10/10/2009
Ano 12 - Número 653

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



GUERRA OU GUERRA?

Hoje ocorrem no mundo diversas guerras, não apenas a que se passa em Gaza, entretanto esta é a que tem maior repercussão na mídia por motivos óbvios. Nem a ONU consegue impor-se em seus esforços de paz. Se é que se esforçam mesmo.

Isto não é novidade, desde que o Sr. Bush (vade retro) invadiu o Iraque desprezando as decisões daquela Organização e sequer foi a algum Tribunal Internacional. Existe uma coisa chamada “Crime de Guerra” que já valeu, mas para poucos carrascos de tantos que mataram covardemente milhares e/ou milhões de pessoas em conflitos belicistas e em regimes autoritários.

Sei que muitos acreditam que um dia este mundo poderá ter paz. Há os que rezam, e rezam sempre à espera de um milagre, como os que realizam passeatas e todo tipo de movimento pacifista, porém jamais este mundo passou um só ano sem guerras. Eu, sinceramente, já não creio em paz mundial há algum tempo. Explico.

Vamos voltar à Segunda Grande Guerra Mundial, nos anos 40. O comandante da invasão da Europa, o General  Eisenhower, em 1961, quando deixava a Presidência dos EUA, teria afirmado: “Nas esferas de governo, devemos nos proteger contra uma influência indesejada, procurada ou não, por parte do complexo militar-industrial”. Ele assim se pronunciara, quase profeticamente, com muita convicção.

Esse “complexo”, a que se referia Eisenhower, depende naturalmente da ocorrência de guerras para sobreviver. As palavras do General americano exortavam, já à época, a que os governos não se deixassem influenciar pela poderosa indústria bélica militar. Muitos e importantes analistas políticos julgam que isso é praticamente impossível. E eu estou com eles, modestamente falando.

Como falar em paz quando as maiores potências mundiais, e não só elas, produzem armas as mais variadas e as vendem a outras nações livremente? Este comércio parece que é muito atuante e permanente. Em minhas pesquisas eu li num artigo assinado por Eduardo Galeano, México, “Fábricas de Guerra”, o seguinte:

“Os países que mais armas vendem ao mundo são os mesmos países que têm sob sua responsabilidade a paz mundial. Felizmente para eles, a ameaça de paz  está se enfraquecendo, já se afastam as negras nuvens, enquanto o mercado da guerra se recupera e oferece perspectivas  promissoras de rentáveis carnificinas no sul do mundo.” --- Mais adiante escreveu ele:

“Na Era da Paz, que é o nome que dizem ter o período histórico aberto em 1946, morreram em guerra não menos que 22 milhões de pessoas. Nunca falta alguma guerra ou guerrinha para alimentar os tele consumidores de notícias. Mas os informadores nunca informam, nem os comentaristas comentam, nada que possa responder às perguntas do último representante do senso comum: Nesta guerra quem vende as armas? Quem está traficando com toda esta dor humana? Quem ganha com a tragédia? É um silêncio nada inocente.”

 

O número de mortos em guerras por ele citado são antigos, se atualizados certamente aquele total aumentaria bastante.

 

Lembro-vos que, se a Assembléia da ONU faz recomendações, quem em verdade decide é o seu Conselho de Segurança. Nele quem manda, conforme o mesmo autor, “são os fabricantes de armas”. E digo mais, segundo o IIEE, Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, quatro nações encabeçam a venda de armas neste planeta, os EUA, a Inglaterra, a França e a Rússia.

 

Por “coincidência” esses países são os que têm direito de veto no referido Conselho de Segurança da ONU, além da China, claro. Convenhamos que na prática o direito de veto significa poder, poder de decisão. Vejam que quem tem em suas mãos o rumo máximo daquele organismo internacional são exatamente quatro países cujas economias dependem, em parte, segundo analistas, das guerras que ocorrem pelo mundo afora.

Na edição de 29.08.2001, da revista ISTO É, na coluna de Cláudio Camargo, estava escrito: “O Comércio internacional de armas faturou US$ 37 bilhões no ano de 2000, 70% em vendas para países do terceiro mundo.” O título daquela  reportagem era “Os mercadores da morte”.  Imaginem a quantas andam os lucros dos fabricantes de armas de guerra hoje em dia?

Aqueles países, além de diversos outros, ainda se dão ao luxo de manterem numa espécie de “depósito em poupança” centenas e/ou milhares de armas da pesada como bombas atômicas, ogivas nucleares, etc. Quando um deles exige que determinada nação se desfaça de seu arsenal de armas de guerra é pura hipocrisia.

Conta-se que quando caiu o muro de Berlim, em 1989, muitas armas da então União Soviética teriam sido desviadas e/ou roubadas e comercializadas alhures. Nas mãos de quem estarão? Nunca houve qualquer controle delas. O arsenal de países como os EUA, por exemplo, é inimaginável para nós. O comércio dessas armas a países que consideram amigos, confiáveis, é livre. Todo mundo sabe.

A relação de nações que fabricam armas e vendem ou que mantêm imensos arsenais é muito maior do que apenas os quatro países citados acima. A Suíça, por exemplo, vende armas, mas se diz contra a violência armada. Estima-se que haja hoje bem mais de 40 nações que fabricam e comercializam armas no mundo.

Segundo me informei através do noticiário internacional, há mais de 600 milhões destas armas em circulação e apenas em 2005 causaram a morte de mais de meio milhão de pessoas, 10 mil por semana. Analistas avaliam que Israel, por exemplo, novamente envolvida em guerra contra os palestinos, possuiria cerca de duas centenas, só de bombas atômicas, em seu grande arsenal.

Antes de perder a sua esperança numa paz mundial, meu amigo, veja se encontra respostas para as perguntas feitas por Eduardo Galeano no artigo acima referido: “Nesta guerra quem vende as armas? Quem está traficando com toda esta dor humana? Quem ganha com a tragédia? É um silêncio nada inocente.”



(10 de outubro/2009)
CooJornal no 653


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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