13/02/2010
Ano 13 - Número 671

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões



Do antigo hoje sou rei

Certo dia, no começo de dezembro do ano passado, recebi esta pequena, mas significativa mensagem, vinda a mim pela lista do bom amigo, conterrâneo, e excelente poeta Alberto Cohen.    

Li e reli, senti não só o lamento, não só um toque de amargura, como a força dos versos de um poeta. Me emocionei.

Mergulhei fundo nas palavras, no sentido do desabafo, na tristeza mal escondida nas entre linhas, numa espécie de despedida que me assustou. Achei que eu não alcançara o verdadeiro sentido daquele pequeno texto em prosa que, se posto em versos, talvez até fizesse mais justiça ao seu autor.

Mas ele não queria justiça, não, ele desejava mesmo era extravasar o que lhe doía na alma, o que lhe tocava forte no coração sofrido, carregando também uma pesada saudade do passado. Foi o que me pareceu.

Lendo e relendo novamente aquelas linhas percebi mais ao seu final uma ponta de esperança, um orgulho sem vaidade, porém como dignidade pessoal, um auto reconhecimento merecido pelo talento com que sempre escreveu tanto em prosa quanto em verso.

Eu diria, um poeta completo, reconhecido, aplaudido, premiado... e meu amigo. Me orgulho de ter sua amizade. Vamos então ler o que me escreveu este meu grande amigo e conterrâneo, amizade que vem desde nossa infância: 

“Nem sei mais se vale a pena. Estou muito cansado, não disputo nada, nada. Sou apenas um de saída e o que vai ficar não importa. Sou apenas “pregonauta” de tantos dias que foram, de dias que não ficaram, de dias que não verei. A vaidade é coisa tola. A ambição é coisa antiga. E do antigo hoje sou rei.”

Claro que vai valer a pena sempre, meu bom amigo, sempre. O que tem valor, o que é verdadeiro, o que já foi consagrado pelo teu talento, será eterno não apenas enquanto dure, como disse Vinicius de Moraes, mas a eternidade te saudará sempre. O teu caso de amor com a poesia e com a própria vida jamais poderá ser apagado ou esquecido por quem te conheceu e te reverenciou.

O cansaço é natural da vida, do longo caminho que vamos percorrendo. Não precisas disputar mais nada, mesmo, até porque nada mais precisas provar a ninguém. Já escreveste a tua história de poeta, dos melhores, resta agora que aqueles que ainda se mantêm calados, quebrem o seu silêncio injusto e te cubram com as glórias a que fazes jus de há muito.

Não fala aqui só o amigo de tantas décadas, fala o coração de quem é fã do teu maravilhoso trabalho já consagrado em tantos livros e tantas premiações.

Ainda é cedo para te julgares “saindo de cena”, meu bom poeta. Perdoa se discordo aqui do que dizes, com todo o respeito, o que vai ficar importa, e importa muito, pois quando realmente partires, como todos o faremos um dia, terás deixado uma obra digna de muitos aplausos.

Quantos irão aprender com teus versos? Quantos irão poetar porque lhes deixaste o caminho aberto? Quantos lamentarão então, quem sabe, não ter te conhecido?

Tua veia poética também te ditou ... “de tantos dias que foram, de dias que não ficaram, de dias que não verei.” Demonstraste, na minha modesta visão, uma certa saudade do passado e uma preocupação com o futuro. Para este teu “passeio” no tempo criaste uma palavra, “pregonauta”, mas e daí? Quantos mestres já não o fizeram, na poesia, na prosa, na música? Drummond é um desses exemplos.

A mim revelaste a intenção de, no sentido figurado, te colocares como um “pregador astronauta”. Afinal o verdadeiro poeta quando verseja deixa não só falar o seu coração como navega num cosmo que o envolve num etéreo de elevada e sublime inspiração. Falo dos verdadeiros poetas, como tu.

Pregador o és, sim, mas no sentido da palavra que visa a defender e a semear o belo, aquilo em que acreditas, o amor que te alimenta o viver, a natureza que te rodeia e te saúda, a força que te dá coragem e disposição para não desistires nunca, e mesmo a dor quando grita mais alto que o silêncio dentro do peito.

Um D. Quixote moderno que me faz entender claramente quando afirmas... “Do antigo hoje sou rei”...  A vaidade venceste há muito tempo, a ambição jamais te seduziu, o sucesso sempre mereceste, só que lamentavelmente o reconhecimento costuma ser lento. Mas, amigo, já estás consagrado.

 

(13 de fevereiro/2010)
CooJornal no 671


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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