20/02/2010
Ano 13 - Número 672

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões


OLHO POR OLHO?!

Há um velho ditado que diz “olho por olho, dente por dente”. Nem preciso explicá-lo porque é fácil de entender seu sentido. Por incrível que pareça ainda há gente, no mundo de hoje, que o prega e, se tivesse poder, o poria em prática.

É como acreditar que para se combater a violência reinante deve-se usar de mais violência, esta, a oficial, a policial. Matou, tem que morrer. Estuprou, tem que morrer. Roubou e mais roubou, tem que morrer. Nem precisa ir a julgamento.

O pior é que há quem acredite nisso. Afinal como a justiça anda falhando muito e atuando muitas vezes feito cágado, acham que podem pisar no direito, nas leis vigentes, e impor a “justiça pelas próprias mãos”. Só que para não sujarem as suas sugerem as da polícia.

Esquecem, ou não querem se lembrar, que se pena de morte fosse solução para violência os EUA seriam um paraíso, e todos sabemos que não é, muito pelo contrário. Mesmo lá a pena de morte só vige em certos Estados. Aqui, o que alguns querem, irritados com a evolução da violência, é um retrocesso.

Tanto o tráfico como a violência que imperam em nossas ruas não começaram ontem, nem hoje, vêm de bem longe. Há cerca de uns vinte anos, ou pouco mais, eu comentei com minha saudosa Zezé, que se nada fizessem contra o que já víamos numa progressão ainda pequena, mas nem menos alarmante, logo seria muito difícil combater o crime que acabou se tornando em “organizado”.

Quantos governos se sucederam a nível federal e estadual, estes, seja no Rio, em São Paulo ou outros Estados, que foram deixando, digamos, a “rédea frouxa”? Nada fizeram. Era evidente que a coisa se agravaria, não precisava ser muito inteligente para entender e concluir isso. Que interesses poderia, ou pode, haver por trás de tanto descaso? É muito estranho.

A situação está realmente alcançando um nível insuportável. Já não se tem segurança nem a mesma tranqüilidade de antes, em cidades do interior do Brasil. Eu vivo em Cabo Frio, sempre considerei isto aqui um lugar delicioso para se viver, porém já fomos invadidos por “demônios”, certamente vindos de fora, que tentam transformar em inferno o que tenta ainda ser um paraíso.

Mas, voltando aos defensores do “olho por olho, dente por dente”, eu já fiz perguntas que ficaram sem respostas. Vejamos: eles querem que ladrões, estupradores, matadores de mendigos etc, sejam pegos e, sem qualquer julgamento, simplesmente fuzilados, chegando alguns ao requinte de, por saudade dos métodos da ditadura, pedirem alguma tortura para aqueles marginais.

E vejam que alguns chegam mesmo a dizer abertamente sentirem “saudade da ditadura”. Engraçado, esquecem ou fazem que não se lembram também, que se vivêssemos sob uma ditadura eles não estariam a escrever essas coisas. Não no sentido de que não precisássemos reclamar, denunciar, não, apenas porque simplesmente as mazelas que ocorriam no regime de exceção, e como ocorriam, tinham a censura braba a impedir qualquer denúncia. O resto é muito mal gosto com certos sintomas de loucura, porque mal informados eles não são.

Curioso que defendem, por exemplo, o comportamento da polícia da China comunista, que mata sem dó nem piedade, algumas vezes mesmo sem julgamento, porém se dizem radicalmente contra o regime comunista!!! Condenam veementemente o que Fidel fez em Cuba, mesmo sem conhecerem toda a história daquela Ilha, porém insistem numa espécie de “paredão”, aqui, do qual se valeu Fidel, em Cuba, por um tempo, mas no terreno da luta política. Haja incoerência.

As perguntas que apresento são essas: digamos, admitindo o absurdo dos absurdos, que vigorasse a tal “lei do cão”, ou os condenáveis “esquadrões da morte”. Muito bem, mas se alguns estupradores e matadores de mendigos forem filhos de gente importante, talvez de políticos influentes, ou mesmo Ministros, sei lá, eles aplicariam a tal “lei” para valer? Sabem que isso já ocorreu no Brasil, diversas vezes, e os meliantes nem foram a julgamento, muito menos presos.

No Rio, talvez em S. Paulo também, a polícia já descobriu, em casos de assalto a residências e a Bancos, pessoas da chamada classe “A”. Isso já foi muito noticiado. Não raramente também jovens de classe alta se reúnem e agridem covardemente eventuais “rivais” ou torcedores do time contrário ao seu, em alguns casos havendo morte. Como agiria a tal polícia da “lei do cão”?! Por favor, não vale mentir.

E quando filhos de pais ricos tramam a morte deles, os executam na forma mais traiçoeira e covarde, que aconteceria? Ou quando uma autoridade, digamos, algum político, ou mesmo Juiz, sendo réu confesso de assassinato de pessoa indefesa, aplicariam o “olho por olho, dente por dente”? Por favor, não sejam hipócritas na resposta. Sabem muito bem que isto acontece agora e os suspeitos, ou mesmo réus confessos, estão em liberdade. Mudaria alguma coisa?

Desculpem, mas se responderam SIM sou obrigado a dizer que estão mentindo. Sabem que estão. Neste país só pobre, ou filho de pobre, desempregado, mendigo, é que sofrem as tais “penas da lei”. Sempre foi assim, ou seja, sempre passaram por cima do que reza na nossa Constituição que diz que “somos todos iguais perante a lei”. Aqui o sol nunca nasceu para todos, não pelo menos no sentido mais filosófico da afirmação. O resto é história do boi tatá, como diz Washington Rodrigues.

Quantos corruptos e larápios do dinheiro público já chegaram a ser presos pela Policia Federal e logo a seguir foram soltos pela atuação de seus caros advogados? Mais, houve até um Juiz muito influente que, de público, ainda reprovou a atitude da PF por ter algemado os meliantes de gravata. Ora, ladrão pego no flagra deve ser o quê? Algemas parece que só devem ser usadas em ladrões pequenos, sem influência social. Quanto preconceito, quanto elitismo, quanta hipocrisia.

Os que defendem aquele “absurdo legal” fingem não entender que precisamos é de mais polícia, bem treinada, bem remunerada, bem equipada, investimentos maiores em inteligência, em investigação, e, naturalmente, maior interesse e participação ativa de nossas autoridades. Essas, porém, só tratam desses assuntos para fazerem demagogia política. Adoram câmeras de Tv. E nos obrigam a votar!

O “dura lex, sed lex”, pregado por alguns que conheço, jamais será (ou seria) aplicado, neste país, aos gatunos de paletó e gravata. Nem se prevalecesse o “olho por olho, dente por dente”. Quando muito aplicariam tratamento seletivo na base do “diga-me com quem anda e decidirei se o mato ou o devolvo a sua “atividade”!!!

Larga de hipocrisia, gente, tenta ajudar, mas não propondo mais violência, isto jamais foi solução para nada, em qualquer tempo, ou qualquer sociedade. Apenas mascara a verdade. Esta voltará sempre à tona. Pensa, raciocina, cai na real.


 

(13 de fevereiro/2010)
CooJornal no 671


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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