01/08/2009
Ano 12 - Número 643

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



PORQUE NÃO SOU ATEU

Nasci e fui criado no seio de uma família cristã, eminentemente católica. Estudei por sete anos em Colégio Marista, no Nazaré, em Belém do Pará, minha terra natal. Cursei lá o ginásio e o científico, como se dizia antigamente. O primário eu fiz em casa com uma professora particular a quem estou devendo uma homenagem. Um dia corrigirei isso.

A religião era uma das matérias do currículo, aprendia-se catecismo e a presença à missa era obrigatória, aos domingos. Cresci católico embora já no final dos anos 50 eu tivera uma experiência com um espírita por demais conceituado mesmo além de Belém, um ser humano como poucos, o Sr. Ferreira Gomes.

Ele era um homem de grandes posses e um espírito muito evoluído, médium muito consultado e de uma bondade e solidariedade humana que se dedicava a amenizar ou sarar os sofrimentos, especialmente dos menos favorecidos nesta vida. Sobre isso eu falarei em outro texto, breve. Agora só digo que fiquei vivamente impressionado com a experiência, mas continuei católico.

O fato viria a se repetir muitos anos depois, já eu morando no Rio, anos 60. Outro espírita, também médium, que por sinal era um general do exército e pai de dois alunos meus, na época. Dou detalhes também em outro texto. Eu não entendia certas coisas que ocorriam comigo, décadas de 60 e 70, mas não tinha medo, porém procurei ir me aprofundando naqueles conhecimentos.

Novamente eu viria a ter a confirmação do que me haviam dito aqueles dois senhores, em tempos tão distanciados e em cidades tão diferentes. Foi nos anos 90, em Cabo Frio. Isto também será relatado em crônicas futuras. No correr daqueles anos, de quando em vez ocorriam-me fenômenos com os quais eu não sabia muito lidar, mas os aceitava e levava a sério. Minha testemunha maior sempre foi Zezé.

Nunca me decidi a assumir a responsabilidade que me haviam dito estava a mim destinada e somente eu poderia fazê-lo. O que direi agora pode levar alguns ao riso, outros talvez a pensar que estou inventando histórias, e mais alguns a me considerar um velho gagá, sei lá, mas acreditem, (se puderem) não minto. Em certos momentos, inclusive andando pela rua com Zezé, tive rápidas visões (anos 60). Essas foram confirmadas ou na mesma noite ou no dia seguinte.

Ela se impressionava com aquilo, mas sempre me apoiou, todavia era católica fervorosa e mesmo radical. Esta posição dela viria a mudar fundamentalmente nos anos 90 quando mergulhou fundo no espiritismo para tentar ajudar a salvar a vida de uma sobrinha que os médicos haviam desenganado e a largaram de lado. Ela estava à morte, só pele sobre osso. Luana acabou se recuperando e hoje é uma linda moça, cheia de vida, e os médicos jamais souberam explicar o fenômeno.

As manifestações continuaram a ocorrer, inclusive com situações em que eu parecia dar um pulo a um futuro próximo e o que eu vivenciava mentalmente acabava ocorrendo depois. Saídas do corpo me aconteceram quando relaxava por longo tempo, infelizmente eu me assustava e assim acabava interrompendo o processo sem querer.

Jamais fiz propaganda daquilo, nem aos amigos mais próximos. Receava ser criticado e mesmo ridicularizado. Só comentei eventualmente com espíritas que conheci. Eu já mergulhara com curiosidade e certa busca de outras verdades na leitura sobre uma realidade que nossos olhos físicos não alcançam. Li e li muito.

Eu era um leitor inveterado, principalmente a partir dos anos 60, mas não só daquele tipo de literatura. Eu lia e lia muito mesmo. Nossa estante vivia cheia de livros. Mergulhei também nos ensinamentos e exercícios da yoga (como se pronunciava antigamente) através dos conhecimentos do professor Hermógenes, ainda vivo. Não obstante todas as experiências eu continuava, e continuo, a freqüentar missa e mesmo a comungar, mas sem me confessar a homens de batina.

Esta foi uma decisão que tomei ainda junto com Zezé e que relatei em outra crônica. Hoje o faço em companhia da minha Lena. Sou, como li em certo artigo de um Bispo anglicano, um “católico ao meu modo”. Tenho minhas razões e a própria Igreja me levou a isso com suas proibições a pessoas divorciadas. Aliás, pelo que sei, comungar como eu o faço já me deve ter levado à excomunhão há muito tempo. Sinceramente isso não me preocupa nem me assusta, de forma alguma.

Acredito sim num Ser Superior que não sei se chamarei de Deus, ou lá o que seja. Não dá para acreditar que tudo que vejo à minha volta, convivendo em total harmonia com a natureza, ou tudo que me levou às experiências acima citadas, ao perceber que não existe somente a realidade ao alcance de nossos olhos físicos, seja pura ficção, ou nada seja. Não dá meus amigos. Alguma força, algo maior que nós, tem que estar por trás ou na origem de tudo isso. Repito: nem sei se é um deus.

Confesso-me descrente já há algum tempo dos ensinamentos, dos dogmas, da palavra da salvação, conforme é pregado em templos, dê-se o nome que se der a esta ou aquela religião. Afinal os homens transformaram a fé das pessoas em um grande negócio, muito rendoso, haja vista a suntuosidade da maioria das igrejas pelo mundo afora, sem falar também nos escândalos envolvendo os que as dirigem. Não podemos inocentar nenhuma delas, infelizmente.

Em verdade isso já vem desde muito cedo, ou desde que o mundo é mundo. Sei que decepcionarei algumas pessoas, porém, acima de tudo, não estou decepcionando a mim mesmo. Isso me é mais importante. Uma hora eu externaria esses sentimentos, o que preferi fazer agora a continuar parecendo ser o que não sou.

Reafirmo que ainda vou à missa por minha Lena ser católica, e porque a respeito muito. E vejam que ao casar comigo ela era divorciada, o que a Igreja condena, não aceita, e nos proíbe a comunhão. Hoje me encontro em situação meio parecida com a que vivi com Zezé, ali eu era o divorciado e ela solteira ao casar comigo.

“O casamento é indissolúvel”... pois é, mas cada um sabe onde lhe dói o calo, e não serão pastores, ou padres, bispos, ou o Papa, ou lá quem seja, que podem avaliar ou decidir por nós em situações pessoais e muito íntimas. Isso não existe.

Tenho amigos católicos, ateus, espíritas, e que professam outras religiões. Dou-me bem com todos. Entretanto vou seguindo a vida sabendo que algum dia terei que me decidir a assumir o que me disseram, em três oportunidades, que me está reservado. Hesito até porque não me sinto competente para tanta responsabilidade, mas o tempo vai passando, a idade avançando e não sei se me sobrará oportunidade para a decisão. Também não sei o mal que isso poderá vir a me causar no caso de eu continuar a fugir indeciso.

No final de seus dias, Zezé acabou me deixando lições muito fortes quando presenciei sua ativa participação fora do catolicismo para tentar salvar aquela menina de quem sempre gostamos muito, e conseguiu. Aprendi mais um pouco com ela embora raramente comentasse sobre suas incursões pelo espiritismo comigo.

Entretanto, por tudo que relatei aqui eu jamais poderei ser ateu. É a minha verdade, a minha palavra, é parte da história do meu viver confessado com o coração aberto, na lucidez de minha mente e à luz daquilo com o que tenho convivido. Acredite quem quiser ou puder. Não quero polemizar com ninguém.



(01 de agosto/2009)
CooJornal no 643


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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