27/02/2010
Ano 13 - Número 673

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


NA LINGUAGEM DO CORAÇÃO

Algumas vezes eu já escrevi sobre meus sonhos, sonhos de vida, sonhos de realização, sonhos de chegar a algum lugar distante, e eu cheguei a tantos, tantos, no Brasil e no exterior. Não posso me queixar da sorte quanto a isso.

O único sonho que jamais se realizou foi o da paz mundial. No que depende mais de certos seres humanos é melhor nem sonhar. Parece que o poder, a usura, o anseio de soberania, de domínio, são incompatíveis com uma verdadeira paz. Este pesadelo nós teremos que o viver sempre, enquanto o mundo for mundo, enquanto os homens não entenderem sua verdadeira missão neste planeta, nesta vida.

Lembro-me de já ter falado também dos meus sentimentos mais profundos. O amor comanda este grupo. A partir de quando aprendi a olhar nos olhos, a perceber os sinais mais singelos numa troca sem palavras, comecei a entender o que era amar. Se alguns afirmam só ter tido um amor na vida, eu não posso dizer o mesmo. O cupido me tocou pela primeira vez ainda bem jovem.

Naturalmente que antes a Escola da vida me foi ensinando a discernir entre amar e apenas sentir desejo. Neste caso vivi alguns bem intensos. Minha juventude até que foi pródiga em me fazer maduro desde cedo. Saudade de tempos em que meus sonhos voavam baixo, meus sentimentos eram correspondidos, plantando muitas sementes num limiar de felicidade juvenil quando as rosas não exibiam espinhos.

Claro que também namorei no sentido de namoricar, as pequenas aventuras, as ligações amorosas passageiras e inconseqüentes. Apesar de tudo algumas deixaram marcas e recordações que me seguem até hoje. Felizes tempos. Logo percebi quando chegou o verdadeiro primeiro amor. Durou um bom tempo, fui feliz, mas acabei falhando. Eu errei, eu abandonei.

Paguei caro depois, muito caro. Foi quando a vida começou a me exibir seus primeiros espinhos. Eu sangrei. Mereci. Quase me afoguei numa solidão torturante que jamais se solidariza, que não nos perdoa, apenas castiga. Você se sente só, mesmo na multidão, o ar que respira se torna pesado, é quase uma morte em vida.

Apesar de tudo a vida me ofereceu nova oportunidade. Reencontrei o amor e conheci a felicidade mais profunda. Mas, parece que tudo tem um preço, e de alguma forma a vida nos cobra saldos remanescentes do passado sobre um presente que julgamos seja quase infinito. Não, não é.

De repente vi o lado negro de alguns pesadelos que eventualmente me atormentavam. Pesadelo também é sonho, opressor, aflitivo, carrasco. Voltei à solidão, um vazio ao qual ninguém se acostuma. Eu fora como que despejado de um longo viver do qual o amor que me fizera feliz estaria com hora marcada para chegar ao adeus. É como escrevi no poema “Passando o Tempo”... “O tempo mede a vida com a régua do destino”. Deste parece que ninguém foge.

Foi-me dado um fardo que custou muito para carregar. Felizmente também foi deixado comigo algo por demais valioso, um sinal de esperança, a mão amiga que não deixaria eu me afogar no desespero, a voz que me ensinaria ainda haver vida para além do sofrimento. Depois de algum tempo vi o sol nascer novamente na minha já longa existência. Aos poucos saí das trevas que embaçavam a minha fé na mesma vida. Como que renasci mais uma vez.

Hoje eu sinto, mais do que nunca, o quanto nos faz bem, o quanto valoriza nossa existência, não só o ter uma amizade leal ao nosso lado, mas o viver em solidariedade. O poder ver rostos que sofriam com dificuldades imensas conhecerem o sorriso da felicidade, do bem estar, do amor compartilhado.

E tudo, afinal, se vai realizando com tão pouco, tão pouco mesmo. Existe paz, existe harmonia, existe família no melhor e mais organizado dos sentidos. Parecemos uma irmandade familiar, vivendo em união fraternal, constantemente a me dar lições de que jamais devemos desistir da vida.

Na linguagem do coração, amigos e amigas, eu lhes confesso que a felicidade, o amor, a confraternidade, não dependem de regras, nem de dogmas, nem de cartilhas tantas que nos impõem pela vida afora.

Elas dependem sim de nós mesmos, do respeito mútuo, da amizade leal e fraterna, do não ultrapassar limites, do enfrentar problemas, inevitáveis, sem fugir deles, porém jamais permitir que se arrastem no dia a dia do nosso viver.

A vida me ofereceu esta segunda grande chance e eu a abracei, e continuarei abraçando, um abraço imenso em que se entrelaçam muitos corações, uma grande família como eu já tive no passado. Vida que segue.


 

(27 de fevereiro/2010)
CooJornal no 673


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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