25/04/2009
Ano 12 - Número 629

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


AO CELULAR SEM ESTILO


 

Outro dia eu fora com Lena à Agência do BB em Ipanema. Dirigimo-nos à bonita sala em que atendem somente aos clientes que o Banco considera merecedores da classificação de “Estilo”.

Quando no Rio já estamos acostumados a ir lá conversar com a Gerente de nossas contas. Neste caso uma jovem educada, simpática, funcionária por demais eficiente e, em verdade, nosso anjo da guarda sem asas, a amiga Ângela. Uma doçura de pessoa, sem favor algum.

Sentamo-nos na sala de espera e logo soubemos que, antes de nós, das pessoas ali presentes, e eram poucas, havia três para serem atendidas justamente pela amiga Ângela. Sem problema, esperaríamos o tempo que necessário fosse, mas acabou nem demorando muito para sermos chamados por ela.

Enquanto esperávamos fui logo tomar um cafezinho, com açúcar claro, pois embora esteja nos meus 72 anos, na mesma manhã eu olhara o laudo do meu novo exame de sangue e a glicose continuava lá... 88 apenas. Maravilha, não?

Sem ter nada mais a fazer, as pessoas enquanto esperam ou conversam, ou fofocam, ou.... hahahaha... atendem a seus telefones celulares!!! E quem dera que atendessem discretamente, mas não. Também tocava cada tipo de sinal diferente que me senti humilhado com o meu porque, à minha escolha, toca um solo de piano suave e muito discreto.

De repente explodiu na sala um som alto e forte, parecia que repentinamente entrara uma orquestra no recinto. Todos se entreolhavam querendo saber de onde vinha aquele “concerto” inesperado.

Uma senhora, aparentando bastante idade, mas muito ágil, começou a revirar uma grande bolsa até que encontrou seu telefone. A música enfim parou. Aí, como sempre acontece nesses casos, começamos a ser testemunhas da conversa da dita cuja, que andava na sala de um lado para o outro falando, e falando, e mais falando. Ficamos conhecendo parte da vida dela mesmo sem querer.

Uns 10 minutos depois a “orquestra” voltou a tocar alto. Novamente a mesma senhora manteve um diálogo com alguém de sua família fazendo recomendações sobre atividades domésticas. Para estar ali é porque ela também deve ser uma cliente “Estilo”, mas ao telefone, em público, ... bom, aquele não é o nosso estilo.

Poucos minutos depois surgiu no ar um outro ruído, este mais estranho e de menos bom gosto. Algo como se alguém gritasse para a pessoa o atender. Já ouvi aquilo lá em Cabo Frio, na rua. Afinal, dizem que gosto não se discute, mas bem que podiam poupar quem está à sua volta de semelhante agressão auditiva, não acham? O cidadão o atendeu sem se levantar e vejam que estava sentado entre duas pessoas.

Quando saímos para a rua, de quando em vez topávamos novamente com alguém a falar, ou a gritar, no seu celular. Essas pessoas parecem uns ETs, ou robôs ora falando, ora discutindo, geralmente gesticulando e sem parar de andar. Até atravessando ruas. Não sei como conseguem, sinceramente.

Alguns hão de dizer “Oh cara, estás a criticar os outros, mas e tu também não falas ao celular?” E eu respondo: pois falo sim, mas nunca aos berros e/ou andando na rua, ou dentro de Banco e lojas. Mesmo que ele toque, o que já é pouco provável.

Explico: meu telefone celular, ou tele móvel, como dizem nossos irmãos portugueses, raramente toca, assim como eu ainda mais raramente falo nele. Vem daí o apelido que deram ao meu aparelho de “mudinho”. Definição perfeita. Está bom, isso é problema meu, eu sei, porém eventualmente já tocou quando estávamos na rua, sim senhor.

Como eu faço então? Pois lhes digo: eu paro, coloco-me em local que não atrapalhe os transeúntes e ali atendo ao celular. Marlene segue o meu exemplo. Se estou numa loja esperando Lena fazer alguma compra e o “mudinho” exibe aquele delicioso solo de piano, eu o pego e vou até à porta do estabelecimento para o atender. Não submeto os outros ao que não gosto de ser submetido.

Certa vez foi até engraçado ao que assistimos. Esperávamos mudar o sinal para atravessarmos. Duas pessoas falavam ao celular em voz alta e uma de frente para a outra a cerca de pouco mais de um metro. A nós pareceu que elas conversavam entre si pelo aparelho apesar da reduzida distância. Coisa digna de programa humorístico. Foi na esquina da Visconde de Pirajá com a Aníbal de Mendonça.

Sei que o aparelho celular é muito útil, não tenho dúvida alguma sobre isso, só gostaria que as pessoas tivessem um pouco mais de cuidado, respeitassem mais aos seus semelhantes, ou melhor, tivessem um pouco mais de estilo ao falar nos ditos aparelhos, especialmente quando estão em público. Só isso.

Ah, desculpem um momento, meu celular está tocando e vou atender. Até a próxima crônica, sim?... Alôôôôô...



(25 de abril/2009)
CooJornal no 629


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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