17/10/2009
Ano 12 - Número 654

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



NOBEL DA DECEPÇÃO


Meus amigos, se comemoramos a eleição do Sr. Barak Obama à Presidente dos EUA, o mesmo não podemos dizer quanto à sua escolha para o Prêmio Nobel da Paz deste ano. Considerei o fato um exagero, um despropósito, embora se saiba que, através dos tempos, nem sempre outros ganhadores do mesmo prêmio tenham sido pessoas que justificassem aquela honraria.

Confiamos em muitas das promessas que o Sr. Obama fez durante sua campanha e esperávamos que a era Bush, o tempo de guerras, de intimidações, sempre justificando uma luta contra o terrorismo internacional, tivesse agora outros rumos. Parece, entretanto, que o novo Presidente americano levou a sério o dito popular de que “palavras são palavras, nada mais que palavras”. Infelizmente acreditamos numa palavra, na dele.

Agora começo a traduzir sua expressão que ganhou o mundo, isto é, “Yes, we can”, em sentido bem diferente do que levou pessoas às lágrimas. Prefiro estar errado, mas quando ele afirmou “Sim, nós podemos”, estaria se referindo a continuar a exercer o domínio que o Estado americano sempre procurou ter sobre o que eles chamam de “o resto do mundo”?

Já li artigos contrários à indicação do Sr. Obama para o Nobel da Paz, tanto em nossa mídia tupiniquim como na internacional, especialmente nesta. Tenho sopesado argumentos, denúncias, dos mais moderados aos mais agressivos, veementes e hostis. Estes nem por isso fugiram à regra: a entrega do Nobel da Paz a Obama, neste momento, ganha conotações que ainda mais empanam o mérito deste Prêmio. O maior dos argumentos tem sido a precipitação na indicação.

Decidi ficar com os fatos relacionados pelo jornalista português, Vasco Pulido Valente, em crônica publicada no jornal “O Público”, edição de 11 do corrente. Ele lembra promessas que o Sr. Obama ainda não cumpriu e nem parece disposto a isto por ora. Vamos recordar algumas:

“A prisão de Guntánamo, na Ilha de Cuba, ainda não fechou; a prática de seqüestrar putativos terroristas em países “terceiros” não acabou; também ainda não acabou a prática anterior de prender suspeitos de terrorismo, dentro e fora da América, e de os tratar como “no campo de batalha, entre outras práticas”.

Lembremos também que o Sr. Obama não só não quis condenar como sequer se dispõe a investigar os crimes do governo Bush, especialmente a tortura. Lembrou aquele jornalista que “ele sequer limitou ou diminuiu a secrecidade e o arbítrio do Estado segurança. Isto quanto aos celebrados direitos do homem e à convivência amigável entre a América e o islão, em que ele proclama acreditar.”

Quanto ao Iraque, meus amigos, lembremos que Obama ainda insiste na estratégia de seu antecessor, Bush. E pior, adiou a prometida “retirada” das tropas americanas para 2012. Fica bastante evidente que ele quer, como se diz por aqui, empurrar o problema com a barriga.

Na verdade ele fez ainda pior em relação ao Afeganistão, pois, ao que consta, ele resolveu reforçar suas tropas por lá. Mandará 20.000 homens até março e talvez outros 40.000 até o fim do ano. O jornalista português, assim como outros que tenho lido, entendem que Obama parece pretender alargar aquela guerra ao Paquistão. Não custa também recordar que o atual Nobel da Paz consentiu na eleição falsificada de Karzai.

Em relação à guerra no Afeganistão, parte da imprensa internacional manifesta certo temor. Eles receiam, e eu também, claro, que aquilo por lá se transforme num Vietnã, mil vezes pior, ou seja, uma aventura sem qualquer sentido, sem fim, e que ameaça envolver a Índia e talvez até a China.

Saibam, meus amigos, por informações que temos coletado na mídia em geral, que os taliban ocupam hoje grande parte do Paquistão e, segundo o jornalista luso, encontram-se “publicamente protegidos pelo Exército local como “reserva” contra a Índia.” Numa análise ainda mais abrangente pode-se afirmar que Obama não avançou nada em relação ao Oriente Médio.

O Sr. Vasco Valente receia, inclusive, a ocorrência de uma nova Intifada. Para quem eventualmente não se lembre do significado deste termo, esclarecemos aqui: “Movimento insurrecional palestino contra a ocupação israelense da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.” Pois foi a este homem, Barak Obama, que a Real Academia Sueca de Ciências houve por bem de entregar o galardão referido como Nobel da Paz deste ano. Digam o que disserem, mas foi mesmo um ato precipitado.

Registro aqui o que declarou a Senadora colombiana Piedad Córdoba, palavras que retirei de outro texto que recebi, este assinado pelo jornalista Raul Fitipaldi, a mim enviado pela amiga, excelente escritora, Urda Alice Krueger:

“Espero que, depois de ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, rechace definitivamente o acordo para a instalação de sete bases militares do seu país em território colombiano...”

Eu não chegaria ao extremo de considerar que “A Obscenidade do Império obtém o Diploma da Paz”, título do texto que li, de autoria de Raul Fitipaldi, todavia considerando também os elogios que o Sr. Obama fez ao seu antecessor, estaria o cronista longe da verdade?

Por outro lado, eu preferia que a tal Real Academia declarasse ao mundo não ter encontrado, este ano, alguém merecedor de receber o Nobel da Paz. É, mas parece que eles preferiram eleger uma Mentira.

Num mundo cheio de tantas guerras, onde a verdadeira paz não passa de retórica, ou como diz o dicionário “adornos pomposos de discursos vazios de conteúdo”, entregar um Nobel da Paz é, na minha opinião, continuar a zombar da Verdade.




(17 de outubro/2009)
CooJornal no 654


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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