11/04/2009
Ano 12 - Número 627

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


DO LADO ESQUERDO DO PEITO
- Luis Antonio Pereira da Silva -
 

Nessa longa estrada eu vou atravessando, ora recebendo flores, ora espinhos, algumas vezes convivendo com o sucesso, outras com o fracasso, recebendo muitos beijos e algumas facas nas costas. Não se passa impunemente pela vida. O tal mar de rosas, especialmente hoje em dia, é mais do que nunca uma figura de retórica.

Não, não vou ficar me lamuriando, muito menos soltando foguetes por algum êxito inesperado, não. Hoje estou novamente feliz, sim, mas porque reencontrei um grande amigo, ex colega do BB, pessoa que eu não via há mais de 20 anos. Nossos caminhos tomaram rumos diferentes a partir dos anos 80. Felizmente o reencontrei, pois sabem que prezo muito qualquer amizade, ainda mais quando é das antigas e que valem mais do que ouro.

Eu era muito jovem, havia chegado ao Rio fazia pouco tempo, começo dos anos 60. Tinha apenas de 3 a 4 anos de BB e estava trabalhando no Serviço Médico da Direção Geral do Banco. Ele, um pouco mais jovem que eu, quase 3 anos. De repente aconteceu uma greve geral dos Bancos. Ativo na participação desses movimentos eu estava entre os cinco ou seis colegas que montavam um piquete à porta do então MEDIC.

O bom amigo Luis Antonio queria entrar para trabalhar, um direito inalienável, mas piqueteiro costuma ser radical... “não entra”... E assim impedíamos a entrada, com exceção dos que ocupavam cargos de chefia, claro. Ele sempre foi um gentleman, um cavalheiro, e mesmo obstruído inicialmente no seu direito de ir trabalhar nunca “entregou” os colegas, como eu, da “tropa do piquete”.

Trabalhamos juntos no MEDIC de 1960 até 1964 quando me transferi para a CREAI – RUCEN, sempre na Direção Geral do BB. Algum tempo depois ele foi para o Funcionalismo. Continuamos a nos ver porque Luis Antonio se formara como dentista e passou a ser o nosso preferido, meu e de Zezé.

Já me confessei um cliente que dá muito trabalho a qualquer dentista, com ele não foi diferente, pois. Mas o amigo tinha uma paciência de Jô. Mesmo quando me aposentei, em 1986, continuei a freqüentar o consultório de Luis Antonio em certas emergências. Posteriormente eu soube que ele também se aposentara e resolvera ir morar em Vitória, terra natal de sua esposa.

A partir dali perdi o contato com ele e nem sequer tinha seu endereço. Foi quando, mais para a frente, também minha vida mudou muito com a perda de Zezé. Naquele período quando precisei de ir ao dentista acabei sendo apresentado à Dra. Andréa, jovem simpática, também muito paciente.

Se a vida me fizera trocar de dentista, a amizade perdurou nas lembranças e no coração. Agora, mais recentemente, descobri que um filho dele, o mais velho, herdara o consultório assim como a profissão do pai. Pena que é no Rio de Janeiro, e sabem que desde metade de 2003 passei a morar em Cabo Frio.

Através deste filho fiz outra descoberta: o bom Luis Antonio voltara a morar no Rio e no bairro do Leblon, portanto bem próximo ao meu apartamento, em Ipanema. Contato feito senti nas palavras dele que nossa amizade continuava sólida. Nem sempre isso acontece. Fiquei feliz.

Conversamos bastante ao telefone e como logo a seguir viemos ao Rio por duas semanas combinei com ele nos encontrarmos. Aconteceu este reencontro num lanche ajantarado, digamos assim, em Ipanema, no Chaika. Sou muito emotivo e ao vê-lo, agora mais vivido como eu, mas com a disposição e a simpatia de sempre que marcava sua personalidade, quantas recordações desfilaram velozes em minha mente. Era um breve filme de um passado que ressurgia no presente.

Eu estava acompanhado de Lena. Logo iniciamos uma conversa que parecia pretender rever situações tantas de duas histórias de vida que por algum tempo trilharam juntas, cada uma cumprindo o seu destino. Eu não parava de falar, e assim acabei sendo o último a terminar de jantar, mas isso não me incomodava.

Luis Antonio, não obstante os anos passados por ele, continua com aquela voz de garoto, aquele sorriso que nos inspira confiança, aquele olhar que não trai, realmente um amigo para se guardar do lado esquerdo do peito, para sempre.

Rimos muito especialmente lembrando as minhas posturas que complicavam algumas vezes, para um dentista competente como ele, ter que aceitar decisões, que eu pedia, quase exigindo, e que fugiam às regras do bom senso e da rotina odontológica a que ele estava habituado, claro.

A que “destaco” aqui foi quando, mordendo algo mais resistente, eu conseguira partir um dente de quatro raízes que tinha uma coroa. O normal seria o Luis extrair a parte do dente que ficara na gengiva, claro, e bem que ele tentou, mas... eu resisti. Disse que deixasse para outra oportunidade. Ele só me atendeu porque éramos amigos há muitos anos, para além da relação dentista/cliente.

Foi quando o amigo teve uma idéia brilhante e fez um trabalho de mestre, tudo para não me criar mais problemas do que eu mesmo já o fizera. Ele pegou a coroa do dente partido, limpou-a demoradamente com muita calma e talento usando a broca para isso. Depois, valendo-se de material apropriado, conseguiu colocar e deixar bem presa a referida coroa na ponte móvel que eu já usava há alguns anos,

Repito que foi um trabalho de mestre, pois até hoje, bem mais de 20 anos depois, ela permanece intocável e protege a área do dente partido, embora suas raízes já tenham saído naturalmente. Desculpem este relato de um covarde que sempre teve horror a sentar na cadeira de dentista. Consola-me saber que não sou o único neste mundo. Afinal ninguém é perfeito!!

Ao amigo Luis Antonio a minha reverência, o meu abraço maior, a minha alegria fulgurante por tê-lo reencontrado. Saúde, paz e muito amor, meu bom amigo.



(04 de abril/2009)
CooJornal no 626


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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