18/07/2009
Ano 12 - Número 641

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



COM TODO RESPEITO, DESRESPEITEI

Eu me casei com Zezé em dezembro/1964. Quer dizer, nos “casamos” na Igreja Católica Apostólica Brasileira, da Penha, no Rio, na época, porque no civil as leis não me permitiam (eu era desquitado e ela solteira) e nossa Igreja Católica não só não aceitava como nos condenava pela união “espúria”. Explico.

Nós já sabíamos disto, mas tivemos uma confirmação maior quando um amigo de infância, então padre, foi nos visitar no Rio, anos 70, e nos colocou a posição da Igreja. Mais não digo porque gosto do amigo e se o fizer ele, ainda hoje, vai se aborrecer comigo. Eu o respeito muito, divergências à parte.

Aquele casamento na Igreja Católica Apostólica Brasileira, do Bispo de Maura, ex-comungado pela Igreja Católica, mais se deu para atendermos a um desejo da mãe de Zezé que queria ver a filha vestida de noiva e casando. Infelizmente não havia outra opção. O divórcio só chegou ao Brasil mais de 20 anos após.

Ao me aposentar, e na primeira viagem à Europa, quando lá fomos viver por um ano, com base em Lisboa, viajamos no transatlântico Eugênio-C. A viagem foi maravilhosa. Nove dias no mar até chegarmos à capital portuguesa. Ano 1989.

Certo dia, após assistirmos à missa na capela do navio, decidimos conversar com o padre italiano. Achávamos que poderíamos ouvir, quem sabe, uma outra versão da opinião da Igreja Católica. Continuávamos unidos pelo amor, ela solteira e eu desquitado, e isso para nós era o que realmente importava.

Acreditem, por favor, quando o padre ouviu nossa consulta, sobre a união que vivíamos, e se realmente não poderíamos tomar a comunhão, ele mudou a fisionomia, que estava tranqüila, e passou a nos repreender de uma forma que nos assustou pela reação do sacerdote. Esperávamos tudo menos aquilo.

O padre italiano simplesmente nos passou uma reprimenda feroz que até tememos, confesso, que mandasse nos atirar ao mar... risos... desculpem, mas só faltou isso mesmo. Repito: ano de 1989.

Ficamos horrorizados e, a partir daquele dia, tanto eu quanto ela, resolvemos que iríamos sim tomar a comunhão independente do que pensassem aqueles que Deus não são, quando muito O representam na Terra e nem todos eles merecem de nós, como bem sabemos, um respeito inconteste. Não mesmo, haja vista os inúmeros escândalos de pedofilia, entre outros pelo mundo fora, envolvendo sacerdotes que, do púlpito, nos falam de amor e nos ditam regras sobre moral, etc e tal.

Continuamos católicos, mas no assunto da confissão/comunhão passamos a nos reportar direto ao Ser Superior, no qual continuamos a acreditar, chamemo-lo de Deus ou outro nome qualquer. Comungávamos habitualmente.

Tempos depois, para tentar ajudar a filha de um dos sobrinhos, ainda menina, que médicos haviam desenganado, ela se voltou profundamente para o espiritualismo. E conseguiu seu objetivo. Agora a menina aí está, jovem, bonita e... viva.

Alguns creditarão a recuperação fantástica da garota a um milagre, outros dirão que não chegara a hora dela, e outros ainda que apenas aconteceu e os médicos haviam se enganado, como outras vezes já ocorrera. Nada a ver com milagre.

O fato é que a posição assumida por Zezé, com total convicção, foi uma decisão pessoal dela na qual nunca interferi. Só me surpreendi porque sabia de sua rígida formação católica. Eu me limitei a apoiá-la integralmente. Só depois que ela partiu deste mundo vim a descobrir diversos livros que ela guardava, os quais certamente lera, e que nunca me mostrara. Todos voltados para o espiritualismo.

A partir de quando fiquei viúvo continuei a comungar rotineiramente. Agora, mais recentemente, minha situação, como sabem, mudou novamente. Se eu tivesse me casado com uma mulher solteira, para a Igreja eu estaria liberado e ela aceitaria minha decisão de comungar, porém eu me casei com a amiga Lena, divorciada. Vejo-me outra vez enquadrado na “proibição anterior”. Mais, a Igreja até admite a separação do casal, mas afirma que nenhum dos dois pode voltar a se unir a outra pessoa. Afinal parece que nossa Igreja anda no passo errado, de há muito, no que concerne à realidade em que vivemos, incluídas as doenças atuais, como Aids, pois eles não aceitam preventivos como forma de evitar sua expansão. Lamentável.

Desagrade a quem desagradar, continuo seguindo a posição que adotei com Zezé ainda viva: sigo comungando quando desejo fazê-lo. Se me perguntarem sobre confissão, digo que a dirijo, mas ao Ser Superior, ou a Deus, como queiram. Batinas não me impedem e nem me sinto “excomungado.” Lembro aqui este aforismo de Oscar Wilde: “É a confissão, não o padre, que nos dá absolvição.”

Não pretendo polemizar com ninguém, todavia nada, nada mesmo vai mudar minha convicção e minha decisão. Sobre o espiritualismo tenho histórias e fatos verídicos para contar sobre a minha vida, vindo eles desde quando era ainda jovem, em Belém, final dos anos 50, continuando quando já me encontrava no Rio, isto a partir de 1960. Zezé foi testemunha de alguns deles, no Rio.

Já escrevi dois textos e pretendo redigir mais um. Estão guardados para uma divulgação quando eu julgar deva fazê-lo.

Para nós dois o que valeu foram os quase quarenta anos de felicidade, de uma amizade forte, recíproca, solidária, abençoada sim, mas pelo amor que nos uniu sempre. Para sermos felizes dependemos sempre de nós mesmos não da opinião alheia ou de conceitos e dogmas defendidos por terceiros, ainda que bem formados.

Hoje, aos 72, retomei minha vida e estou de novo feliz, em situação idêntica à anterior, é verdade. Respeito a postura dos que vivem seguindo rigorosamente as regras da Igreja, porém eu continuo comungando convicto de fazer a coisa certa.

Afinal também não acredito em diabo, e pecado, para mim, meus amigos, é muito mais um peso de culpa da consciência do que uma transgressão de preceito religioso. Todavia respeito opiniões no sentido contrário e nem pretendo, repito, polemizar sobre isso, com ninguém. Aliás, já nem sou um católico convicto!



(18 de julho/2009)
CooJornal no 641


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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