28/11/2009
Ano 13 - Número 660

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



MORTE E VIDA, PASSARINHO


Foi há poucos dias atrás. Marlene limpava nosso quintal retirando as folhas caídas da mangueira quando de repente ela percebeu um corpinho bem pequeno caído no gramado. Aproximou-se e viu que era um filhote de passarinho. Certamente ele havia caído do ninho que estava na mangueira.

Ainda com vida ele abria e fechava o biquinho como a implorar por comida ou água. Juntei-me à Lena e ficamos pensando o que deveríamos fazer para tentar salvar-lhe a vida. Recolocá-lo no ninho não dava, este estava em local muito alto, não o alcançávamos.

Precisávamos também ter atenção com nossos cachorros, pois poderiam vê-lo e até matá-lo, especialmente Tuane. Elemento estranho em nosso quintal nunca é bem visto por eles, claro. Afinal eles se consideram donos do pedaço, como dizem.

De repente Lena teve uma idéia e logo a pôs em prática. Pegou um pano meio grosso e o colocou dentro de um pequeno vaso de planta, improvisando um ninho. Meio sem jeito é verdade, porém o passarinho poderia ficar protegido ali. Em seguido colocou-o entre os galhos de uma de nossas árvores de acerola, bem ao lado da mangueira.
 


Jogamos com a sorte de que os pais do filhote pudessem vir socorrê-lo, trazendo-lhe comida e dando-lhe calor e carinho. Vez ou outra observávamos tudo de longe e ficamos preocupados quando percebemos que os passarinhos estavam aflitos a voar de um lado para o outro mas não se aproximaram do ninho improvisado. Nada mais nos restava fazer, só torcer e esperar.

 


Anoiteceu, esfriou bastante e tememos pelo pior. No dia seguinte fomos conferir e vimos que nosso amiguinho, abandonado pela sorte, estava já sem vida. Lembramos então de outro episódio, faz alguns anos, na minha casa do bairro do Braga, quando tentamos ajudar um passarinho ferido. Ele não conseguia mais voar e estava mesmo sem forças. Acabou desfalecendo nas mãos de Lena recebendo nosso carinho e atenção e, porque não dizer, algumas lágrimas.

Mas, após a tristeza da morte de outro passarinho tão próximo a nós, veio a alegria cinco dias depois. Marlene estava novamente a limpar o gramado que vai até à frente de nossa varanda externa quando se deparou com uma cena que a fez sorrir e me chamar de imediato para também ver.

Temos um pé de laranjas bem na curva do gramado quando ele segue para a entrada principal da casa. A árvore é pequena e entre alguns de seus galhos estava lá aquela imagem que apagou de nossa mente a triste cena da morte do outro passarinho, ainda filhote.

 


Um belo ninho e sobre ele a mãe atenta e vigilante chocando os ovos. É promessa de vida que se renova. Ficamos felizes. Em nosso quintal já encontramos diversos desses ninhos vez ou outra. Acreditem que a mãe não abandona o ninho, em hipótese alguma, e nem se assusta com a nossa presença.

Nos dias seguintes íamos lá de manhã, à tarde e mesmo no começo da noite e lá estava a mãe amantíssima zelando por seu futuro filho sentada sobre o ovinho. Perguntariam: e ela não se alimenta, não bebe água? Por alguns movimentos de outro passarinho que vimos a entrar e sair de lá acreditamos que o pai é quem providencia o sustento da zelosa mamãe.

Certa noite decidi ir devagar, com a lanterna na mão, por volta das 22 horas, verificar se estava tudo bem no ninho. Confesso que me emocionei mais ainda. Sentados, juntinhos, um para cada lado, estavam pai e mãe do filhote, ainda em “gestação” nos ovos. Procurei não os assustar e saí rápido.

Gente, isso é muito lindo, não sei como há pessoas capazes de fazer mal a esses pequenos seres com pedras e estilingues. Desculpem o que vou dizer, mas é o que sinto: ah se alguns seres humanos se parecessem mais com os animais, certamente seriam mais racionais...

Eu amo a Natureza e sempre digo que se Deus existe mesmo não pode estar em outro lugar que não seja nela. As semanas foram passando e nossa ansiedade aumentava, queríamos ver o filhote, vivo, um ser que daí a mais algum tempo estaria integrado ao nosso ambiente, voando, cantando, alegrando a vida.

Certa manhã dei por falta da mãe no ninho, mas reparei que lá estava o filhote já bem crescidinho. A mãe costumava abrir as asas no ninho e com este movimento protegia o filho escondendo-o de nós, só podia ser isso. Aproveitei aquele instante raro e tratei de documentá-lo, fotografando o filhote. Momentos depois a mamãe estava de volta ao ninho. Fiz então a foto mais linda: a mãe junto com seu filhote, no ninho. Sinceramente que aquilo me comoveu e não podia ser diferente.
 


Havia realmente só um filhote que, hoje, quando estou terminando esta crônica, já está bem grandinho, e de repente percebi que ele saíra do ninho. Encontrei-o escondidinho pelos pais atrás de um vaso de plantas, numa quina de nosso muro, protegido da nossa cadela Tuane. De quando em vez os pais chegavam e logo saíam. Esperei para ver se ele enfim conseguiria voar.

Havia uma grande ansiedade tanto em nossos corações como na natureza. Outros passarinhos se agitavam e cantavam. Vida renovada. Uma hora depois voltei ao local onde o vira, no gramado e..... nosso querido filhote já aprendera a voar. Já seguira o seu rumo, o seu destino, junto com seus pais. Mais tarde nós vimos um passarinho bem pequeno pousado no muro em frente à árvore do ninho.

Só podia ser ele, sim, era ele que retornava para nos dizer talvez que estava tudo bem e agradecer todo o carinho que pudemos ter durante seu crescimento sem permitir que nada lhe acontecesse de mal. A Natureza também nos ajudou.

Morte e Vida Passarinho, na seqüência da roda da vida.


 

(28 de novembro/2009)
CooJornal no 660


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
http://www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-021.htm
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/francisco_simoes.htm
www.franciscosimoes.com.br 

Direitos Reservados