18/04/2009
Ano 12 - Número 628

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


DEMOCRACIA AUTORITÁRIA, ISSO EXISTE?


 

Os amigos devem estar acostumados a receber, assim como eu, entre spams e tentativas de vírus, algumas mensagens de denúncia contra o governo. É evidente que motivos há e muitos que nos desagradam, que nos levam à descrença, que nos deixam mesmo com a barba de molho pensando até nas próximas eleições. Afinal há um certo cheiro no ar de tentativa de o PT querer se eternizar no poder.

Digo isto com toda tranqüilidade após haver votado em Lula por três vezes, como a maioria dos brasileiros o fez antes, ou ele não teria sido eleito. Parei de votar a partir do seu primeiro mandato. Minha visão crítica diante de tudo que aconteceu de ruim, a começar pelo tal “mensalão”, entre outros vários escândalos envolvendo corrupção, e da omissão total do presidente diante dos fatos, me fez mudar o rumo das minhas críticas a partir de certo momento. Diga o que disser o Sr. Obama.

É preciso, entretanto, termos competência para ser oposição ou não chegaremos a lugar algum. Não basta alguém, ou alguns, ficarem a tentar criar fatos mentirosos, os mesmos que se repetem há anos, como a “censura” que teria calado o Boris Casoy, o Arnaldo Jabor, a Salete Lemos, entre outros, quando se sabe que nada disso ocorreu. Não se combate mentiras agindo igual a eles.

No caso dos jornalistas citados não só eu já desmenti dezenas de vezes, assim como eles mesmos o fizeram, principalmente o Boris, que está no jornal da noite da Band, e o Jabor, que eu ouço sempre pela manhã na CBN, e que continua atuando no jornal da noite da TV Globo. Aliás, nunca saiu de lá.  Salete passou pelo SBT e agora comanda o jornal da CNT, fazendo os comentários de sempre.

Mas certas mentes que se julgam acima de qualquer suspeita de quando em vez espalham na internet novas mensagens, geralmente mal escritas, acusando sem provas, denunciando sem exibir informação confiável, e o que poderia vir a ser algo sério que justificasse adesões e repasses por pessoas honestas a fazer uma oposição democrática e firme acaba por se tornar num circo sem lona e talvez apenas com palhaços, mas não os honrados que nos fazem rir profissionalmente.

E a linguagem usada nesses textos, ou na maioria deles? Apelam constantemente para palavras de baixo calão que acabam por desmerecer os autores e a própria denúncia. Querem é agitar, achando que fazer oposição é sair "gritando" na internet com letras enormes, de cores diferentes, repetindo e mais repetindo surrados argumentos, apresentando números e nomes sem porém comprovar absolutamente nada. Já cansei disto faz tempo, mas tenho que conviver com essas mensagens, pois fico sempre na esperança de ler algo que justifique a perda de alguns minutos dando atenção ao que me chega. Começo a ler e... logo apago.

Quando vejo que o(a) remetente é pessoa merecedora de crédito eu até leio, mas logo procuro contra argumentar sobre o que me trazem as palavras repassadas e alerto para as mentiras que já conheço, tentando evitar que aquilo siga adiante pois o alvo, o governo, se vier a ler, irá dar boas risadas às custas de uma incompetente oposição que não resistiria quase nada se tivesse que se opor, no passado, à ditadura militar, por exemplo.

É verdade que outras vezes me chegam escritos ou pps dignos de atenção e aí, após ler e ouvir tudo aquilo, eu os repasso se julgar que deva fazê-lo. Dou como exemplo um pps com música de Zé Ramalho, letra muito forte, mas fiel à nossa realidade atual, acompanhada de imagens que denunciam e/ou criticam coerentemente e revoltam porque verdadeiras, enfim um trabalho digno do melhor de nossa atenção e de ser mesmo divulgado. Guardei-o nos meus arquivos e o ofereço a quem desejar vê-lo. Agradeço à amiga Silvana que mo enviou.

Que diferença do lixo que outros nos mandam julgando estar a ser úteis numa oposição incapaz de ao menos se fazer crível. Como se já não bastasse termos partidos e políticos de oposição no Congresso que via de regra se mostram até comprometidos com a realidade que eles mesmos criticam. Uma lástima.

Percebo claramente que hoje ou não reagimos ao que nos atinge, desrespeitando, violando nossos direitos, ao que tentam pintar de verdade sabendo-se que mentem constante e descaradamente, ou se o fazemos nos falta a criatividade, a inteligência, aquele espírito de luta do passado com a cultura necessária para nos impormos até intelectualmente numa realidade que nos ameaça arrastar para a vulgaridade geral numa manipulação sórdida de uma democracia que custou tantas vidas.

De repente alguém me envia algo com sentido de crítica e denúncia. Mas só com “sentido de”, percebem? Contra argumentei com o cidadão alertando-o que aquilo estava mais para panfletagem do que para algo que se impusesse com seriedade, além do duplo sentido em sua conclusão final. Pois recebi como resposta apenas uma reafirmação do que ele divulgara antes, comparando quantidade de mortes ocorrida em recentes governos com as que teriam acontecido durante a ditadura!!

Disse ele: “...Veja o número total de vítimas da ditadura militar e verá a crueldade atual, verdadeiro nazismo consentido. Sou a favor de democracia altamente autoritária...” -- Daí minha indagação acima: Democracia autoritária, isso existe?

Mesmo eu lhe dizendo que democracia e autoritarismo são coisas incompatíveis e que talvez tivesse se expressado mal, não como desejava faze-lo, tive que agüentar uma repetição daquela assertiva de forma contundente. Fiz ver ao remetente que me permitia supor, com suas palavras, estar muito mais talvez saudoso de um regime autocrático do que a querer um aperfeiçoamento da nossa democracia.

É isto que não só me entristece como, acima de tudo, me preocupa. Parece que estamos do mesmo lado contra tudo que aí está a começar pelo poder maior, seguindo-se pelo Congresso atual, pelas imoralidades de toda ordem, pelo descontrole da violência incontida como a parecer mais que temos coniventes do que combatentes, tanto no governo central como nos estaduais, que estamos a lutar juntos para tentar mudar isso tudo, mas... não, a outra voz quer é uma “democracia autoritária”. Então não jogamos no mesmo time.

Consta que o Premier Winston Churchill teria dito nos anos 40 que a democracia é um regime com defeitos, mas que não haviam ainda inventado nenhum melhor. Essa conversa mansa de fazer críticas que nós endossamos, com as quais até concordamos, claro, vindo de pessoas assim pode representar muito mais uma armadilha do que adesão a um objetivo que nos move em oposição a este ou aquele governo, porém jamais nos levando a aventuras políticas que não nos interessam.

Não tenho porque me esconder, não me calam se julgo deva escrever, ninguém roubará minhas palavras, minhas idéias e conceitos, mas jamais serei um “Maria vai com as outras”.

Temos que ser, além de oposição, lúcidos o suficiente para não perdermos o rumo da crítica séria, credível, que denuncie sem ofender, sem agredir, porém firme nas palavras, usando argumentos que não possam ser contestados, e jamais abrindo mão de nos mantermos em nível que não transforme nossa crítica em panfletagem da pior espécie, algo que logo cai no descrédito.

É a minha opinião. 



(18 de abril/2009)
CooJornal no 628


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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