27/03/2010
Ano 13 - Número 677

ARQUIVO SIMÕES


Francisco Simões
em Expressão Poética


 

          

Francisco Simões
 


POESIA
 

Quem surgiu primeiro o poeta ou a poesia? Alguns dirão, que bobagem, a poesia não poderia existir sem o poeta, logo… É, parece muito óbvio. Mas, num sentido bem amplo poesia não se limita às definições do dicionário que diz: “…aquilo que desperta o sentimento do belo, aquilo que há de elevado ou comovente em qualquer pessoa ou coisa.”

O belo, assim como o feio, já existia antes do homem, claro. A existência de ambos não justificaria a presença da poesia antes do surgimento do homem? Digo isto porque para mim a poesia não apenas é escrita, não somente se origina dos devaneios líricos de pessoas que têm uma sensibilidade maior que outras, não.

Eu inverteria a primeira definição do dicionário e ousaria afirmar que o belo, ou mesmo o feio, desperta no homem ou na mulher um sentimento, os eleva, os comove. Então a poesia está também fora de nós, ao nosso redor, ou como diz um amigo meu: “A poesia está no ar, na Natureza, na mulher, no homem, na flor, na mão que se estende à caridade, na tragédia das guerras, na vida, enfim, na morte.”

O ser humano traduz em versos os seus sentimentos e estes podem ser de amor, mas não obrigatoriamente só de. Esses sentimentos vêm de uma imagem externa, de uma experiência vivida ou de um devaneio, de uma fantasia, de um delírio. Talvez o poeta não se aperceba muitas vezes de que ao versejar ele está trazendo para o papel a poesia que a ele se oferece ao tocar seu sentimento.

A poesia realmente está em quase tudo a nossa volta. Se perto, pela presença, se distante ou ausente, pela saudade, mas até no delírio ou na fantasia temos a poesia no irreal, no abstrato, no pensamento insulado, no absconso mais remoto de nosso subconsciente. O poeta lhe dá ritmo, dita uma forma, a traduz para os seus versos, cria a poesia da poesia.

Com humildade o poeta reconhecerá que a poesia é maior do que ele. Ela realmente transcende seus versos, extrapassa o poeta. A inspiração é muitas das vezes mais um ato de ser inspirado pela própria poesia latente ou aparente, manifesta. Quando o poeta tem uma musa na verdade ele tem a própria poesia, personificada ou não. Versejando ele a homenageia.

Escolas, estilos etc são fruto da própria inquietação do poeta. Surgem do seu anseio fecundante, criativo, de avançar para além do conhecido, do repetido, de buscar fórmulas várias e variáveis tantas para se expressar poeticamente, porém alterando estruturas, compondo novas formas e configurações.

A poesia feita pelo homem se transforma. A que ele vê, sente, chora, sonha, toca, inspira-o, essa é imutável, ela apenas é e se basta em si mesma. Enquanto houver o mundo haverá a poesia, mesmo que o homem se tenha auto destruído. Ainda que o poeta jamais tivesse se apercebido do luar a poesia estaria sempre ali. O mesmo vale para o pôr-do-sol, para a gota de orvalho, para a folha que cai, para a flor que desabrocha, para “a paz de uma criança dormindo”( Vinícius de Moraes) etc.

O valor do poeta está na sua sensibilidade para perceber e registrar para os demais seres mortais a poesia sempre presente a sua volta. Afinal, como diz aquele meu amigo: “A poesia está no ar, na Natureza, na mulher, no homem, na flor, na mão que se estende à caridade, na tragédia das guerras, na vida, enfim, na morte.”

Até no Calendário a poesia está presente bem antes do poeta. Hoje, 21 de março é o Dia Mundial da Poesia. Somente em outubro, no dia 20, comemora-se o Dia do Poeta.

 

* Este artigo do Francisco Simões (Março/2001) fez parte do primeiro Especial de Poesia da Revista Rio Total.
 


(27 de março/2010)
CooJornal no 677


Francisco Simões
escritor, poeta, fotógrafo (expositor), ex-radialista
Rio de Janeiro
fm.simoes@terra.com.br
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