07/11/2009
Ano 12 - Número 657

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



SAUDADES DA DITADURA?!

 


Amigos, muitas têm sido as críticas ao atual governo enfocando os inúmeros escândalos de toda ordem, os conluios entre políticos envolvendo até mesmo parte da chamada oposição, os programas demagógicos, assistencialistas, o inchaço brutal da máquina governamental a consumir uma arrecadação que tende a crescer pela idéia fixa na criação de novos impostos cujos objetivos jamais são aqueles declarados oficialmente, a corrupção desenfreada, desavergonhada e incontrolável, embora esta não tenha “nascido” hoje neste país, entre outras coisas.

Todas essas críticas, na minha visão, são justas, e eu mesmo as tenho feito. Isso me leva, porém, ao que costumo ver nesta internet escrito por pessoas que sequer assumem a autoria do que divulgam ou mesmo, e pior ainda, que copiam textos, enxertam com palavras suas, aumentam o tamanho das letras, fazem-no com cores variadas, e ainda nos “ordenam”: “REPASSEM”... “ISTO PRECISA CHEGAR AO CONHECIMENTO DE TODOS”... entre outras palavras de ordem.

O nome do autor, colocado ao final do texto que acaba por ficar meio carnavalesco, nem sempre é confiável. Já descobri diversas falsificações. Mas há sempre quem repasse aquilo julgando estar a fazer uma crítica correta, ou a colaborar com uma. Da minha parte, geralmente desconfio das intenções de quem se esconde no anonimato ou se vale de falsa autoria para divulgar suas idéias, ou suas críticas. E bem sabemos que neste espaço virtual habita gente dessa laia.

Infelizmente há também os incautos ou “desavisados” que acabam repassando mesmo sem conhecer a origem ou a autoria do que quer que seja. Poderiam ser mais cautelosos. O pior é que quando fazemos ver isso a alguns, com a melhor das intenções, nem sempre vemos nossa atitude ser bem acolhida. Por outro lado, há os que nos agradecem e até procuram se redimir pedindo desculpas aos seus amigos.

Mas vamos agora ao que me levou a escolher o título acima para esta crônica. Outro dia chegou-me certa mensagem que trazia um anexo. Neste estavam o que chamaríamos de “fichas corridas” de diversas pessoas, entre elas o atual Presidente da República, Lula, e membros do seu governo. Mas não apenas eles, havia lá figuras que não conheço e até uma artista antiga, ainda em atividade, pela qual tenho o maior respeito e é merecedora dos nossos melhores aplausos.

Naquele autêntico “fichário” constava, no alto da folha de cada um, a palavra “Terrorista”. Pelos dizeres que li em todas elas havia uma espécie de histórico de cada um durante o regime militar. Claro que tendo fotos atuais de cada personagem tudo não passava de uma montagem, mas os dizeres, estes sim, podem ter sido copiados dos antigos arquivos da ditadura.

A palavra “terrorista” é perfeitamente explicável, pois os que se empenharam, cada um à sua maneira, buscando ter de volta a liberdade, contra o então regime de exceção onde prevalecia uma forte censura a todos os meios de comunicação, onde a liberdade de expressão fora cassada, onde o Congresso fora fechado por um simples Ato Administrativo, onde muitos dos que foram pegos pelejando contra o regime vigente, ou apanhados por informações dos chamados “dedos duros”, chegaram a ser presos, outros torturados, outros mortos (lembram do jornalista Wladimir Herzog?), etc, estes eram naturalmente considerados “terroristas”.

Porém, na mensagem que me chegou, o autor do encaminhamento (não a pessoa que me enviou) quis dar a entender que todos ali eram, além de “terroristas”, comunistas. Que alguns fossem comunas, não discuto, mas generalizar é ser mal intencionado e isso me preocupa e me assusta a esta altura da vida. Aliás, me lembra o execrável slogan do regime... “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Pelas palavras usadas, o autor me levou a crer não admitir que muitos brasileiros pudessem não apoiar o regime imposto à força, que tirou do poder um governo legitimamente constituído, e que de alguma forma tentassem manifestar seu desagrado, sua repulsa, sem serem comunistas, mas brasileiros e patriotas, sim senhor. Será que ele o é? Onde esteve durante os anos 60 e 70? Já teria nascido?

Confesso, tomara esteja errado, que o autor mais pareceu ter oculta uma segunda intenção, a de justificar aqueles anos de um regime de severa ditadura que só nos oferecia duas opções: ser a favor ou contra ele. Ser contra, era ser comunista, pensar diferente, era ser comunista, imaginem enfrentar o regime?!

Se ele pretendeu fazer campanha contra o atual governo, seus desmandos e escândalos, eu lhe mando um recado: prezado, isso não é fazer uma campanha séria, ética, dignificante, contra tudo que nós também condenamos e que nos tem levado a uma oposição severa, porém, tendo consciência da responsabilidade do que dizemos, do que criticamos, do que denunciamos, sem embaralhar situações completamente diferentes em regimes totalmente opostos. Não é por aí.

Lembro ao autor que se hoje ele não tivesse liberdade de expressão, se não estivéssemos numa democracia, jovem, capenga, mas verdadeira, ele jamais teria montado aquele imbróglio e muito menos o teria divulgado e se jactado de defensor de um regime democrático que ele parece confundir com autocracia. Me permito ver no seu gesto e nas palavras contundentes usadas no encaminhamento um certo tom de saudosismo do regime de exceção. Mal disfarçado, é verdade.

Hoje fico por aqui, todavia prometo voltar ao assunto breve para mostrar que não apenas “comunistas” foram perseguidos por aquele regime. Para encerrar lembro apenas o nome de Carlos Lacerda, político reconhecidamente de direita, que apoiou o Golpe e logo depois teve que fugir do país, pois queriam prendê-lo, mesmo ocupando o cargo legítimo de Governador da Guanabara. Eu vi os tanques de guerra, em certa madrugada, passando pela Rua do Catete e dirigindo-se ao Palácio das Laranjeiras, sede do Governo Estadual. Mas Lacerda já fugira.

Até a próxima conversa, amigos.



(07 de novembro/2009)
CooJornal no 657


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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