre. Isto não significa que eventualmente não discordemos nisto ou naquilo, porém eles sabem que eu jamais abriria mão dos meus conceitos, dos meus princípios, dos meus pontos de vista, para os agradar, se o meu juízo sentenciar diferentemente do deles. O amigo de verdade discorda, mas não intriga.

Igualmente recuo sem nenhum constrangimento a partir de quando me convençam de que estou errado. Posso ser teimoso, sim, mas se sentir que a verdade está do meu lado, do contrário terei pronto algum pedido de desculpas, como já o fiz algumas vezes, e amigos e amigas são testemunhas de que não estou mentindo. Não consigo estar feliz se percebo que magoei, mesmo que sem querer, algum amigo.

Claro que vivendo muito vamos acumulando experiência, é o que alguns agora deram de chamar de “feliz idade”, talvez para amenizar a pecha de sermos da tal “terceira idade”, embora jamais tenham usado a classificação de primeira ou segunda idade. É a mania reinante de rotular tudo. Quanta bobagem.

Infelizmente a sociedade que se degrada assumindo e difundindo valores que aos poucos a vão empurrando para o caos não apenas mergulha em desonra como acaba por ir construindo, ainda que nem todos percebam inicialmente, uma base para o crime e com ele a violência generalizada.

Testemunhamos isto começar a acontecer neste país, primeiramente nos grandes centros e depois se espalhando por cidades do interior, já faz muito tempo. As autoridades ficaram omissas a ponto de hoje se perceber que algumas também são coniventes com o atual estado de coisas.

Sempre começa assim, pela perda ou comprometimento da vergonha na cara, a seguir pela omissão em enfrentar, em denunciar e tentar combater o que vai ficando evidente a cada ano. Governos, e/ou desgovernos se seguem com discursos bonitos, mas demagógicos, enquanto o que já ficava podre vai se transformando em lama e essa se alastrando pelas ruas, casas, até mesmo Gabinetes do Poder.

Claro que se chega a um ponto em que o combate, se houver realmente interesse político e disposição da sociedade para enfrentar a situação, vai se tornando cada dia mais difícil. É o triste preço da omissão de antes explodindo na violência de agora. O combate passa a ter que ser mais acirrado, e logo se vê que a lama também suja a honra da polícia, infiltrando-se igualmente em escalões da justiça.

A sociedade passa a se sentir desprotegida enquanto percebe que o crime, e mesmo a corrupção endêmica, estão organizados e fortes. O descrédito cresce e se não é maior afirmo que é graças a uma demagogia planejada, organizada, executada de forma a iludir a parte mais frágil, culturalmente falando, desta mesma sociedade. Assim o próprio poder hipnotiza boa parte de uma população que lhe rende votos.

Voltando ao começo desta crônica, pergunto? Cadê a vergonha na cara? Os desavergonhados sequer têm vergonha de exibir sua cara e vão desenhando o perfil triste e sombrio de um país pregando e promovendo mentiras. Para esse povo resta, até por falta de informação e educação, aquela “vida de gado, povo marcado, povo feliz”, como disse um poeta.

Seguem hipnotizados, enganados e...”felizes”. A nós resta resistir, mas só com a palavra já que as armas estão é na mão da violência organizada. Também não as queremos porque nunca as soubemos usar, e quem as usa em nossa defesa anda a faze-lo muito mal. Morre um inocente, foge um bandido. Rotina que nos massacra.

Enquanto isso o poder vai exibindo sempre o seu sorriso masturbado, seus discursos estudados, planejados, com fórmulas ditadas por uma demagogia que, ainda assim, rende muitos e muitos votos. E muitos se preocupam com o fim do mundo quando o nosso fim está muito mais próximo. Palavra da condenação.

E a vergonha na cara? Você ainda a tem?




(04 de abril/2009)
CooJornal no 626


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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