13/03/2010
Ano 13 - Número 675

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


O MUNDO PRECISA DE DOM QUIXOTE

Vendo, nesta já minha longa vida, tantas loucuras, tantos desmandos, tanta insensatez, tanta injustiça de várias ordens, uns poucos que possuem muito e uma imensidão de seres viventes que nada têm, que sobrevivem de migalhas, que morrem à míngua de tudo, e ainda são massacrados por guerras insanas, ditaduras sanguinárias, concluo que caminhamos mesmo para um Admirável Imundo Novo.

Quando hoje mais se planta o desamor nos corações, quando as rosas estão cedendo lugar aos espinhos, cada vez maiores e mais afiados, quando parece que estão querendo nos proibir até de sonhar, quando se vê todo tipo de bandalhice à sombra de uma impunidade que nos assusta, quando os ideais pelos quais antes muitos lutaram hoje estão a ser ridicularizados, mortos e sepultados, o que devo esperar dessa sociedade?

Quando se entrega um Prêmio Nobel de Paz a quem continua a municiar conflitos, a alimentar guerras que jamais terminarão, a apoiar ditaduras de direita e de esquerda (vide Paquistão, vide China, entre outras) e a ter como pretexto, sempre, um terrorismo que, a meu ver, hoje é muito mais conseqüência do que causa, que exemplo se pretende dar a um mundo desgovernado, injusto, caminhando a largos passos para o caos, para um vazio obscuro, um abismo sem fim?

Um mundo cujos governos mais se apóiam em mentiras, que somente se lembram dos povos mais necessitados quando lhes ocorrem catástrofes, quando então apelam para a generosidade, para a solidariedade internacional, como que a tentar aliviar suas consciências (se é que ainda as têm) visto que em suas cimeiras jamais tomaram decisões sérias, que visassem a partilhar ou mitigar o sofrimento alheio, abrindo as mãos apenas para conceder-lhes esmolas.

Um mundo hipócrita, onde impera o preconceito sob todas as suas formas, onde ainda existem pessoas que se dizem cristãs, que passam a mão na cabeça de algum pobre coitado, na rua, manifestando um penar confuso, porque não sincero, porque dissimulado, porque destilando fingimento, porque se interessa apenas em ser paternalista, já que seu elitismo não admite que a grande maioria desamparada possa um dia alcançar alto degrau de poder na sua sociedade. Ainda que honesto.

Quando poucos ainda insistem em manter-se íntegros, éticos, probos, enquanto uma imensa maioria, a que manda, que governa, que dá ordens, que faz leis, que deveria julgar crimes, bandalheiras de toda ordem, já há algum tempo curou sua “cegueira” que a tornava justa e, vendo, tornou-se realmente seletiva, devo pensar: para onde caminhamos? Talvez para uma Injustiça Soberana?

Alguns dirão que o mundo sempre foi assim, que as pessoas jamais foram diferentes, que a história se repete ciclicamente. Já li e já ouvi isso, algumas vezes. Em resumo, jamais mudaremos o mundo para melhor? Então devo concluir que fui traído por meus pais, por meus professores, por todos os conselheiros que tive? Por que fazemos tantas passeatas pela paz? Por que falamos tanto em fé e esperança? Por que pregam um mundo melhor se não acreditam nele?

Não fiquei louco nem estou a brincar com as palavras. Aliás, por falar em loucura, creio que nosso mundo está mesmo precisando é de um batalhão de D. Quixotes. Para esclarecer, lembro que D. Quixote de La Mancha foi um personagem criado por Miguel de Cervantes. O título do livro original é “El ingenioso hidalgo Dom Quixote de La Mancha.” A primeira edição foi publicada em Madri, em 1605.

O protagonista do livro, D. Quixote, entregara-se à leitura de romances de cavalaria, que haviam sido tão populares na época, mas estavam em declínio de popularidade. Ele acaba por acreditar na veracidade das histórias que lê, caminha para a loucura, e decide se tornar um cavaleiro errante. D. Quixote passa a viver então o seu próprio romance, suas próprias aventuras. O autor, Cervantes, visava a satirizar os preceitos que regiam as histórias fantasiosas dos heróis de fancaria.

A história, ou histórias, de D. Quixote, são apresentadas sob a forma de novela realista. Considerada a grande criação de Miguel de Cervantes, em Maio de 2002, o livro foi escolhido como a melhor obra de ficção de todos os tempos. Você sabia? Consta que a votação foi organizada pelo Clube dos Livros Noruegueses, tendo participado da mesma escritores de reconhecimento internacional. Foi também considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola.

Dom Quixote investe-se então de ideais cavalheirescos de amor, de paz e de justiça. Sai pelo mundo afora disposto a lutar por aqueles valores. Ele elege também como a dama ideal de seus sentimentos nobres uma camponesa a quem dá o nome de Dulcinea. A seu lado, como fiel servidor, estava sempre Sancho Pança. Este, em verdade, era realista, tinha os pés no chão, como se diz, porém de quase nada serviam seus conselhos ao “mestre” a quem servia, Dom Quixote.

Personagem de ficção, porém aplicado a uma realidade então reinante, ele tinha princípios e objetivos que em nossa atual realidade a maioria dos mandatários, espalhados pelo planeta, não tem. Temos sim, em casa e pelo mundo afora, muitos “heróis de fancaria”. Basta adaptarmos o comércio ali representado pela política atual, nacional e internacional.

Pois que saltassem hoje da ficção para o real, não apenas um, mas milhares, ou milhões de Dom Quixotes, imbuídos do mesmo espírito de luta do original de Cervantes, por mais ridicularizados que fossem pelos realistas da elite governante, que enfrentassem os muitos “moinhos de vento” que ainda permanecem neste mundo real como verdadeiros dragões da maldade. E como os temos, poderosos, vingativos, assassinos, impudentes, corruptos, biltres, mas regem nosso destino.

Pois, bendita loucura de Dom Quixote e seus ideais cavalheirescos de amor, de paz e de justiça, num mundo onde cada dia mais impera o desamor, se pratica a guerra e a justiça exibe constantemente seu lado de permissão da impunidade a corruptos, assassinos, e a toda uma corja de fora da lei, reservando seu braço punidor para os desamparados, os desvalidos, que não têm meios de comprar sua liberdade.

Este mundo precisa mesmo é de um imenso batalhão de Dom Quixotes.
(Recomendo a leitura da matéria que encontrarão no link abaixo. É longa, mas vale a pena lê-la. O autor é Aníbal Quitano, sociólogo, professor da Universidade de San Marcos, em Lima, no Peru.)

http://64.233.163.132/search?q=cache:xfwGScCqOugJ:www.scielo.br/scielo.php %3Fscript%3Dsci_arttext%26pid%3DS0103-40142005000300002+Dom+Quixote+e+os+moinhos+de+vento&cd=2&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br

 


(13 de março/2010)
CooJornal no 675


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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