06/03/2010
Ano 13 - Número 674

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


AMIGOS, ATÉ QUE PONTO?


Na minha opinião, respeitando as contrárias, amigos se conhece melhor, bem melhor, com o tempo, podem crer. Amizades se iniciam de várias formas. As pessoas se conhecem em algum lugar, em algum tempo, de alguma forma.

Os amigos de infância costumam ser os que mantêm uma afeição mais durável. Eu percebo isso em muitos que, até hoje, mantêm comigo a velha amizade como irmãos de coração, mesmo eu tendo saído de Belém no ano de 1960, ou há 50 anos, e morando tão longe de minha terra natal. É o caso do amigo Armando Avellar.

Acredito que a amizade verdadeira independe de distância para se manter. Vez ou outra já recebi recados de pessoas que nunca mais vi. Amigos de infância reencontrei nesta internet, alguns aqui também divulgando seus trabalhos. Neste caso está o poeta Alberto Cohen, além do seu irmão, o amigo Miguel Cohen, que vive em S. Paulo. Nos reencontramos exatamente aqui.

Com o tempo você muda de trabalho, muda de cidade, e vai fazendo outras amizades, esta é uma rotina natural. É inevitável que haja amigos e amigos. Os mais fiéis, os que nos acompanham sempre, não se fazem surdos nem mudos aos nossos recados, pelo contrário. Estes respeitam os nossos hábitos, os nossos costumes, os nossos credos, ainda que diferentes dos deles.

Aqui vou colocar o que colhi em Clarice Lispector: "Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato...Ou toca, ou não toca. E se me achar esquisita, respeite também, até eu fui obrigada a me respeitar." Concordo plenamente com ela. O verdadeiro amigo nos respeita, não tenta mudar nossos hábitos, nem nos abandona pelas nossas diferenças, certo?

Por eu considerar certo é que acabo tendo algumas decepções, o que, no correr de nossa vida, também é mesmo inevitável. Por exemplo: você fica longo tempo sem ter notícias de alguém e de repente você o reencontra, digamos, neste espaço virtual. Eu disse, “você o reencontra”, mas a recíproca terá sido satisfatória? Algumas vezes sim, e nada nos proporciona maior alegria, maior satisfação, quando este reencontro ocorre reciprocamente. O amigo também nos reconhece.

Já tive alguns momentos de grande felicidade, até recentemente, ao descobrir um ou outro amigo da antiga, com quem eu não falava há muitos anos. Voltamos aos contatos e isso é o que esperamos do verdadeiro, do autêntico amigo. Obrigado.

Dentre esses com quem trabalhei no Banco do Brasil, tirando “os que já partiram fora do combinado”, como diz o grande Rolando Boldrin, (TV Cultura), sobraram ainda amizades daquelas que se leva pela vida afora. Aliás, há uma frase atribuída a Vinicius de Moraes, mas que não é dele e sim de Garth Henrichs e que diz: “A gente não faz amigos, reconhece-os.”

Neste texto de Henrichs, cujo título é “Meus Secretos Amigos”, a certa altura ele afirma: “A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade, e eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!”

A propósito de reencontros, nem todos infelizmente acabam tendo um final feliz. Você descobre o e-mail de um antigo companheiro com quem esteve por anos, ombro a ombro, a desenvolver um belo trabalho. Depois com a aposentadoria cada um vai para um lado. Até aí tudo normal. Você sabe que tem muitos motivos para manifestar sua alegria ao achá-lo, digamos, na internet. Escreve para ele, ou eles.

Fica no ar aquela ansiedade da espera, da resposta, da contra partida de uma amizade antiga. De repente eis que as palavras que lhe chegam quase lhe pedem para não incomodar, para não insistir no gesto. Você pensa: que teria acontecido? Quem mudou durante este tempo? Não quer acreditar, pode ser um mal entendido e você insiste no contato. Mas, é como se o empurrassem escada abaixo, e lá embaixo nem o tapete amortece a queda. O tapete também foi tirado.

O melhor é esquecer. É triste, porém, creia, você não perdeu um amigo, não, você pensou, nos velhos tempos, que tinha mais um amigo. Enganou-se ou foi traído. Ainda que o fato se repita umas três ou quatro vezes, sare esta ferida com tantos outros que retornaram ao seu convívio, com alegria, em clima de festa. O reencontro é a amizade que se renova. Já o desprezo é a evidência da deslealdade, da perfídia, da traição. Vida que segue.

Durante nossas quatro longas estadas em terras européias, especialmente em Portugal, colecionamos amizades que permanecem até hoje comigo. Cito o bom amigo Fernando Bento, jornalista e fotógrafo dos melhores, e sua esposa Conceição, o Luiz e a Ilda, a nossa Sofia Rito e o Sr. João, da Agência de Viagens Royal, que conhecemos ainda em 1989, a queridíssima D. Carolina, a quem já dediquei uma crônica, e o Francisco Ruas, meio sumido. Quantas saudades.

Nesta internet, através do meu trabalho, tenho colecionado amigos e amigas de toda parte do país e mesmo do exterior. Uns permanecem, outros somem e depois voltam. Mas, vão sempre chegando novos que vêm a mim por várias razões.

Permitam-me incluir aqui algo que encontrei em Gibran Khalil Gibran: “Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, pois cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho, mas quando parte, nunca vai só nem nos deixa a sós. Leva um pouco de nós, deixa um pouco de si mesmo. Há os que levam muito, mas há os que não levam nada.”

Dedico essas palavras de Khalil Gibran aos verdadeiros amigos, àqueles que, escrevendo menos ou escrevendo mais, falando menos ou falando mais, nunca nos abandonarão. E aqui decidi parodiar, com a devida modéstia, o Mestre Drummond, dizendo para sinceros amigos da antiga do BB:

“E agora... Renato, Floriano, Manuel, Amaro, Gondim, Reinaldo, Trigueiro, Lula – o bom, Agnaldo, Júlio, André, Luis Antonio, Comiotto, Orlando, Papinho, Telmo, Cortezia, Zé Luis e Otávio... o tempo voou, a vida nos separou, quantos a morte levou, o acaso nos reencontrou, o infortúnio nos reaproximou, e a amizade perdurou... perdurou... perdurou... durou... durou... durou... e continuará durando mais que o tempo que norteia o passado, o presente, o futuro. A amizade ficou.”


(06 de março/2010)
CooJornal no 674


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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