15/08/2009
Ano 12 - Número 645

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



TEMPO DE CORVOS, SEMPRE?

Pois é, meus amigos, hoje decidi reviver meu poema que tem o título de “Tempo de Corvos”. Afinal, se amigos que acompanham o meu trabalho nesta internet há uns 9 anos devem conhecê-lo, muitos outros que chegaram depois, e como chegaram, felizmente, talvez nunca o tenham lido.

Verão que o escrevi em 1998, portanto há exatos 11 anos, onze anos que se passaram, mas os corvos nunca se afastaram da nossa política, pelo contrário, chegaram outros, e outros, e mais outros, e o TEMPO DE CORVOS foi se tornando ainda mais elástico, mais nojento, mais asqueroso, mais vergonhoso (ou desavergonhado) do que nunca.

Esta poesia me rendeu quatro bons prêmios em apenas cinco Concursos Literários em que a inscrevi. Sinceramente preferia não ter tido motivo para escrever esses versos, preferia que nossa realidade fosse bem diferente, mas já não era, e continua a não ser, ou melhor, piorou em alta escala. Cada dia que passa mais me convenço de que não temos políticos confiáveis em nenhum dos lados.

Vejam se hoje, provavelmente mais do que nunca, não é verdade que “É tempo de corvos, da gralha / Que nos palácios se assoalha,” ou pior, vejam se no momento presente eles não fazem questão de confirmar o que digo em meus versos... “Em úberes mananciais de tetas / Sufragam a sugação do comum...”

Hoje não tenho candidato a Presidente da República, e prevejo que não terei daqui a um ano também. Votar no menos ruim eu me recuso. Aos 73 anos eu seria um néscio, um estúpido, pois já cansei de votar acreditando em promessas que depois acabam sendo lançadas ao ostracismo.

Com a corja que habita em nossa política não vejo esperança de melhora. Talvez daqui a muitas gerações, sei lá quantas, afinal é preciso também mudar a mentalidade de nossa gente, e isso só se consegue com instrução, muita escola, informação, não com paternalismos e programas assistencialistas que visam sempre ter o povo sob controle, sob um cabresto curto e mal intencionado.

Outro dia conversava com meu amigo Humberto Rodrigues Neto, de S. Paulo, homem inteligente, poeta, culto, politizado, que sugere: "NÃO REELEJA NINGUÉM!", ou seja, não vote de novo nos mesmos políticos. Entendo a iniciativa e até a aplaudo, mas contra argumentei: funcionaria no nosso Brasil?

Eu disse ao Humberto que candidatos “novos” não são, em princípio, escolhidos por nós, mas pelos partidos. Eles nos colocam os seus candidatos, e não temos a liberdade de escolher quem quisermos, só dentro de uma relação que eles nos apresentam. Como vou crer em “renovação”??!!

Os exemplos que temos visto, com raríssimas exceções, é de que os tais candidatos "novos" têm que ler pela mesma cartilha do partido que lêem os “velhos”, logo... E quando votamos é sempre em parte dos congressistas, o restante só pode ser substituído em outra eleição e até lá os tais “novos” já serão “velhos” ... Hummm...!! Desculpem, mantenho a minha descrença.

Repito, não acredito em mais nenhum dos atuais partidos, muito menos em seus integrantes. Cansei de bonitos e longos discursos que... “em verborréia se espalham”... uma verborragia com raras idéias, porém muitas más intenções que hoje o cinismo, o descaramento, a impunidade, nem se preocupam em ocultar ou disfarçar. Quem quiser me criticar que critique.

O meu voto nenhum deles terá mais. Não estou preocupado com a sua discordância, mas com a minha consciência. Só a ela devo satisfação. Por favor, se ainda sobrou paciência para comigo, leiam o meu poema:


TEMPO DE CORVOS

Não, não é tempo de poetas
É tempo de corvos, da gralha
Que nos palácios se assoalha,
Em úberes mananciais de tetas
Sufragam a sugação do comum,
Em verborréia se espalha
Alvejando, desdourando,
Exibindo em irônicos sorrisos
O ludíbrio escabroso
Da indiferença, do tenebroso.

Não, não é tempo de poetas
É mesmo tempo de corvos.
Versífero, vejo meus versos,
Dispersos, perseguirem algum sentido
No injusto, no destrutivo,
No lascivo, num universo
Para poucos onde há muitos perdidos,
Desorientados, estuprados,
Com o rumo e a vida profanados
E um abismo sem fundo nem reverso.

Não, não é tempo de poetas,
Pois, como falar de amor com a fome,
De paz com a bala perdida,
De fé com a mão estendida,
De justiça com a força que esfola,
De educação sem ter a Escola,
De futuro sem ter a terra,
De esperança sem ter o teto,
De ordem e progresso sem o povo?
É, são tristes tempos de corvos




(15 de agosto/2009)
CooJornal no 645


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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